Por Adriana Brondani¹

Não é possível falar de agricultura brasileira sem mencionar números grandiosos. Em nosso território, com práticas sustentáveis, emprego de tecnologia e agricultores comprometidos, produzimos a maior parte dos alimentos, fibras e energias renováveis consumidas em todo o mundo. Na safra 2016/2017, só em grãos, o País deverá colher 215,3 milhões de toneladas, segundo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Por falar em grãos, soja e milho permanecem como principais culturas do País. As duas commodities correspondem a quase 90% do que é produzido. A soja deve alcançar uma produção acima de 100 milhões de toneladas (t) e o milho quase 85 milhões, distribuídas entre primeira e segunda safra. Não por acaso, estão disponíveis para essas culturas, além do algodão, a inovação das sementes geneticamente modificadas (GM).

Há outros números que impressionam. De acordo com o último levantamento do Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (ISAAA), a área plantada com culturas transgênicas no Brasil foi 44,2 milhões de hectares, a segunda maior do mundo. Nessa área, aproximadamente 39% foi cultivada com plantas resistentes a insetos (variedades Bt). O cultivo da tecnologia Bt em grandes áreas pode resultar na seleção de pragas-alvo resistentes às toxinas Bt. Diante disso, a implementação de um programa de Manejo da Resistência de Insetos (MRI) é indispensável e o refúgio é a principal estratégia desses programas.

O refúgio é uma área cultivada com plantas não Bt em lavouras de soja, milho ou algodão transgênicas cujo objetivo é produzir insetos suscetíveis às proteínas inseticidas que irão se acasalar com os insetos resistentes provenientes das áreas Bt, gerando novos indivíduos suscetíveis à tecnologia. A ideia é manter uma população de pragas vulneráveis ao efeito inseticida da variedade transgênica e preservar os benefícios dessa tecnologia.

O percentual da área que deve ser usada como refúgio varia de acordo com a cultura transgênica utilizada. As áreas de refúgio devem estar localizadas a uma distância máxima de 800 metros da lavoura com tecnologia Bt e a planta deve ser da mesma espécie, além de ter ciclo e porte igual ao da variedade Bt. A proporção é de 20% para a soja e o algodão e de 10% para o milho.

Elevar a taxa de adoção de refúgio é um desafio. Para haver um índice maior de agricultores com proteção correta da sua lavoura por meio da adoção do refúgio, empresas produtoras de sementes, cooperativas, associações e acadêmicos já estão engajados em programas de educação e de extensão rural. O Boas Práticas Agronômicas é uma dessas iniciativas fundamentais para ajudar os agricultores a tomar as decisões mais adequadas aos seus sistemas de produção.

Também chamado de BOAS pelos produtores, o projeto que tem como objetivo estreitar vínculos com o homem do campo, estabelecendo-se como parceiro e fonte confiável de informações técnicas sobre a melhor forma de utilizar a biotecnologia agrícola e preservar a eficácia das sementes Bt. Desde julho de 2015, o programa já percorreu 31 cidades de 9 estados produtores, impactando 10 mil agricultores por meio de atividades interativas conduzidas por uma equipe multidisciplinar de profissionais em congressos do setor, feiras agrícolas e dias de campo.

Os números apresentados pelo Brasil na adoção de tecnologia no campo são impressionantes. Mas, é necessário, também, que todo o setor apoie os programas de educação e de extensão rural, essenciais para a manutenção da eficiência, durabilidade da tecnologia e diminuição de insetos resistentes ao Bt. Informações técnicas e esclarecimento de dúvidas podem ser encontrados no site www.boaspraticasagronomicas.com.br.

 

Artigo originalmente publicado na edição de fevereiro de 2017 da revista AgroAnalysis


 

*Adriana Brondani é diretora-executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia. Bióloga, é graduada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde também fez mestrado e doutorado. Tem um histórico de atividades acadêmicas como professora de graduação e mestrado em bioquímica e biologia molecular na Universidade Luterana do Brasil (RS) e de pós-graduação na UFRGS e na PUCRS. Trabalhou no Hospital de Clínicas de Porto Alegre e na Fundação SOAD (Fundação de Pesquisas contra o Câncer), com linhas de investigação em câncer.