Historiador da ciência Michael Shermer | Crédito: Jordi Play

Em recente passagem pelo País a convite da revista Scientific American Brasil, o psicólogo norte-americano, historiador da ciência e editor da revista Skeptic (Cético), Michael Shermer, concedeu entrevista ao Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB), na qual falou sobre pensamento e método científicos, notícias falsas na internet e checagem de fatos.

A seguir, você confere os principais trechos da conversa com o fundador da Sociedade dos Céticos nos EUA e autor de livros como “Cérebro e Crença”, “Por que as Pessoas Acreditam em Coisas Estranhas” e “A Ciência do Bem e do Mal”:

CIB: Em tempos de pós-verdade (circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos importância do que as crenças pessoais) e de inúmeras notícias falsas na internet, qual é o papel da ciência e dos cientistas?

Michael Shermer: Checar os fatos. Alertar as pessoas sobre mentiras e notícias falsas, pois não existem fatos alternativos, apenas fatos baseados em evidências. Então, nosso trabalho na revista e no site da Skeptic é checar supostas histórias, mitos, teorias da conspiração, alegações sobre o clima, vacinação, etc. Vemos se essas suspeitas são verdadeiras ou falsas.

CIB: Mas na internet, nas mídias sociais, não costuma haver checagem dos fatos.

MS: Correto, temos que oferecer esses recursos de forma independente. Porque, quando você monta um site, a checagem dos fatos não é algo exigido previamente. O Facebook está tentando evitar isso após pressão social, porque as pessoas reclamaram. Há esses algoritmos que abastecem os usuários com notícias que eles já vêm procurando, e isso que cria uma bolha. Dependendo do que compartilham, a bolha fica menor e mais apertada.

CIB: Como esse cenário de pós-verdade, notícias falsas e câmara de eco (quando informações, ideias e crenças são amplificadas ou reforçadas pela comunicação e repetição) influencia a opinião pública sobre temas como a biotecnologia e organismos geneticamente modificados (OGM)?

MS: Encontramos OGM na natureza há 10 mil anos. E estudos têm mostrado que eles não causam danos à saúde humana. O planeta tem mais de 7 bilhões de pessoas…você acha justo negar o arroz dourado [rico em betacaroteno, que se transforma em vitamina A], por exemplo, a africanos que passam fome, só porque ele é geneticamente modificado? Algumas pessoas estão tão comprometidas com sua ideologia que deixariam os mais pobres morrerem por não ter o que comer. Quais são as nossas prioridades? Não temos uma população de menos de 1 bilhão que poderia ser abastecida somente com alimentos nos quais não houve interferência do ser humano. Nós combatemos câncer e outras doenças por meio da engenharia genética e de avanços biotecnológicos. Morrer de câncer é natural, e a gente não quer algo natural nesse caso. Não temos que ir para trás, para a dieta paleolítica, para as pseudociências, para a medicina alternativa. Precisamos seguir adiante, com melhores tecnologias, ciência e soluções para nossos problemas.

CIB: O senhor acredita que alimentos transgênicos e orgânicos possam conviver?

MS: Sim, claro. Tem sido assim por milhares de anos, só estamos ficando melhores nisso. Não é uma guerra entre um e outro. Mas o que tem havido é uma atitude anticapitalista porque as empresas ganham dinheiro com produtos desenvolvidos por meio da biotecnologia. Se o Steve Jobs faturou com o iPhone, que é resultado da ciência, ok. Porém, cobrar pelo investimento feito no desenvolvimento de sementes geneticamente modificadas (GM) mais protegidas parece errado. Por quê? É apenas propriedade intelectual, informação, o princípio é o mesmo. É esse sistema de captação de valor que leva a uma série de inovações.

CIB: No Brasil, antes do CIB (fundado em 2001), não havia uma comunicação científica formal sobre os OGM. O senhor acredita que o tempo, nesse caso, foi um fator crucial para que as pessoas se sentissem mais à vontade com o tema?

