De acordo com o relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) no final de 2014, o Brasil  deixou a lista de nações com pessoas na extrema pobreza. A instituição considera que países com índices de insegurança alimentar abaixo de 5% superaram a fome estrutural e o Brasil tem hoje apenas 1,7% de sua população nessa situação. Isso significa que na última década, 15,6 milhões de brasileiros abandonaram a condição de subalimentação.

O investimento do Brasil em pesquisa agropecuária e em tecnologia agrícola nas últimas quatro décadas construiu os alicerces necessários para a obtenção desse resultado. O representante da FAO no País, Alan Bojanic, afirma que o aumento da produção e do acesso aos alimentos foi fundamental. “Para ter segurança alimentar, é importante que a comida esteja disponível e que as pessoas tenham dinheiro para comprá-la”, afirma o engenheiro agrônomo que possui mestrado em economia agrícola e Ph.D em economia ambiental.

Alan BojanicHá quase dois anos à frente da entidade local e há nove na organização, Bojanic afirma que a atuação da FAO no Brasil é única. “O País, ao mesmo tempo, tem condições de ajudar outras nações mas ainda tem problemas pontuais para resolver”, revela. Em entrevista à AgroAnalysis, Alan Bojanic falou sobre transferência e uso de tecnologia, colaboração, agricultura tropical e sobre o futuro, aproveitando que 2015 é o ano internacional dos solos.

Quais são as prioridades da FAO no Brasil?

A FAO conta com dois tipos de escritórios, aqueles que levam assistência técnica e financiamento, que geralmente estão nos países em desenvolvimento, e outros que atuam na promoção da cooperação e facilitação dos recursos, como os do Japão, Estados Unidos, e Europa. O escritório da FAO no Brasil está em uma situação intermediária. O País já é um grande doador – aliás, um dos dez maiores doadores de recursos da FAO – e presta muita assistência técnica aos países da América Latina e do Caribe. Entretanto, também administramos projetos que visam contribuir para que o Brasil avance ainda mais. Há projetos de desenvolvimento, a exemplo da redução do desmatamento na região do Alto Xingu, do manejo da caatinga, de monitoramento de políticas de segurança alimentar e ações que estão relacionadas com o inventário florestal nacional.

Como a FAO atua para promover a transferência de tecnologia, levando em consideração a agricultura tropical brasileira?

Aspas BojanicO Brasil tem acesso a um conhecimento único e também acumulou muita experiência. Talvez seja o País com a agricultura tropical mais competitiva do mundo. Os saltos de produtividade alcançados são decorrentes do conhecimento. E não estamos falando apenas de tecnologia, as boas práticas, as políticas para fortalecer a agricultura, o financiamento agrário e a assistência técnica também compõem esse saber. Diante disso, estamos elaborando sistemas que permitam a transferência destas informações para países menos desenvolvidos e que possuam uma demanda clara.

Não basta produzir alimentos, é preciso que a atividade seja rentável, que possibilite ao agricultor uma vida digna e saudável no campo. É importante investir em tecnificação para haver um aumento de receitas. O que fazemos é ajudar o Brasil a identificar essa demanda. Quais são os países? Que tipos de condições agroclimáticas têm? Quais são as variáveis socioeconômicas dos demandantes? Essa assistência se dá principalmente por meio da ABC, Agência Brasileira de Cooperação (ABC), mas também por meio de outros parceiros. A Embrapa, por exemplo, compartilha conhecimento com Angola, Bolívia, Nicarágua e muitas outras nações.

A própria FAO tem missões de identificação, de exploração, e de partilha dos saberes. Temos grande capilaridade pois existem escritórios em mais de 56 países da África e mais de 25 países da América Latina e Caribe. Por meio deles, identificamos a demanda, facilitamos as missões e o monitoramento depois que um projeto está em curso. Além disso, ajudamos a montar equipes de técnicos e produtores internacionais que vêm ao Brasil aprender com a bem-sucedida experiência local. Há também workshops e seminários. É uma atuação dinâmica. Estão acontecendo muitas coisas e temos uma agenda cheia para o programa de cooperação com outros países, principalmente na África e América Latina.

Nos últimos 40 anos o Brasil transformou sua agricultura em uma atividade altamente competitiva e produtiva. Na visão da FAO, quais foram as iniciativas de sucesso que contribuíram para esse desempenho e o que devemos fazer para continuar avançando?

Não é possível falar de um só fator. Ainda assim, sem dúvida, a criação da Embrapa e as tecnologias desenvolvidas a partir da pesquisa agropecuária têm sido chave. Foi muito estratégico o investimento em tecnologia para o desenvolvimento de técnicas de manejo de biomas (a exemplo do cerrado), da produção de sementes melhoradas de alta qualidade e de maquinário agrícola. Os alicerces para isso foram determinados por políticas econômicas a exemplo da promoção das exportações, da sanidade vegetal e da saúde animal.

