Vasco Azevedo*

vasco-ariston_320x200Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, o Brasil fechou 2015 com o registro de aproximadamente 1,6 milhões de casos prováveis de dengue. Esse número é 178% maior do que o registrado em 2014 e 14% maior do que o de 2013, até então, ano que detinha o recorde de notificações. Os dados mostram que o País vem perdendo a batalha contra a doença e o mosquito que a transmite, o Aedes aegypti. O inseto também está associado a casos de dengue, febre amarela, febre chicungunya e zika.

Transmitidas pelo mesmo mosquito, a estratégia mais óbvia de prevenção a esses males é o combate ao vetor. Uma experiência inovadora vem dando sinais de que a rota genética é promissora para evitar que o Aedes aegypti cause ainda mais estrago. Em um bairro de Piracicaba (SP), a soltura de insetos transgênicos reduziu em 82% a quantidade de larvas. Foram apenas 9 casos registrados da doença, contra 124 antes da ação. Em 2011, testes na Bahia demonstraram diminuição de 80%.

Os mosquitos machos geneticamente modificados (GM) carregam um gene que, apesar de serem inofensivos para os insetos que os possuem, é letal para a prole, que morre ainda em estado larval. Ao copularem com fêmeas selvagens, será gerada uma descendência que morre ainda nos primeiros estágios de desenvolvimento, reduzindo a população do vetor.

Como somente as fêmeas do Aedes aegypti se alimentam de sangue e transmitem o vírus causador da doença, não há motivos para temer que o inseto GM aumente a transmissão de moléstias. Além disso, o controle com o Aedes transgênico poderia reduzir a aplicação de inseticidas, o famoso fumacê, pelas ruas do País. Mesmo diante dos benefícios, boatos sobre a tecnologia aparecem, estimulando um cenário de suspeita. A mais recente inverdade atribuía ao mosquito GM relação com o surto de microcefalia, fato desmentido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A exemplo do que ocorre com a agricultura, a transgenia se mostra uma ferramenta para contribuir também com a melhoria das condições de saúde da população. A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) aprovou a liberação comercial do mosquito GM ainda em 2014. Porém, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária ainda não registrou a tecnologia. Mesmo diante da urgência, e apesar dos resultados dos testes, a agência não tem uma previsão de quando emitirá seu parecer.

Na tentativa de diminuir a incidência de doenças, nenhuma tecnologia ou estratégia deve ser negligenciada. As estatísticas mostram que, onde foi testada, a modificação genética do mosquito foi bem-sucedida. A população e o poder público devem olhar para essa ferramenta como uma alternativa, não com desconfiança.

Artigo originalmente publicado na edição de 27 de março do jornal O Estado de Minas

*Vasco Azevedo é veterinário. Possui mestrado e doutorado em Genética de Microrganismos pelo Instituto National Agronomique Paris Grignon, pós-doutorado pelo Departamento de Microbiologia da Escola de Medicina da Universidade da Pensilvânia e livre-docência pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP). É Professor Titular da Universidade Federal de Minas Gerais.