MS: Sim, tem a ver com coisas com as quais você se acostuma [no dia a dia]. Nos anos 1980, quando a fertilização in vitro (FIV) foi introduzida, houve uma grande controvérsia, falavam que os médicos “brincavam de Deus”, que existiriam consequências genéticas, mutações. Atualmente, todo mundo faz isso. Essa resistência inicial é comum, as pessoas veem como algo não natural, porque não estão acostumadas. Uma ou duas décadas depois, ninguém mais pensa sobre FIV. O mesmo ocorre com o progresso moral. Até os anos 1960, o casamento inter-racial nos EUA era ilegal; hoje ninguém mais pergunta sobre o tema. Com o casamento gay, será igual. Em alguns anos, não vamos nem pensar nesse assunto.

CIB: O problema, segundo o senhor, é que o cérebro humano não gosta muito de desafios, de se sentir confuso com opiniões diferentes. Como poderíamos superar isso?

MS: Nosso cérebro funciona mais como um advogado do que como um cientista, gosta de casos vitoriosos e de agir na defensiva. Isso não é bom, tanto que os cientistas ensinam seus alunos para que não ajam assim e olhem os fatos. Mas não é fácil, especialmente se é algo em que todo o seu grupo social acredita. Por isso, a religião é tão coesa como ferramenta social, porque mantém as pessoas juntas. Elas cantam as mesmas músicas, leem os mesmos textos, vão à mesma igreja, olham para o mesmo Deus. É por essa razão que as guerras religiosas, as Cruzadas, a Inquisição e a Reforma Protestante foram tão violentas no passado. As pessoas, em geral, são muito moralizadoras e defendem que suas crenças são verdade.

CIB: É mais fácil que uma pessoa acredite em algo vindo de seu grupo social, em vez de cientistas e governos. Por quê?

MS: A ciência é amiga das pessoas, quer tornar o mundo um lugar melhor. Deveria haver uma exposição maior de cientistas como indivíduos reais e cujo trabalho contribui para a sociedade, não como nerds que desejam “brincar de Deus”. Vemos esse estereótipo em tantos filmes, é clichê. Como se todos se parecessem com Albert Einstein [com a língua de fora] ou com o dr. Frankenstein, muito poderosos. Para fazer um filme ou programa de TV dramático, você tem que prender a atenção, incluir coisas ruins, senão será algo entediante. Mas, na vida real, os cientistas não são os inimigos, são eles que estão conduzindo as mudanças. E, se quiserem alcançar um grande número de pessoas, precisam estar na TV ou no YouTube, com vídeos curtos, em tópicos. A ciência é neutra, não é boa nem má. O que se faz com ela e com as pessoas, por meio dela, é que pode ser positivo ou negativo.

CIB: A ciência se apoia em métodos e processos, correto? E onde entra o ceticismo?

MS: Nos últimos dois séculos, a ciência desenvolveu um conjunto de ferramentas que realmente funciona muito bem, com teses, testes de hipóteses e comparações. Não é algo perfeito, às vezes cometem-se enganos, e a maioria das hipóteses que os cientistas levantam está errada, é assim mesmo. O importante é perceber isso antes de publicar um artigo. Portanto, você realmente precisa ser cético, basear-se em evidências. O ceticismo é apenas o modo científico de analisar o mundo e fazer afirmações. A maioria das pessoas hoje é a favor da ciência, e mesmo aquelas que são contra não deixam de entrar em um avião que voa a 10 mil metros de altitude nem desconfiam do anestesista antes de fazer uma cirurgia. Há muita confiança na ciência porque ela funciona bem. E, para que continue assim, é preciso investir em pesquisa básica, que é de onde saem as novas tecnologias, abrir as fronteiras para o comércio e proteger a propriedade intelectual.

CIB: O senhor se considera um otimista. Por quê?

MS: Sou otimista em relação ao futuro porque conheço a História e sei o quão ruins as coisas já foram. Você jamais iria querer viver em nenhum período do passado, seja em termos de alimentos, medicina ou odontologia. A maioria de nós hoje já estaria morta. Considero 2017 o melhor ano da história humana, apesar dos inúmeros problemas, e ano que vem será ainda melhor. Essa marcha é para frente, não para trás; por isso, mantenho o otimismo. Acredito que estamos dando três passos para frente e dois para trás, e assim, aos poucos, avançamos.

 

Redação: Luna D’Alama