O crescimento do mercado mundial de algodão permitirá ao Brasil triplicar sua produção anual de pluma, de 1,4 milhão de toneladas na safra atual para até 4,5 milhões de toneladas na safra 2016/2017. “Mas essa oportunidade só será aproveitada sem pressionar a utilização das terras agricultáveis e com benefícios para o meio ambiente caso os produtores tenham acesso à biotecnologia para elevar a produtividade”, alerta o sócio-diretor da Céleres, Anderson Galvão, que acaba de divulgar os números em um novo estudo sobre o mercado de algodão.

A cultura do algodão é caracterizada por severos ataques de pragas e doenças, que causam perdas na produção mundial estimadas em 37%, dos quais 13% causados por insetos. Levando em conta os ganhos de produtividade decorrentes da adoção do algodão geneticamente modificado (GM) em países como Austrália, África do Sul, Argentina, China e Índia, Galvão estima que a área plantada total de algodão do Brasil deverá crescer dos atuais 1,1 milhão de hectares para 2,8 milhões de hectares na safra 2016/2017. O aumento previsto segue a demanda crescente do mercado mundial, impulsionada fortemente pelo aquecimento econômico global.

Mas esta estimativa de aumento na área plantada considera que os produtores brasileiros terão acesso aos mesmos recursos da biotecnologia já disponíveis para seus concorrentes de outros países. Caso o Brasil não libere novas variedades de algodão transgênico, a Céleres calcula que será necessário, para atender a demanda do mercado, o plantio adicional de 180 mil hectares de algodão por ano (além do já estimado), ou cerca de 2 milhões de hectares a mais na próxima década. “Esse aumento do plantio custaria aos cotonicultores brasileiros um investimento adicional de R$ 16 bilhões nos próximos 10 anos”, diz Galvão.

Atualmente, a variedade Bt (resistente a insetos) é o único algodão transgênico liberado no país. “Considerando apenas a variedade Bt, o benefício econômico pode atingir R$ 9,1 bilhões nos próximos 10 anos, somando os ganhos de produtores, indústrias de defensivos e indústrias de sementes no Brasil”, estima Anderson Galvão. Na safra 2007/2008, quando o algodão Bt pode chegar a 512 mil hectares plantados no Brasil, só os produtores vão acumular um benefício econômico de R$ 326,7 milhões.

No mundo, já existem sete tipos de algodão GM liberados para cultivo e comercialização. Além das variedades resistentes a insetos, já são comercializadas sementes com resistência a herbicidas (glufosinato e glifosato) e até aquelas que combinam essas duas características, reduzindo a aplicação tanto de inseticidas como de herbicidas.

A liberação comercial de novas variedades de algodão transgênico é o tema da audiência pública que a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) promove na próxima sexta-feira (17/08/2007). Quatro tipos de algodão serão debatidos por cientistas e entidades presentes. “Os benefícios ambientais e sociais do algodão transgênico já podem ser sentidos e, certamente, contribuirão cada vez mais pelo desenvolvimento da cotonicultura brasileira”, opina a diretora-executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB), Alda Lerayer.

Algodão GM traz benefícios socioambientais

A economia gerada pelo algodão Bt consiste principalmente na redução das aplicações de inseticidas, já que a planta é resistente às lagartas da ordem Lepidoptera. Segundo um estudo da Terra Consultoria e Perícia Ambiental, a variedade transgênica gera uma redução média de duas a seis aplicações, dependendo da região produtora.

A partir desta constatação, é possível calcular que a economia de água utilizada para as pulverizações fica entre 154 e 461 milhões de litros de água por ano no Brasil, considerando uma área total de algodão Bt de 511,9 mil hectares na safra 2007/08. Além disso, o estudo da Terra Consultoria conclui que a redução nas aplicações resulta na diminuição do consumo de diesel em até 5,54 litros por hectare, evitando a emissão de um volume de gás carbônico na atmosfera entre 2.453 e 7.360 toneladas por ano no país.

Na avaliação de Paula Carneiro, sócia-diretora da Terra Consultoria, um importante benefício ambiental do algodão Bt é uma maior preservação da biodiversidade, devido à utilização de inseticidas que combatem insetos-pragas específicos e em menor quantidade. “A especificidade do Bt faz com que se mantenha a população de inimigos naturais, ou seja, insetos que controlam pragas secundárias dessa cultura e que se alimentam de ovos e pequenas lagartas. Como conseqüência, há uma melhoria no equilíbrio ecológico dentro da lavoura”, complementa Alda Lerayer.

Além dos ganhos ambientais, o algodão Bt aumenta a segurança para os trabalhadores do campo. “A proteína que garante a resistência a insetos não apresenta risco ao contato humano”, comenta Paula. “O combate a essas pragas é mais eficiente porque a proteína não está sujeita a ação de fatores ambientais como chuva, radiação solar e temperatura”.

“É importante ressaltar ainda que a crise energética mundial e a preocupação com o aquecimento global fazem do algodão uma opção para produção de biodiesel, devido ao elevado teor de óleo no caroço (semente)”, acrescenta Alda.