Por Adriana Brondani*

Há algumas décadas, a busca por informações sobre as tecnologias usadas para desenvolver alimentos era menor. Embora muitos fatores possam explicar a procura recente, não podemos ignorar o papel central que a internet hoje desempenha para a democratização do acesso a dados, inclusive sobre o desenvolvimento do que comemos. Com a atual demanda por informações, é imperativo que a ciência associada a essas inovações se torne acessível.

As diferenças de percepção entre cientistas e o público leigo a respeito de diversas tecnologias são fortemente evidenciadas na publicação a Pew Research Center (2015). Em temas como vacinação e alimentos transgênicos, o entendimento sobre a segurança dessas inovações é mais claro entre pesquisadores do que entre consumidores não vinculados à ciência. Dentre os casos citados, a maior diferença é observada quando se trata de organismos geneticamente modificados (OGM). A pesquisa mostra que 88% dos cientistas membros da American Association for the Advancement of Science (AAAS) acreditam que os alimentos transgênicos são seguros para o consumo, enquanto na população leiga o percentual é de apenas 37%.

Em agosto de 2017, uma pesquisa de opinião da Universidade de Michigan (da qual participaram 1059 pessoas) permite mais uma reflexão sobre o tema. Segundo o trabalho, um percentual representativo (38%) diz conhecer bem como funciona a cadeia global da produção de alimentos. No entanto, praticamente o mesmo percentual de entrevistados (37%) acredita que apenas os OGM possuem genes. Para estes, não há genes em produtos convencionais.

Ainda nos Estados Unidos, outro estudo conduzido com metodologia semelhante revelou que 84% dos entrevistados são favoráveis à rotulagem obrigatória de transgênicos. Surpreendentemente, quase o mesmo percentual (80%) demonstrou apoio à hipótese de rotular todos os alimentos que contenham DNA. Uma vez que quase 100% do que consumimos tem essa molécula, esse achado sugere que a apreensão em relação aos OGM pode não ter relação com a especificidade dessa tecnologia, e, sim, com o medo do desconhecido.

A mesma confusão foi observada em pesquisa brasileira conduzida pelo IBOPE em 2016, na qual apenas 17% dos participantes concordam que ingerem DNA diariamente e 73% revelaram preocupação em consumir essa molécula.

Como a preocupação das pessoas tem se mostrado, com frequência, desproporcional quando comparada aos possíveis riscos das tecnologias, a comunidade científica, às vezes, se questiona sobre o quanto a opinião pública é relevante na aceitação de produtos decorrentes de avaliações respaldadas pela ciência. Entretanto, é razoável excluir os consumidores do debate sobre a produção de alimentos?

Diversos fatores psicológicos, culturais e econômicos podem levar os consumidores a desenvolverem convicções divergentes da ciência e com elevado viés ideológico. No entanto, esse viés é ainda mais pronunciado quando a falta de informação predomina nos debates. Se a academia não se preocupar em comunicar suas descobertas para além dos fóruns técnicos, a opinião pública continuará refém de visões alarmistas e, sobretudo, infundadas. Com a atual disponibilidade de ferramentas de comunicação, a falta de diálogo é inaceitável. A contradição das respostas dos consumidores revelada nesses estudos denuncia o quanto nós, profissionais de ciências da vida, ainda precisamos avançar em comunicação para diversos públicos e no engajamento da sociedade para que as percepções envolvendo produtos da ciência não sejam dominadas pelo medo e pela desinformação.

Para conhecer mais:

Public and Scientists Views’s on Science and Society. Pew Research Center, 2015. Disponível em http://www.pewinternet.org/2015/01/29/public-and-scientists-views-on-science-and-society/

What consumers don´t know about genetically modified food, and how that affects beliefs. Brandon R MacFadden and Jayson L Lusk. The FASEB Journal, Vol 30 (9), 3091-3096, 2016.

Estudo de percepção sobre transgênicos na produção de alimentos. Conselho de Informações sobre Biotecnologia, 2016. Disponível em http://cib.org.br/estudos-e-artigos/estudo-de-percepcao-sobre-transgenicos-na-producao-de-alimentos/

Food Literacy and engagement poll. Michigan State University, 2017. Disponível em http://food.msu.edu/articles/msu-food-literacy-and-engagement-poll

 

Artigo originalmente publicado na edição de outubro de 2017 da revista Scientific American Brasil


*Adriana Brondani é diretora-executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia. Bióloga, é graduada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde também fez mestrado e doutorado. Tem um histórico de atividades acadêmicas como professora de graduação e mestrado em bioquímica e biologia molecular na Universidade Luterana do Brasil (RS) e de pós-graduação na UFRGS e na PUCRS. Trabalhou no Hospital de Clínicas de Porto Alegre e na Fundação SOAD (Fundação de Pesquisas contra o Câncer), com linhas de investigação em câncer.