Elibio Rech

elibio-leopoldo-rech-filho-_320x200A utilização da tecnologia do DNA recombinante constitui uma nova e fundamental ferramenta para o contínuo desenvolvimento de sistemas agrícolas e produção de alimentos. Apesar da adoção desta tecnologia nos Estados Unidos da América, China, Argentina e partes da África, uma variedade de fatores tem sido questionados em diferentes países. As duas principais questões incluem: 1) a segurança dos produtos derivados para consumo humano e 2) o potencial impacto negativo sobre o meio ambiente.

Abaixo, está descrito um resumo sucinto dos resultados disponíveis sobre a segurança alimentar e ambiental, envolvendo cinco pedidos para a liberação comercial de produtos transgênicos no Brasil, apresentados à Comissão Técnica Nacional de Biosegurança (CTNBio).

Os pedidos envolvem:

  1. A linhagem de milho transgênico resistente a insetos e tolerante a herbicida, denominada: Milho Bt 11, contendo a proteína inseticida Cry1Ab, isolada da bactéria Bacillus thuringiensis subsp. Kurstaki cepa HD1 e a proteína herbicida fosfinotricina acetil transferase (PAT), isolada da bactéria Streptomyces viridochromogenes, empresa Syngenta;
  2. A linhagem de milho transgênico resistente a insetos e tolerante a herbicida, denominada: Milho ICP4 “Pacha”, contendo a proteína inseticida VIP3A, isolada da bactéria Bacillus thuringiensis AB88 e a proteína herbicida PAT, empresa Syngenta;
  3. A linhagem de milho transgênico resistente a insetos, denominada: Milho Mon 810, contendo a proteína inseticida Cry1Ab, empresa Monsanto;
  4. A linhagem de milho transgênico tolerante à herbicida, denominada: a) Milho Liberty Link T25, contendo a proteína herbicida PAT, empresa Aventis/Bayer;
  5. A linhagem de soja tolerante a herbicida, denominada: Soja Roundup Ready, contendo a proteína herbicida 5-enol-piruvato-chiquimato-fosfato sintase (EPSPSCP4), isolada da bactéria do solo Agrobacterium sp., empresa Monsanto.

As conclusões dos estudos das linhagens transgênicas acima mencionadas indicaram que:

Plantas de milho e soja, são culturas tradicionais no sistema agrícola nacional. Tanto o milho como a soja, não são plantas daninhas para outras culturas e não possuem efeitos patogênicos.

A caracterização molecular das linhagens transgênicas de milho e soja são conhecidas e foram descritas detalhadamente. Os genes introduzidos não demonstraram propriedades patogênicas. As inserções transgênicas no genoma da plantas de milho e soja foram estáveis, e possuíram heranças mendelianas, ou seja, foram transmitidas através das gerações das sementes. Por exemplo, o organismo doador do gene Cry1Ab, introduzido no milho MON810, é um microrganismo comumente encontrado no solo (Bacillus thuringiensis subsp. Kurstaki), e amplamente utilizado como base em formulações microbianas, utilizadas como inseticidas e disponíveis comercialmente.

Em relação à segurança ambiental, as linhagens de milho e soja transgênicas, possuem o mesmo potencial que as plantas de milho e soja não transgênicas, de se tornarem plantas daninhas. A possibilidade de transferência dos transgenes são as mesmas do que qualquer outro gene do milho e da soja, e ocorrem somente em plantas de milho e soja. Devido às características das proteínas que produzidas pelas linhagens transgênicas de milho e soja, esta transferência não apresentou impacto negativo ao meio ambiente.

A atividades das proteínas introduzidas são altamente específicas para o controle de insetos lepidópteros no milho, não tendo sido observado efeitos em outros insetos, aves, peixes, mamíferos e seres humanos. Em relação ao cruzamento, não existem espécies silvestres de plantas daninhas ou não, capazes de cruzar com o milho e com a soja no Brasil. No caso do milho e soja tolerantes a herbicidas, estudos extensivos tem demonstrado que as proteínas herbicidas não tem causado efeitos deletérios em organismos não-alvo, demonstrando que os níveis das proteínas herbicidas nas linhagens transgênicas não são tóxicas para organismos benéficos. Caso ocorra fecundação cruzada, não haveria impacto negativo ao meio ambiente, pois a soja e o milho não sobrevivem meio ambiente do Brasil, sem a intervenção do homem. Em adição, as formulações dos produtos comerciais (herbicidas), tem sido utilizados em nossos sistemas de produção agrícola rotineiramente, em culturas não transgênicas, não tendo sido apresentadas evidências de problemas de contaminação de lençol freático.

Em relação à segurança alimentar das linhagens transgênicas, as avaliações das linhagens transgênicas do milho resistentes a insetos e milho e soja tolerantes a herbicidas, foram baseadas nas avaliações da equivalência das composições das linhagens transgênicas, comparadas com outros materiais de milho e soja. As análises das composições dos grãos e da forragem derivados das linhagens de milho e soja, tiveram como base aspectos bromatológicos (incluindo protídeos, carboidratos, lipídeos e resíduos), minerais, bem como nutricionais (ácidos graxos e vitaminas). Os resultados demonstraram que os níveis observados nas plantas nas linhagens transgênicas foram equivalentes em quantidade e qualidade, aos padrões de milho e soja convencionais (não transgênicos) utilizados, além de estarem dentro dos níveis descritos na literatura para as culturas do milho e da soja. As proteínas recombinantes presentes no milho e na soja, foram rapidamente degradadas nas condições presentes no sistema gástrico de seres humanos. As proteínas em questão são inativadas pelo calor, utilizado no processamento da soja e do milho. As proteínas em questão, não apresentaram propriedades associadas a proteínas alergênicas. Em adição, a administração das proteínas recombinantes em doses elevadas, não demonstraram efeitos tóxicos em camundongos.

