00.00_FernandoAdegas_EntrevistaAgroAnalysis_01_300x200Ao longo das últimas décadas, o desenvolvimento da pesquisa agropecuária brasileira contribuiu para que o País garantisse o abastecimento interno e se tornasse um grande exportador de grãos. A posição de destaque do Brasil no comércio mundial de alimentos se deve a uma agricultura praticada por trabalhadores que investem em inovação. A competitividade do agronegócio, particularmente o tropical, passa pela aplicação de ferramentas tecnológicas para superação de limitações e para adição de novas funcionalidades à produção agropecuária.

Com a população mundial em crescimento, a questão que se impõe para o futuro é praticar essa agricultura de alta produtividade em consonância com os conceitos de sustentabilidade. Em entrevista ao CIB, o engenheiro agrônomo Fernando Adegas, doutor na área de Matologia, comentou quais são os desafios urgentes que a agricultura brasileira enfrenta hoje e quais são as possibilidades de soluções para enfrentá-los. Pesquisador da Embrapa Soja, Adegas é um dos especialistas brasileiros na cultura e na tecnologia de aplicação de herbicidas.

A prática da agricultura tem necessariamente que ser acompanhada do uso de herbicidas?

Fernando Adegas: Hoje, dificilmente a agricultura em grande escala seria possível sem a utilização dos herbicidas. Eles são essenciais não só na agricultura tropical, mas também na subtropical. Em nosso clima, chove praticamente o ano todo, há grande diversidade de espécies vegetais e as condições são favoráveis ao desenvolvimento e à adaptação de plantas daninhas. Ao mesmo tempo, não temos um inverno rigoroso que ajude a quebrar o ciclo biológico vegetal, principalmente nas áreas extensas de agricultura. No Brasil, existem plantas que conseguem gerar entre cinco e seis gerações de sementes por ano. Em regiões onde há neve, por exemplo, o ciclo de certas plantas é interrompido por temperaturas muito baixas. No cenário de agricultura em condições tropicais, não há um método que possa substituir totalmente o controle químico. Há alternativas que podem ser usadas em conjunto e é possível racionalizar a utilização, mas extinguir os herbicidas é inviável, pelo menos nos dias atuais.

A adoção de herbicidas e de plantas transgênicas tolerantes a eles não pode trazer prejuízos, a exemplo do desenvolvimento de plantas resistentes, que não morrem mesmo com a utilização de defensivos químicos?

FA: O que pode acontecer em decorrência da utilização de qualquer produto químico, mais especificamente herbicidas, é haver uma maior pressão pela seleção de populações de plantas que são mais tolerantes ou resistentes a eles. Isso ocorre principalmente devido à utilização inadequada, com dosagens erradas e adoção do mesmo herbicida, ou de um produto com o mesmo princípio ativo, várias vezes no ano, durante vários anos.

Qual seria o cenário da agricultura brasileira hoje, caso o Brasil não tivesse optado pela adoção de plantas transgênicas tolerantes a herbicidas?

É possível fazer uma análise relacionada a plantas daninhas. À época do lançamento da primeira planta transgênica no Brasil, uma soja tolerante ao herbicida glifosato (oficialmente no Brasil na safra 2005/2006), algumas regiões do País, especialmente o Sul e parte do Cerrado, tinham graves problemas com plantas daninhas resistentes a um mecanismo de ação muito usado na cultura da soja, os chamados inibidores da ALS (impedem a síntese dos aminoácidos ramificados, interrompendo a síntese proteica e, por consequência, o crescimento celular). Isso também ocorreu devido ao uso indiscriminado desses produtos. As opções ao uso desses herbicidas também não eram muitas, de modo que o controle estava ficando cada vez mais difícil e caro. Com a entrada da soja geneticamente modificada (GM), passou a ser possível usar o glifosato na cultura da soja. Essa tecnologia foi muito interessante para resolver ou minimizar os problemas agronômicos relacionados resistência aos inibidores de ALS. Portanto, podemos concluir que, se não tivesse sido criada a possibilidade de uso do Glifosato, os problemas de resistência existentes tenderiam a se agravar. Os agrônomos e produtores reconhecem que a chegada da soja transgênica tolerante ao glifosato foi muito oportuna para o manejo de plantas daninhas.

