Adriana Brondani*

adriana_320x200A economia da China começou 2016 como terminou os últimos anos: no foco dos investidores. Mesmo não apresentando mais crescimento econômico de dois dígitos como outrora, as previsões apontam que o país asiático terá expansão de 6% ao longo dos próximos anos. Na nação mais populosa do mundo, 300 milhões de pessoas já migraram para a classe média, resultando em uma maior demanda por itens como proteína animal e derivados. Em um futuro não distante, outros 200 milhões devem engrossar essa estatística.

Se hoje, só no mercado de carnes, o déficit é de 800 mil toneladas, amanhã a China terá um apetite ainda maior pelos produtos do agronegócio mundial. Segundo o órgão de análise do governo chinês revelou no início de 2016, o país vai importar cerca de 2 milhões de toneladas a mais de soja na safra 2015/16, atingindo 80 milhões de toneladas no ano comercial. Se esses valores se confirmarem, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) estima que, ao final desse período, a China será responsável por 64% das importações de soja do mundo.

Do outro lado desses números grandiosos estão os exportadores de produtos agrícolas como o Brasil. De acordo com dados divulgados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em março deste ano, a safra brasileira 2015/2016 de grãos poderá atingir o recorde de 210,3 milhões de toneladas. A estimativa, equivale a 1,3% ou a 2,6 milhões de toneladas a mais em relação à safra 2014/15. Os principais destaques são a soja e o milho. Nesse cenário em que a China precisa importar enormes quantidades de grãos, o Brasil, reconhecido mundialmente por sua competitividade no agronegócio, tem atendido a boa parte dessa demanda.

O Brasil tem na China seu principal parceiro comercial desde 2009. Também nos dois primeiros meses de 2016, Pequim já desponta o principal comprador de produtos do agronegócio brasileiro. De acordo com dados do Sistema de Estatísticas de Comércio Exterior do Agronegócio Brasileiro (AgroStat), nesse período, o país asiático foi destino de 13% dos frutos de nossa agricultura e pecuária. Considerando todo o ano de 2015, tivemos recorde na quantidade embarcada de soja em grão, milho, frango in natura, café e celulose. A China foi um dos principais destinos.

Fato é que 94% da soja brasileira e 84% do milho são transgênicos. Esses produtos compõem o portfólio de grãos que são enviados para diversos países todos os anos. Entretanto, há uma ameaça no horizonte desse mercado. Para que esse comércio bilateral continue a gerar os dividendos que têm contribuído para que o Brasil se desenvolva ainda mais, é indispensável que as mesmas variedades geneticamente modificadas (GM) que estão sendo plantadas aqui sejam aprovadas pelos países importadores.

Essa sincronia deve ocorrer porque, como os processos de aprovação de sementes GM são feitos caso a caso, a liberação de uma soja transgênica, por exemplo, só permite que a planta com aquela modificação específica seja cultivada ou importada. Isso significa que a variedade plantada no país exportador deve ser rigorosamente a mesma permitida no país importador.

Diversos países, dentre eles o Brasil, preocupados com a necessidade de se produzir mais na mesma área, recorrem aos organismos geneticamente modificados (OGM) para aumentar a quantidade de alimentos disponíveis. Porém, caso as aprovações não estejam sincronizadas, em virtude de processos pouco transparentes de avaliação de biossegurança, esses produtos podem esbarrar em barreiras comerciais.

A China, maior consumidora de alimentos do mundo, deve estar alinhada com essa conjuntura mundial. Para contribuir para essa harmonização, nos países exportadores e importadores, é indispensável que os processos de avaliação de biossegurança de novos OGM sejam baseados em critérios científicos. Dessa maneira, as negociações bilaterais para essa sincronia podem se dar em uma linguagem universal, a da ciência.

*Adriana Brondani é diretora-executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia e bióloga graduada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde também fez mestrado e doutorado.