As linhagens de milho resistentes a insetos e as linhagens de milho e soja tolerantes a herbicidas, foram criteriosamente avaliadas quanto à segurança ambiental e alimentar por diversos cientistas independentes, de empresas e agências de regulamentação, em países onde as linhagens mencionadas foram aprovadas para cultivo comercial e no Brasil. Não tendo havido questionamentos quanto à segurança ambiental ou alimentar por parte dos executores das avaliações e agências de regulamentação. Em países onde existe a aprovação para a comercialização, os materiais derivados das linhagens de milho e soja transgênicas mencionadas, tem ocupado áreas superiores a dezenas de milhões de hectares plantados ao longo dos últimos quase sete anos. Não tendo sido apresentado nenhuma evidência de efeitos deletérios à saúde humana, animal ou ao meio ambiente. Em adição, os resultados da utilização dos produtos transgênicos mencionados acima, tem demonstrado um eficiente controle das pragas lepidópteras do milho e um controle mais racional das ervas daninhas na cultura do milho e da soja.

Considero de fundamental relevância, que as avaliações sobre a manipulação da tecnologia do DNA recombinante para a produção de plantas transgênicas, sejam analisadas com base nos seguintes parâmetros:

  1. Os sistemas agrícolas que utilizamos, para efetuarmos as modificações genéticas necessárias e consequente produção de alimentos em larga escala, tem inevitavelmente, causado impacto sobre o meio ambiente. A utilização da modificação genética através da tecnologia do DNA recombinante é um dos fatores entre os acima mencionado;
  2. O sistema denominado tradicional tem sido responsável, e continuará sendo, pela produção das plantas que servem de base para nossa alimentação;
  3. A utilização da tecnologia do DNA recombinante através da produção de plantas transgênicas, tem demonstrado a disponibilização de produtos com benefícios reais para o meio ambiente, e tem estado desenvolvendo inúmeros outros produtos;
  4. A polinização cruzada entre culturas transgênicas e não transgênicas podem ocorrer, em níveis relativamente baixos e sobre algumas circunstâncias específicas. Entretanto, em relação às culturas transgênicas aprovadas e atualmente comercializadas, os resultados de acompanhamentos não tem indicado efeitos negativos para o meio ambiente;
  5. A polinização de ervas daninhas pelas culturas transgênicas, poderão ocorrer em circunstâncias limitadas e específicas, sem conseqüências negativas esperadas para as culturas não transgênicas;
  6. Existem também questões sobre o potencial efeito deletério de culturas transgênicas, resistentes a espécies de insetos não alvos, onde sua utilização poderia futuramente exacerbar o potencial problema de reduzir o suprimento de alimentos para as terras agricultáveis, associadas a pássaros e outras formas da vida selvagem. Atualmente, não existem evidências que possam dar suporte a estas questões. Entretanto, mais pesquisas são necessárias sobre este importante aspecto ambiental. Até que mais informações estejam disponíveis, a criação de refúgios com culturas não transgênicos consorciadas e a conservação das áreas silvestres, podem oferecer uma compensação para estas espécies animais, que tendem a se alimentar de ervas ao redor de terras agricultáveis;
  7. As questões relacionadas com os efeitos sobre a segurança ambiental e alimentar tem sido avaliados em profundidade, como exigência das agências de regulamentação, antes que qualquer produto possa chegar ao mercado;
  8. A fase de comercialização envolve a geração de informações relacionadas a uma completa análise do produto em relação a: caracterização do produto a nível molecular e bioquímico; efeitos toxicológicos; efeitos para organismo não alvos e para o ambiente. Considerando principalmente, a fonte de onde o gene foi isolado, como o gene foi expresso; a biologia da plantas recipiente e a natureza da proteína produzida;
  9. A variabilidade específica aos diferentes ecossistemas existentes em nosso planeta, não permitem algumas vezes, a extrapolação dos resultados obtidos em apenas alguns ecossistemas;
  10. Existem mecanismos efetivos de fiscalização que possibilitam um acompanhamento das culturas transgênicas comerciais, em caso de evidências que possam demonstrar o surgimento de efeitos inesperados.

Finalizando, tem sido demonstrado que a utilização da tecnologia do DNA recombinante, em associação com outras tecnologias, constituem uma opção viável de desenvolvimento.

Os protocolos de análises da segurança alimentar e ambiental desenvolvidos e utilizados, para a avaliação de impactos de produtos advindos da manipulação da tecnologia do DNA recombinante, constituem avanços muito significativos. Não somente em relação à avaliação da tecnologia per se, mas também com profundas implicações sobre a qualidade de produtos que tem sido disponibilizados, principalmente para o consumo humano. Estas avaliações deverão servir de base para o estabelecimento de critérios mais adequados, na avaliação de todas as tecnologias utilizadas no sistema de produção de alimentos para a nossa sociedade.

Elíbio Leopoldo Rech – Engenheiro Agrônomo, Mestre em Fitopatologia pela Universidade de Brasília – UnB e PhD em Genética Molecular pela University of Nottingham, Inglaterra.

Atualmente pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia.

EMBRAPA Recursos Genéticos e Biotecnologia – Parque Estação Biológica