Em entrevista ao CIB, Neuza Brunoro, nutricionista e professora da Universidade Federal de Viçosa – UFV (Minas Gerais), afirma que os alimentos funcionais podem dar uma grande contribuição para a prevenção de doenças. “E a biotecnologia pode ser uma importante ferramenta no desenvolvimento desses alimentos”, afirma. Pesquisadora do Departamento de Nutrição e Saúde da UFV, Neuza conta que o mercado de produtos funcionais está crescendo no Brasil. Ela afirma que “as pessoas estão cada vez mais interessadas em melhorar sua qualidade de vida”, destacando a importância da adoção de hábitos mais saudáveis como complemento à alimentação. Neuza, que é coordenadora do livro Biotecnologia e Nutrição, fala ainda sobre quais as características que levam um alimento a ser considerado funcional, quais as principais substâncias com essa alegação e de que forma a modificação genética dos alimentos pode contribuir para a saúde e o bem-estar das pessoas.

CIB – Quais as linhas de pesquisa que a senhora desenvolve na UFV?

Neuza Brunoro – Aqui no laboratório, desenvolvemos pesquisas relacionadas à biodisponibilidade de minerais, principalmente cálcio, zinco e ferro. Esse trabalho consiste na avaliação de interações que ocorrem entre os alimentos. Estamos pesquisando agora o feijão, que tem uma alta concentração de ferro, semelhante à da carne, mas, em razão de fatores que interferem no processo, o homem absorve apenas 3% do ferro do feijão. Há ainda outra linha de pesquisa que avalia a qualidade protéica dos alimentos, principalmente soja e feijão. E uma terceira linha trata dos alimentos funcionais, cujos estudos avaliam principalmente os efeitos de alguns componentes da alimentação no colesterol e na glicose sanguínea. Recentemente, estudamos uma carne bovina, de animais que foram alimentados com dois tipos de dietas. Fizemos pesquisas também com alimentos fortificados com ferro e adicionados de probióticos, que foram testados e apresentaram ótimos resultados. Também estudamos a carne de rã, que tem alto teor de cálcio, entre outros alimentos.

CIB – O que são os alimentos funcionais e de que forma eles podem contribuir para melhorar a saúde e a qualidade de vida das pessoas?

Neuza Brunoro – Basicamente, alimentos funcionais são aqueles que apresentam benefícios para a saúde humana. Mas cada país tem uma definição diferente. Nos Estados Unidos, por exemplo, não há muita diferenciação entre alimentos funcionais e medicamentos. No Brasil, há uma regulação relacionada a alimentos com alegação de funcional, feita pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Para que um alimento possa ser comercializado sob esse rótulo, é necessário que haja comprovação científica dos benefícios proporcionados ao consumidor, resultado de estudos clínicos e testes em laboratório. A comprovação pode ser feita por meio de experimentação com animais, dados epidemiológicos e resultados clínicos com seres humanos. Um fabricante que queira dar a um produto a alegação de alimento funcional, deve seguir as determinações da Anvisa para liberação e rotulagem. E, mesmo depois de liberado para o consumo, o produto tem de ter comprovada a sua funcionalidade, caso, por exemplo, da margarina com fitosterol, substância relacionada à redução do colesterol. O produto já está no mercado, mas ainda é necessário que sejam feitos estudos que comprovem os benefícios do produto ao homem.

CIB – Para que os alimentos funcionais tenham efeito sobre o organismo, há um consenso sobre a quantidade que deve ser ingerida?

Neuza Brunoro – Cada alimento tem as suas características e, de cada substância funcional, é preciso consumir uma quantidade diferente. Mas identificar a concentração necessária é uma questão de difícil comprovação: quanto de tomate, por exemplo, é necessário para que o licopeno possa ter o efeito benéfico de contribuir para a redução do risco de câncer? Com isso, há muitos questionamentos sobre o consumo de substâncias funcionais em concentrados, ou seja, em pílulas. Seria necessário, então, deixar de lado a alimentação e optar pelo consumo de pílulas para garantir o sucesso da ação do alimento? Particularmente, não acredito nisso. Penso que seria um risco para o organismo em razão das interações entre as substâncias e os efeitos adversos que a alta concentração pode causar. Não é possível que um único alimento cumpra todas as funções, o que nos leva, então, a pensarmos em uma alimentação funcional, ou seja, balanceada, rica em fibras, vitaminas, proteínas e minerais. E mais: é preciso que haja um estilo de vida balanceado, com a prática de exercícios físicos e hábitos saudáveis.

