Por Alexandre Nepomuceno*

A base genética disponível para o melhoramento de plantas sempre foi limitada pelo fato de não ser possível introduzir características de uma espécie em outra. A transgenia revolucionou esse cenário, abrindo caminho para o desenvolvimento de plantas que possuem características obtidas por meio de novos métodos.

No fim do século passado, um trabalho de 10 anos foi celebrado por pesquisadores do mundo todo: o primeiro sequenciamento do genoma de uma planta. Hoje, 17 anos depois, com a utilização da nova geração de sequenciadores de DNA e poderosos programas de bioinformática e modelagem computacional, os cientistas podem comemorar o sequenciamento de genomas a cada semana. Toda essa informação genética gerada pelas tecnologias de alto desempenho é, agora, a base para uma nova revolução que expande as possibilidades do que é realizável em termos de introdução de características em plantas.

Até recentemente, as ferramentas disponíveis de engenharia genética permitiam unicamente alterações dos blocos maiores de sequências de DNA inseridos de forma aleatória no genoma da espécie-alvo. Avanços na área, agora, permitem a obtenção de novas variações, com modificações dirigidas a uma determinada região do genoma-alvo, como mutações específicas, inserções e substituições de genes e/ou blocos de genes. Essas técnicas são alternativas poderosas para o desenvolvimento de plantas com alto valor agregado para a agricultura, a indústria ou a Medicina.

Exemplos de aplicações da engenharia genética de precisão

Canola: técnica de ODM (Mutação Direcionada por Oligonucleotídeos – pequenos fragmentos de DNA) para gerar plantas resistentes a herbicidas;

Soja: técnica dos “dedos de zinco” (“zinc-finger”) para induzir com sucesso mutações em um gene específico (DICER-LIKE4);

Arroz: mutações direcionadas a uma determinada parte do genoma mediadas pela estratégia TALEN (Transcription Activator-Like Effector Nucleases), originando uma planta resistente a uma bactéria causadora de grandes perdas aos rizicultores.

Estas abordagens e outras são utilizadas para melhorar diversas plantas, com o diferencial de poder criar um indivíduo com nova variação genética sem possuir um gene de outra espécie. O fato de os vegetais melhorados serem idênticos aos que lhes deram origem indica que as mutações não resultaram em características adversas.

Potencial e regulamentação

Com grande potencial de alterações específicas nos genomas vegetais, as variedades obtidas pela Engenharia Genética de precisão poderão ser regulamentadas pelos órgãos governamentais competentes de forma diferente das plantas transgênicas tradicionais. Autoridades em todo o mundo analisam e se posicionam sobre essa questão. Como cada inovação terá suas especificidades, a abordagem proposta no Brasil, da análise caso a caso, pode ser considerada um modelo.

Desta maneira, a Engenharia Genética de precisão consolida-se como uma das áreas de maior interesse na pesquisa genética avançada. O seu potencial na agricultura é enorme. Para manter sua competitividade e sua posição de destaque global nesse setor, o Brasil necessita analisar a biossegurança e incentivar a pesquisa dessas tecnologias. O estímulo à sua adoção deverá se dar com velocidade igual ou maior do que a observada para as inovações agrícolas hoje em uso no campo. Um futuro promissor depende de decisões adequadas no presente.

 

 

Artigo originalmente publicado na edição de fevereiro de 2017 da revista AgroAnalysis


*Alexandre Nepomuceno é Engenheiro Agrônomo, pós-doutor em biologia molecular e pesquisador da Embrapa.