00.00_IC_2014AnoInternacional_03_100x75O aparecimento de plantas resistentes é um processo natural?

FA: A seleção natural é um processo biológico. Entretanto, a prática de uma má agricultura cria uma situação que pode direcionar e facilitar esse processo. Para evitar ou minimizar ao máximo seus efeitos, é fundamental a adoção de boas práticas agrícolas. Não é certo atribuir o aparecimento de resistência à natureza, aos herbicidas ou às plantas transgênicas. Esse problema é decorrente da má utilização da tecnologia na agricultura, no caso dos herbicidas.

O que pode ser feito hoje para evitar o aparecimento de resistência?

FA: Qualquer método ou tecnologia que ofereça ao agricultor uma alternativa ao uso de um determinado herbicida é muito importante, inclusive uma planta GM tolerante a um herbicida diferente. O ideal é promover a rotação de princípios ativos de herbicidas em uma mesma área agrícola. Isso pode ser feito por meio da utilização de alternativas já disponíveis ou da introdução de novas tecnologias.

A CTNBio está avaliando a biossegurança de plantas resistentes a um outro herbicida (o 2,4-D). Como engenheiro agrônomo, como o senhor avalia a chegada dessa tecnologia?

FA: Tecnologias que agregam mais opções no que diz respeito a métodos de ação de herbicidas são muito bem vindas. Hoje, o 2,4-D não é um produto que pode ser usado na cultura da soja porque ela não é tolerante, portanto morreria se o herbicida fosse aplicado. Uma planta GM tolerante a ele seria uma alternativa para a realização da rotação de princípios ativos, adicionando uma nova variável ao sistema de controle de plantas daninhas na soja.

O 2, 4-D já é utilizado na agricultura?

FA: Sim, o 2,4-D é um dos herbicidas mais antigos utilizados nas áreas agrícolas. É um herbicida largamente conhecido do ponto de vista agronômico e toxicológico. Inclusive na agricultura brasileira ele é bastante adotado. Porém, na cultura da soja, é aplicado apenas antes da semeadura, na dessecação de plantas de folhas largas. Uma vez que não se trata de um produto novo, em princípio, não haverá uma grande alteração no sistema agrícola. Mas como toda nova tecnologia, é importante observar as boas práticas para não selecionar plantas resistentes, não haver abuso no uso de produtos e deriva para outros locais. Mas esses cuidados se aplicam ao 2,4-D e a qualquer outro herbicida.

O Brasil é hoje um importante player mundial no que se refere à agricultura. Quais são os principais desafios que o Brasil deve enfrentar para manter essa posição de destaque?

FA: Hoje a agricultura brasileira, segunda maior produtora de grãos, é fundamental para alimentar o mundo.  É inaceitável que a gente regrida tanto em área plantada como em total de alimentos produzidos. Para que isso não ocorra, avalio que temos que enfrentar três desafios. Primeiro, usar cada vez mais tecnologias adaptadas às condições tropicais. Para tanto, devemos continuar investindo em pesquisa agropecuária visando melhorar ainda mais os sistemas de produção. Segundo, resolver nossos problemas relacionados à logística, escoamento e infraestrutura para sermos mais competitivos no comércio internacional. Por fim, é preciso que nos adaptemos às novas exigências de produção sustentável, com cada vez menos agressão ao meio ambiente.

Texto originalmente publicado na edição de fevereiro de 2014 da revista AgroAnalysis.

 

*Fernando Adegas é engenheiro agrônomo, doutor em Matologia, pesquisador da Embrapa Soja e especialista em herbicidas.