CIB – A biotecnologia pode ser ferramenta para a produção de tais alimentos?

Neuza Brunoro – Com certeza. A biotecnologia é uma importante ferramenta, que pode aumentar e melhorar as características nutricionais e funcionais dos alimentos. Um exemplo da aplicação dessa ciência é a redução do teor de fitato no feijão, o que poderia aumentar a biodisponibilidade de ferro e zinco. É um processo economicamente viável e, sem dúvida, de grande importância social, já que o feijão é um alimento amplamente consumido no Brasil. Há também o arroz dourado, enriquecido com provitamina A, cuja contribuição está relacionada ao combate à cegueira noturna, provocada pela carência de tal vitamina. E outros tantos alimentos que podem vir a ser comercializados, com benefícios diretos à saúde do consumidor.

CIB – Quais as principais substâncias funcionais e em quais alimentos elas podem ser encontradas? Com a biotecnologia, é possível fazer com que outros produtos, que não tenham essas características, tornem-se funcionais também?

Neuza Brunoro – Há uma série delas, que podem ser trabalhadas inclusive pela biotecnologia para enriquecer os alimentos e contribuir para uma alimentação mais saudável. Tanto o licopeno, presente no tomate, quanto o betacaroteno e a vitamina E (presente nos óleos vegetais) têm propriedades antioxidantes, e estão relacionados à redução dos riscos de doenças cardiovasculares e degenerativas, a exemplo do mal de Parkinson, Alzheimer e do câncer. Além deles, as isoflavonas, presentes na soja, têm efeitos semelhantes aos do estrógeno, e podem ser utilizadas em tratamentos de reposição hormonal e, inclusive, para redução do risco de osteoporose, câncer de próstata e de mama. Há também os prebióticos (compostos fermentados pelas bactérias do intestino), encontrados na chicória. São açúcares conhecidos por FOS (frutoligossacarídeo), que têm sabor doce, mas possuem valor energético muito baixo, ou seja, não engordam. Uma descoberta muito interessante é que, modificando apenas um gene da cana-de açúcar, ela deixa de produzir a sacarose e passa a produzir a FOS. O mesmo ocorre com a beterraba, fonte de açúcar em países da Europa e nos Estados Unidos, que já trabalham no desenvolvimento de tal variedade geneticamente modificada.

CIB – Há uma tendência de crescimento do consumo de tais produtos?

Neuza Brunoro – O consumo de alimentos funcionais no Brasil é crescente. O termômetro para essa medição é o numero de pedidos de liberação de produtos que chegam na Anvisa: mais de 2 mil por ano. É claro que ainda há um grande obstáculo a ser transposto no Brasil, que é o poder aquisitivo, mas, cada vez mais, as pessoas buscam consumir alimentos de maior valor agregado, e estão dispostas a pagar mais caro por isso em benefício da saúde. É perceptível o aumento da oferta de produtos funcionais nas prateleiras: cereais matinais com mais fibras e enriquecidos de vitaminas e minerais, leite com ômega3, iogurtes com probióticos, leite fermentado, entre outros.

CIB – Um dos principais males da sociedade mundial hoje é o stress. O que os estudos atuais apontam como alternativa alimentar para prevenir ou combater esses problemas?

Neuza Brunoro – Não há milagre alimentar que resolva o problema do stress. Alguns alimentos podem ajudar a dar mais disposição ao indivíduo e melhorar o humor, a exemplo daqueles que estimulam a liberação de serotonina, como aqueles contendo triptofano ou mesmo a cafeína. A serotonina é responsável, inclusive, por enviar ao cérebro as informações de saciedade, o que pode contribuir também para a redução de peso. É necessário que mais estudos sejam realizados a fim de se comprovar o efeito dos alimentos no estado de humor, disposição física e no controle de peso.É importante destacar que o alimento funcional não previne nem cura nenhuma doença: só o remédio tem esse poder. O que ele pode fazer é contribuir para reduzir o risco de contrair alguma doença. Por essa razão, é muito importante associar o consumo desses alimentos à prática de atividades físicas e ao lazer. Esse conjunto de ações pode, de fato, contribuir para melhorar a qualidade de vida das pessoas.