Em 2018, celebra-se 20 anos da adoção de transgênicos no Brasil. O primeiro organismo geneticamente modificado (OGM) plantado oficialmente no Brasil foi a soja transgênica tolerante ao herbicida glifosato. Ela foi aprovada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) em 1998 e foi para o campo em 1999. De lá para cá, muitos benefícios foram relatados por produtores. Também não houve um registro sequer de problemas de saúde ou ambientais causados por essa soja. Apesar disso, muitos críticos à essa tecnologia têm repetido uma crítica infundada: os transgênicos, a exemplo da soja tolerante a herbicida, geram superplantas daninhas resistentes aos próprios herbicidas.

Pulverização de herbicida

Por mais contraproducente que possa parecer a afirmação, ela é usada muitas vezes para colocar os transgênicos em dúvida. A população urbana, distante dos desafios do campo, muitas vezes ‘compra’ essas narrativas equivocadas. Para derrubar esse mito, nada melhor do que informação técnico-científica documentada e, principalmente, a história. Preparado? Então vamos lá. Você, leitor, que tem acompanhado a agricultura nacional, já ouviu falar no termo resistência. A palavra pode ser empregada em diversos contextos mas, para efeito desse artigo, considere que a resistência é habilidade de uma planta daninha sobreviver e reproduzir-se mesmo após a aplicação de uma dose letal de herbicida.

“Mas como?”, você pode estar se perguntando. Acontece que, entre as plantas há grande variabilidade genética e algumas, raríssimas, naturalmente apresentam a resistência. Se, safra após safra o agricultor usa sempre o mesmo mecanismo de controle, em algumas gerações terá eliminado todas as plantas sensíveis e selecionado as resistentes. Com o passar dos anos, elas podem se tornar maioria. Esse fenômeno é um grave problema para a agricultura e pode acarretar prejuízo para o produtor. Uma das principais consequências da resistência de plantas daninhas a herbicidas é o aumento dos custos de controle.

Exemplos para avaliar o tamanho do problema

Entre 1993 – ano em que o primeiro caso de resistência no Brasil foi registrado, cinco antes da aprovação do primeiro transgênico – e 2003, o custo médio de controle de plantas daninhas em áreas em que esse problema não tinha sido detectado era de R$ 62. Nas lavouras em que havia resistência, houve necessidade de aplicação adicional de herbicidas. Isso elevou o custo médio do controle para R$ 285, um incremento de mais de 350%. Esse aumento vertiginoso de custo, fez com que os produtores de soja convencional, à época, considerassem insustentável a continuidade da lavoura da oleaginosa.

Resumindo

Portanto, quando do lançamento da soja tolerante ao herbicida glifosato, algumas regiões do País, especialmente o Sul e parte do Cerrado, tinham graves problemas com plantas daninhas resistentes a um mecanismo de ação de herbicidas muito usados na cultura da soja, os chamados inibidores da ALS (impedem a síntese dos aminoácidos ramificados, interrompendo a síntese proteica e, por consequência, o crescimento celular). Com a entrada da soja geneticamente modificada (GM), passou a ser possível usar o glifosato na cultura da soja. Essa tecnologia foi muito interessante para resolver ou minimizar os problemas agronômicos relacionados resistência, e não para causá-los ou para piorá-los.

Entretanto, o uso de uso qualquer mecanismo de controle de maneira inadequada, com dosagens erradas e adoção repetida do mesmo herbicida, ou de um produto com o mesmo princípio ativo, várias vezes no ano, durante vários anos, pode acabar selecionando espécies resistentes. Esse processo não tem relação com o fato de uma cultura ser transgênica ou não. Nesse cenário, é imperativo que o problema da resistência seja enfrentado com planejamento e uso do manejo integrado de plantas daninhas (MIPD). O MIPD consiste no emprego associado dos diversos métodos de controle, amparados por estudos agronômicos, econômicos, ecológicos e sociais. Portanto, não são as culturas tolerantes a herbicidas que criam as plantas resistentes. Na verdade, o uso inadequado de tecnologias as seleciona. Como vimos, os mitos plantados não resistem a uma boa dose de informação.

Artigo originalmente publicado na edição de fevereiro de 2018 da revista AgroAnalysis


*Por Leandro Vargas – Engenheiro Agrônomo, Doutor em Fitotecnia e Pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)