Homero Dewes

Na safra de 2003, pequenos agricultores gaúchos se convenceram que cultivar soja transgênica é bom pra eles. O prazo que a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul deu ao Governo Federal, para que este explicasse oficialmente porque a soja transgênica resistente ao glifosato faria mal para saúde ou meio ambiente esgotou-se. Não houve resposta, então foi enviada carta ao Presidente da República, dando a entender que estes agricultores vão continuar a plantar a soja transgênica. Afinal, se não faz mal e faz bem pro agricultor, por que proibi-lo de plantar?

O interessante é que estes agricultores faziam, recentemente, um eco ruidoso às palavras de ordem de organizações políticas locais e internacionais, que querem o banimento dos transgênicos da agricultura do Brasil. Porque mudaram de opinião? Porque bem informados, dispensaram a tutela arbitrária do Governo, na decisão que lhes interessa e cabe, sobre o que plantar ou não em sua propriedade.

Baseados na experiência de sucesso da safra de 2003, os pequenos agricultores decidiram de uma vez por todas incorporar os benefícios da biotecnologia na agricultura e assim dar fim ao imobilismo tecnológico que se lhes tentavam inculcar.

Com a perspectiva de desfrutarem dos benefícios de lavouras de soja sem inço, e na expectativa de aumentar os lucros com outras plantas desenvolvidas pela biotecnologia, tais como aquelas que lhes permitirão o uso mais racional de defensivos químicos, os pequenos agricultores se distanciaram dos ativistas sectários e alarmistas, buscando na ciência e na tecnologia as respostas para as suas demandas.

Com gesto de autodefesa e autodeterminação, o pequeno agricultor se recusa a aceitar o mito da dependência tecnológica da agricultura brasileira às empresas estrangeiras, propagado por quem subestima a inteligência do povo e que se nega a reconhecer a qualificação dos cientistas.

Os pequenos agricultores sabem que não foram em vão os últimos cinqüenta anos de capacitação tecnológica da nação, investidos na formação de profissionais em programas de pós-graduação no país e nas melhores universidades e laboratórios de do mundo.

Depois da safra transgênica de 2003 ser vendida a bom preço, o pequeno agricultor refuta a falácia propagada por ativistas antibiotecnologia, de que o mercado rejeita a engenharia genética na produção de alimentos. Ao resistir à proibição governamental de plantar soja transgênica, demonstra saber que o mercado é um universo de relações diretas entre quem consome e quem produz, contra intromissões ideológicas e arbitrariedades políticas. Se existem nichos para produtos não-transgênicos, explorá-los é uma opção de quem vende e produz, não uma decisão prepotente do Estado.

Ao reafirmar a sua determinação de cultivar transgênicos, o pequeno agricultor está proclamando que o Governo, ao invés de querer tutelá-lo, ajudará mais se esforçando para provê-lo de educação e de acesso à informação. Um povo bem informado sempre saberá fazer bem suas escolhas.

Homero Dewes é professor do Centro de Estudos e Pesquisas em Agronegócios da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e membro do Conselho de Informações Sobre Biotecnologia.