A cana e a natureza

Guia

O cultivo de cana na Amazônia pode aumentar a devastação da floresta?

Segundo levantamento da Companhia Brasileira de Abastecimento (Conab), a área de cana cultivada no Amazonas e no Pará é de 15 mil hectares, o que representa apenas 0,05% do total de área desses dois Estados somados. Como a legislação brasileira não permite novos cultivos da planta nesses Estados e a grande expansão da cana ocorre nas Regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul – ou nos Estados de Tocantins e Maranhão, em local distante da Floresta Amazônica –, não é correta a afirmação de que a cana aumentará a devastação da Amazônia (vide mapa).

Vale ressaltar que as condições do solo e do clima na região amazônica não são propícias para o plantio da cultura da cana. A aplicação da biotecnologia na cana poderá aumentar a produtividade do cultivo numa mesma área, o que permitirá reduzir a pressão pela expansão das fronteiras do cultivo.

Mapa

As plantações de cana (em vermelho) ficam a, pelo menos, 2 mil quilômetros da floresta amazônica

 

A queima da cana não é uma ação altamente poluidora?

A queima da cana é uma ação certamente menos poluente que a queima de combustível fóssil pela frota de automóveis do País. Estudos mostram que um hectare queimado de cana libera o equivalente a menos de uma tonelada de CO2, enquanto a fotossíntese efetuada pela própria cana durante todo o seu ciclo de crescimento retira 15 toneladas do gás do meio ambiente, o que dá um balanço altamente positivo. Ainda assim, todo o esforço está sendo feito para a eliminação dessa prática.

Gradualmente, o setor sucroalcooleiro, em consonância com as legislações ambientais, vem trabalhando nesse sentido. A Unica, representando a indústria paulista produtora de açúcar, etanol e bioeletricidade, e o Governo do Estado de São Paulo, assinaram, no dia 4 de junho de 2007, o Protocolo Agroambiental do Setor Sucroalcooleiro. Esse protocolo, de adesão voluntária, estabeleceu uma série de princípios e diretivas técnicas, de natureza ambiental, a serem observadas pelas indústrias da cana-de-açúcar.

A cultura da cana-de-açúcar traz vantagens para o meio ambiente?

Sim, e por diversas razões. Uma delas é que as pesquisas realizadas sobre a emissão de gases de efeito estufa (GEE) indicam que o volume de carbono sequestrado da atmosfera e incorporado ao solo pelo sistema radicular da cana é da ordem de 3 a 5 toneladas de carbono por hectare ao ano.

Além disso, a substituição paulatina de uma atividade (queima de combustíveis fósseis) por outra menos poluente (ampliação de cultivo de cana-de-açúcar e uso de etanol como combustível) gera um cenário ambientalmente mais atrativo, o que resulta na redução do efeito estufa.

Como já explicado anteriormente, o etanol é muito menos poluidor do que a gasolina. Além disso, o produto proveniente da cana-de-açúcar é ambientalmente melhor do que o etanol produzido, por exemplo, com base no milho. A maior vantagem ambiental da cana-de-açúcar em relação ao milho ocorre pelo balanço energético das duas culturas, o qual corresponde à razão entre a energia liberada pela queima do etanol e a energia necessária para produzi-lo. Ou seja, para fabricar etanol proveniente do milho é necessário gastar muito mais energia, até mesmo energia fóssil poluidora do ambiente, do que para produzir etanol com o uso da cana-de-açúcar. Portanto, a contribuição do etanol de cana no combate ao efeito estufa é muito superior à opção de milho. Esse resultado ambiental positivo é amplamente conhecido, o que garantiu visibilidade internacional ao programa de etanol brasileiro.

Quais as vantagens da cana transgênica?

A aplicação da engenharia genética nas culturas – pelo menos nos produtos de primeira geração – tem o objetivo de buscar um aumento da produtividade, direta ou indiretamente, que proporcione incremento na renda de toda a cadeia, a começar pelo produtor.

Vantagens específicas da cana transgênica dependem da característica incorporada geneticamente à planta. Por exemplo, um gene que confere resistência à broca da cana-de-açúcar e a outras lagartas oferecerá ao produtor uma planta com menor necessidade de medidas de controle dessas pragas, sejam biológicas, sejam químicas, o que, por consequência, trará um ganho monetário muito significativo, além de benefícios ambientais muito grandes.

Uma cana com maior teor de açúcar permitirá a produção de maior quantidade de açúcar e etanol nas mesmas áreas em que, tradicionalmente, a cultura é plantada. Já uma cana tolerante à seca poderia ser plantada em áreas de restrição hídrica, possibilitando o uso de locais hoje marginalizados. Ao mesmo tempo, permitiria melhor aproveitamento da água nas regiões em que é plantada atualmente.

Quais os perigos da polinização (cruzamento) de cana transgênica para a convencional?

Cruzamento

A polinização natural da cana-de-açúcar é raríssima

Nas condições de cultivo da cana no Brasil, a polinização natural é raríssima, em razão da inexistência de condições climáticas favoráveis para tanto. Mais importante do que a possibilidade de polinização é a de produção de sementes e, depois, de sua germinação para o desenvolvimento de uma nova planta. Isso porque a cana é gerada pela multiplicação das gemas dos colmos, e não das sementes (que são originadas do pólen). Contudo, mesmo nesses casos, as condições climáticas são altamente desfavoráveis.

Também em tais casos as condições climáticas são altamente desfavoráveis. Tanto é que não existem relatos de que uma nova variedade de cana tenha sido encontrada no campo como resultado desse processo. Ademais, os produtores procuram evitar o florescimento da planta, pois, quando isso ocorre, o teor de açúcar na cana – índice que serve de referência para a remuneração do agricultor – cai.

A cana é natural do Brasil?

Não, a cana é uma planta exótica oriunda de outra região do planeta, assim como outras importantes culturas para o setor agrícola brasileiro, a exemplo do milho, da laranja e do arroz. A planta vem do Sudeste Asiático e foi introduzida no País pelos portugueses, algum tempo após o descobrimento, da mesma forma como ocorreu em todo o continente americano e em muitos outros países tropicais.