Não é raro vermos na internet, compartilhadas em redes sociais ou em sites de credibilidade duvidosa, notícias e imagens de plantas transgênicas. O texto, frequentemente, é repleto de teorias da conspiração e mensagens de alerta. A ilustração, trabalhada em Photoshop, retrata vegetais, no mínimo, estranhos. Às vezes, é uma maçã com polpa de laranja ou, na melhor das hipóteses, um tomate sendo espetado por uma seringa. A questão é que essas informações textuais e gráficas não representam, nem sequer se assemelham a, um organismo geneticamente modificado (OGM) de fato.

No Brasil, estão aprovadas apenas variedades de soja, milho, algodão, feijão, eucalipto e cana-de-açúcar transgênicos. Desses, apenas os três primeiros estão no mercado. Ao contrário do que sugerem as imagens que sites de busca podem mostrar, se você procurar por alimentos transgênicos, essas plantas são exatamente iguais às convencionais, exceto pelas características introduzidas que, na imensa maioria dos casos, são agronômicas. Isso quer dizer que elas oferecem aos agricultores benefícios como a proteção contra insetos ou a possibilidade de aplicação de herbicidas específicos.

No mundo, a situação é praticamente a mesma. Soja, milho, algodão e canola representam quase a totalidade dos transgênicos cultivados globalmente. Além dessas culturas, nos EUA, por exemplo, também são plantados, em menor escala, alfafa, mamão, batata, abóbora, beterraba e maçã. Isso significa que é nula a chance de um consumidor brasileiro comprar, em um supermercado ou feira local, qualquer hortaliça ou fruta transgênica.

Uma pesquisa de opinião pública conduzida pelo IBOPE Conecta em 2016, com internautas do Brasil inteiro, revelou que nenhum (isso mesmo, nenhum) dos entrevistados enumerou com exatidão as culturas geneticamente modificadas (GM) cultivadas no Brasil. Na pesquisa, soja e milho são citados por, respectivamente, 60% e 51%. A resposta correta (que inclui os dois produtos acima e o algodão) é mencionada por apenas 11% dos participantes, mas eles também acrescentam outros alimentos à lista, como trigo (30%) e tomate (23%), que não possuem versões GM no mercado.

Com o advento das mídias online, qualquer declaração, falsa ou verdadeira, superficial ou altamente fundamentada, pode ganhar repercussão. Além disso, especialmente em temas que representam grandes inovações, como é o caso da biotecnologia, a curiosidade das pessoas é natural. Ao unirmos esses fatores, temos um terreno fértil para a proliferação de boatos. Isso mostra que ter acesso a informações técnicas e científicas em linguagem acessível é fundamental.

Vivemos em uma época em que o acesso à informação e as oportunidades de repercussão foram multiplicadas pela popularização das plataformas digitais. Nesse cenário, a responsabilidade de quem produz ou compartilha um conteúdo é ainda maior. Na internet e nas redes sociais, cada um de nós deve verificar as fontes antes de compartilhar algum dado. Como a questão da biossegurança dos transgênicos é avaliada por agências reguladoras e só chegam ao mercado produtos exaustivamente testados e considerados seguros, o trabalho de informar corretamente a população é uma necessidade com a qual todos devemos nos comprometer.

 

Artigo originalmente publicado em setembro de 2017 no jornal Zero Hora


Por Adriana Brondani – Diretora-executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia. Bióloga, é graduada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde também fez mestrado e doutorado. Tem um histórico de atividades acadêmicas como professora de graduação e mestrado em bioquímica e biologia molecular na Universidade Luterana do Brasil (RS) e de pós-graduação na UFRGS e na PUCRS. Trabalhou no Hospital de Clínicas de Porto Alegre e na Fundação SOAD (Fundação de Pesquisas contra o Câncer), com linhas de investigação em câncer.