Por Flávio Finardi¹, Leila Macedo², Walter Colli³

flavioleilawalter_300x200Diversos especialistas concordam que as biociências estarão entre as áreas que mais vão atrair investimentos e profissionais ao longo deste século. Nesse cenário, a biotecnologia se destaca pelo seu caráter inovador e pela elevada potencialidade de gerar novos produtos para o progresso da agricultura, da geração de energia e da saúde humana e animal. Entretanto, exatamente por ser um campo relativamente recente, o desenvolvimento de novas tecnologias neste segmento depende da colaboração entre diversos setores.

Ao longo da formação do profissional de biotecnologia, há um constante estímulo ao desenvolvimento de produtos. Apesar disso, a maior parte dos currículos não é focada nos mecanismos necessários para a obtenção de patentes, para atender ao processo regulatório brasileiro e em questões mercadológicas. Embora os pesquisadores possuam o conhecimento técnico, nesse modelo, para chegarem a uma aplicação comercialmente viável, devem recorrer a parcerias com outras instituições e empresas que, tradicionalmente, possuem essa experiência.

Além disso, a biotecnologia é uma aplicação da ciência que exige tempo e recursos. De acordo com levantamento realizado por Phillips McDougall, para que uma nova planta transgênica esteja disponível ao consumidor são necessários, em média, 13 anos. Nesse período, aproximadamente US$ 136 milhões são investidos. Essa é mais uma razão pela qual é necessário estabelecer cooperações para que os cientistas consigam desenvolver produtos que alcancem o mercado.

Não faltam exemplos bem-sucedidos dessa interação. Nos Estados Unidos, por exemplo, a parceria entre Universidade do Havaí e uma empresa de sementes transgênicas levou ao mercado uma variedade de mamão resistente a um vírus endêmico no arquipélago. A Universidade de Nottingham, no Reino Unido, em conjunto com a iniciativa privada, também estuda variedades transgênicas de frutas. Na América Latina, a Universidade Nacional do Litoral da Argentina é a responsável pela identificação dos genes que expressam a tolerância ao estresse hídrico em uma soja transgênica recentemente aprovada. Uma empresa local introduziu o gene no vegetal.

No Brasil, é também com base na colaboração que a Embrapa, uma instituição pública de pesquisa, está desenvolvendo e lançando produtos biotecnológicos. Em parceria com a Agência de Cooperação Internacional do Japão e da Universidade de Nagoya, a empresa brasileira está em fase avançada na obtenção de cultivares de soja tolerantes à seca. Resultado de um modelo semelhante, após 20 anos de trabalho da Embrapa e da BASF, foi lançada, em 2015, uma soja geneticamente modificada (GM) tolerante a herbicidas da classe das imidazolinonas.

A relação entre a iniciativa privada e o setor público é cada vez mais atual e relevante para a sociedade. Não cabe mais a simplificação que restringe o público à hipotética vocação para pesquisa de base e o privado à aplicação desse conhecimento no desenvolvimento de produtos. Parcerias entre esses setores, realizadas de maneira transparente e regulamentada, já resultaram no lançamento de diversas inovações inovadores em todo o mundo. De fato, no cenário atual, em que há um grande fluxo de informações, a interação entre a academia e a indústria tem se tornado cada vez mais intensa, levando a uma saudável troca de experiências.

Quando estamos tratando de ciências que estão na fronteira do conhecimento como aquelas que subsidiam a biotecnologia, a independência dos cientistas deve ser avaliada à luz dessa realidade. O fato de um pesquisador ter colaborado com uma empresa em algum momento de sua carreira não prejudica, necessariamente, a natureza autônoma de sua atividade, tampouco o torna vinculado à empresa. Ao contrário, revela sua capacidade de estabelecer interações multidisciplinares, de potencializar o número de oportunidades e possiblidades de resultados efetivos para a sociedade.

Artigo originalmente publicado na edição de 29 de março do jornal Correio Braziliense


[1] Flávio Finardi, Ph.D. em Ciência dos Alimentos, professor associado da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da CTNBio entre fevereiro de 2012 e fevereiro de 2014.

[2] Leila Macedo, Ph.D. em Microbiologia e Imunologia, presidente da Associação Nacional de Biossegurança (ANBIO) e presidente da CTNBio entre setembro de 1999 e março de 2001.

[3] Walter Colli, Ph.D. em Bioquímica, professor Emérito do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da CTNBio entre março de 2006 e janeiro de 2010.