O Brasil explorou seu potencial e buscou um mercado maior para seus produtos. Entretanto, só foi possível alcançar o desempenho que vemos hoje porque o agricultor brasileiro tem perfil empreendedor. Os produtores enfrentaram o desafio de produzir mais usando tecnologia e se esforçaram para aumentar a produtividade, inserir-se nos mercados internacionais e superar gargalos. Essas são características que precisam ser reconhecidas.

Por exemplo, a figura das cooperativas da região Sul é um modelo de tecnologia social e boas práticas que a FAO está promovendo e exportando para outros países. O cooperativismo do Brasil é um dos mais fortes do mundo, focado em organização, dinamismo e agregação de valor. É um modelo que está relacionado à solidariedade. Tudo isso, ao final, deriva dessa grande vontade de conseguir as coisas que o agricultor brasileiro tem.

O crescimento populacional impõe sobre a atual geração o desafio de alimentar a todos. Como a agricultura brasileira pode contribuir para este processo?

Nós identificamos esse desafio. A população mundial deverá chegar a 9 bilhões em 2050. Para atender à demanda correspondente por alimentos, os países precisarão investir aproximadamente US$ 44 bilhões (aproximadamente R$ 110 bilhões) por ano na produção e distribuição de alimentos, cinco vezes mais do que os US$ 7,9 bilhões (quase R$ 20 bilhões) que são investidos atualmente. Com esse aporte, a produção de alimentos deverá crescer 60%, valor apontado como necessário para atender a essa demanda.

Estamos trabalhando com organizações públicas e privadas brasileiras justamente para estudar como será possível aumentar a produção sem avançar muito sobre as áreas de preservação ambiental. Queremos também identificar como estimular o comércio, uma vez que resolver o problema de acesso aos alimentos é também uma questão central. Nós avaliamos que é importante promover políticas de acesso como as que existem no Brasil, a exemplo dos programas Bolsa Família, Brasil Sem Miséria e outros. A ideia é aumentar a produtividade e trabalhar para facilitar o acesso.

Outra frente de atuação é a diversificação de opções produtivas, com ênfase no aproveitamento de áreas degradadas. Estima-se que o Brasil tenha mais de 30 milhões de hectares improdutivos e a ideia é recuperar essas áreas para a agricultura. É uma grande oportunidade. Não há dúvida que o País tem potencial para duplicar a atual produção até o ano 2050. O discurso de que o Brasil vai alimentar o mundo em 15 ou 20 anos não é fantasia, é uma realidade. Para isso é necessário combinar políticas de incentivo e intensificação da produção.

Para atingir esse objetivo, a FAO acredita que há um modelo mais adequado de agricultura?

Nós procuramos ver a multifuncionalidade da agricultura e dos sistemas produtivos. Isso quer dizer que acreditamos nos dois modelos, o da produção familiar e o da agricultura de grande escala. Todos podem contribuir nesse processo. Existe espaço para o aprimoramento da produtividade em ambos os casos. Boas práticas de manejo de solo, incorporação de tecnologias, incentivo às inovações e respeito aos preceitos de sustentabilidade são critérios para quaisquer modelos. O que precisamos é de agricultores engajados e políticas adequadas.

A FAO acredita na cooperação de todos os modelos disponíveis para produzir alimentos. Não podemos pensar em apenas um. Acreditamos que há complementariedade entre agricultura familiar e o agronegócio. Ambos são importantes, não concorrentes e não excludentes. É possível falar em colaboração nas áreas de transferência de tecnologia, empregos, logística e muitas outras. Devemos ver o cenário como uma estrutura em que todos as atividades atuam em simbiose em detrimento de modelos estanques.

Como a FAO avalia o uso de insumos agrícolas e sementes genAspas Bojaniceticamente modificadas (GM) na agricultura?

Nesses dois aspectos, a FAO assume uma posição de neutralidade. Com relação ao uso de agroquímicos, defendemos as diretrizes estabelecidas no Código de Conduta Internacional de Conduta para a Distribuição e Utilização de Pesticidas e que vários países adotaram. Atualmente é muito difícil produzir e controlar pragas sem a ajuda dos insumos, especialmente em ambientes tropicais em que insetos e plantas invasoras são abundantes. Dessa maneira, devemos usar produtos que impactem o mínimo possível no meio ambiente e na saúde das pessoas. Sobre os organismos geneticamente modificados (OGM), os transgênicos, avaliamos que os países devem ter soberania para definir suas políticas sobre o tema. Existem países que são membros da FAO que acreditam que os OGM não devem ser usados e outros que os adotam. Sem dúvida, algumas práticas da biotecnologia, que é um conceito muito abrangente, são opções importantes para o desenvolvimento da agricultura. A biotecnologia oferece um leque muito grande de práticas para melhorar a produtividade.

Qual será o foco da FAO em 2015?

É importante mencionar que 2015 será o Ano Internacional dos Solos. O objetivo é promover a conservação dos solos, refletir sobre o fato d de que eles são um recurso ameaçado e que precisam ser conservados, já que são a base para a produção de alimentos.

Texto originalmente publicado na edição de fevereiro de 2015 da revista AgroAnalysis.

*Alan Bojanic é representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) no Brasil, mestre em economia agrícola e PhD em economia ambiental.