O que é biotecnologia?

/O que é biotecnologia?

Biólogo, doutor em Genética de Microrganismos. Atua no Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL), em Campinas.

Biotecnologia é um conjunto de técnicas que envolvem a manipulação de organismos vivos para modificação de produtos. A palavra tem origem grega: “bio” significa vida, “tecnos” remete a técnica e “logos” quer dizer “conhecimento”. Quando falamos em biotecnologia clássica, nos referimos ao uso de microrganismos como agentes fermentadores para a produção de queijos, pães, cervejas e vinhos.


SAIBA MAIS

Biotecnologia: ciências em colaboração

Como a biotecnologia pode ser aliada da sustentabilidade?


Registros da civilização babilônica já indicavam a utilização de leveduras (os tais microrganismos) na produção de pães e cervejas cerca de 4.500 anos antes de Cristo. Hoje, as substâncias essenciais para a elaboração desses e de outros alimentos, a exemplo de queijos, iogurtes, vinhos e bolos, são sintetizadas industrialmente com ajuda de bactérias, leveduras, fungos, algas ou até mesmo alguns tipos de vírus.

A biotecnologia moderna 

Com a evolução dos conhecimentos sobre genética, microbiologia e biologia molecular, a biotecnologia também avançou. Além do uso dos microrganismos como vetores de modificações, os pesquisadores passaram a poder interferir de forma controlada e intencional no DNA (ácido desoxirribonucleico) das espécies. Hoje é possível desenvolver novas variedades de plantas com diferentes características genéticas de maneira muito precisa. Assim, produzem-se organismos geneticamente modificados (OGM) com o objetivo de enfrentar diversos desafios, como suprir a crescente demanda global por alimentos.

Aplicações da biotecnologia na agricultura

A biotecnologia tem contribuído para melhorar a qualidade de plantas e aumentar a produtividade agrícola, de forma sustentável e focada na conservação ambiental. Dessa forma, vem ajudando a produzir espécies mais adaptadas a condições adversas de clima e solo, além de mais resistentes a pragas, doenças e pesticidas. O uso dessa ferramenta também tem permitido um aproveitamento mais eficiente do solo – por meio, por exemplo, da adoção do plantio direto, que evita a erosão. Além disso, abre novas possibilidades cultivos tradicionais, como a produção, por meio de biofábricas, de compostos que podem ser úteis para outras indústrias, a farmacêutica inclusive. 

A biotecnologia moderna, além de ter permitido o desenvolvimento de grãos transgênicos (soja e milho, principalmente), continua parceira da indústria de alimentos. Microrganismos geneticamente modificados (GM) ajudam a fabricar substâncias para realçar sabor, agregar textura, cor, consistência e até elevar a quantidade de vitaminas em alimentos. Por exemplo, são utilizados na produção de sucos e vinhos, com o objetivo de aumentar a produtividade na extração da polpa das frutas. Outros casos incluem:

  • Enzimas (proteases, lipases, amilases);
  • Aminoácidos (glutamato, lisina, treonina);
  • Gomas (xantana, gelana, dextrana);
  • Vitaminas (B12, B2 e C);
  • Aromas (baunilha, citronelol, diacetil);
  • Ácidos orgânicos (cítrico, acético e lático);
  • Antimicrobianos (nisina).

Em quais outras áreas a biotecnologia pode ser aplicada?

  • Saúde: a insulina humana fabricada por bactérias GM, para uso em pacientes diabéticos, e a produção de remédios a partir de anticorpos monoclonais (feitos pelo clone de um único linfócito B) são exemplos de avanços biotecnológicos. Até a década de 1980, a insulina era extraída de bois e porcos e causava efeitos colaterais nos usuários. Outros exemplos são o hormônio do crescimento e a vitamina C.
  • Energia: cientistas de todo o mundo buscam na biotecnologia alternativas para a produção de combustíveis renováveis, que substituam o uso de fontes fósseis, derivadas do petróleo. Atualmente, os biocombustíveis representam cerca de 1% da matriz energética global. Os maiores produtores são Estados Unidos, Alemanha, Brasil e China. No País, o etanol e o biodiesel são os mais relevantes.
  • Química: no sabão em pó, enzimas resistentes às condições do processo de lavagem produzidas por bactérias GM são usadas para degradar gorduras, carboidratos e proteínas nos tecidos sujos. Essas enzimas também podem ser usadas para tornar as fibras dos jeans mais macias e obter o efeito “desbotado”, sem usar o poluente processo de “stonewashing”, com pedras e ácido.
  • Meio ambiente: a biotecnologia é uma ferramenta que pode ser usada para monitorar o processo de extinção de espécies, pela quantificação da variabilidade genética existente nelas. Ela pode ajudar a detectar e também a prevenir a perda dessa diversidade nos seres vivos. Adicionalmente, ao aumentar a produtividade agrícola, estamos contribuindo para a preservação de áreas naturais.
  • Outros usos: a biotecnologia não é utilizada apenas nas plantas. Nos Estados Unidos liberaram o comércio, no fim de 2015, do primeiro animal transgênico para consumo humano do mundo: um salmão que cresce mais rápido que o peixe não modificado. No Brasil, um mosquito Aedes aegypti transgênico que pode combater a proliferação do vetor da dengue foi aprovado em 2014.

Resumindo:

 

Por: Airton Vialta em 21-10-2016 | Atualizado em 21-05-2018 | Categorias: Conceitos

Biólogo, doutor em Genética de Microrganismos. Atua no Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL), em Campinas.