Um dos pontos mais importantes para o desenvolvimento científico e a aprovação comercial de um produto geneticamente modificado (GM) são os resultados da avaliação de risco ambiental. Para esclarecer melhor este tema, o cientista inglês Alan Raybould, professor visitante da Universidade de Reading, concedeu ao CIB uma entrevista exclusiva.

Considerado um dos maiores especialistas do mundo no assunto, Raybould esteve no Brasil, em agosto. Ele explica que, além de demonstrar a segurança dos produtos geneticamente modificados no meio ambiente, as análises de risco devem suprir as informações requeridas pelos órgãos reguladores de cada país. “Não basta apenas avaliar, é preciso apresentar dados que atendam aos requisitos do sistema regulatório em cada país como ocorre nos Estados Unidos, na União Européia e no Japão ou em qualquer outra nação que requeira informações ”, afirma, “o que amplia o conhecimento em torno dos organismos geneticamente modificados ”.

Princípios da avaliação

O princípio básico que norteia a análise de risco, da qual faz parte da análise de segurança ambiental, visando registro ou não, é demonstrar cientificamente que os organismos geneticamente modificados não terão efeitos negativos nos organismos não-alvo existentes no campo ou em qualquer outro aspecto do meio ambiente. Para desenvolver as análises de segurança com plantas geneticamente modificadas com resistência a insetos, os cientistas tiveram de desenvolver diversos métodos de avaliação para, por exemplo, assegurar os resultados dos efeitos toxicológicos das proteínas sobre organismos não alvo. “Outro ponto fundamental é respeitar as normas regulatórias sob as quais se está atuando”, afirma Raybould.

Segundo ele, a conclusão final pode consumir dois ou mais anos de pesquisas. “Quando um produto novo é desenvolvido, reunimos todas as informações possíveis sobre as características e a eficiência da proteína inserida na planta por meio da engenharia genética”, diz. “Só depois de identificarmos como a proteína atuará nos organismos alvo e não-alvo (isto é, organismos que não são objeto de controle), além de outras informações adicionais, como a análise da composição química, informações agronômicas e caracterização molecular, entre outras, é que temos condições de assegurar os resultados”, atesta Raybould.

Padrões internacionais

Além dos marcos regulatórios nacionais, a análise de segurança ambiental segue procedimentos de acordo com a característica da planta geneticamente modificada e o objetivo da característica inserida. Por exemplo, no caso de plantas com resistência a insetos, é preciso saber se as proteínas inseridas no vegetal serão danosas ou não ao organismo não-alvo , se pragas não-alvo podem ser atingidas e/ ou se pode haver efeito não-intencional no meio ambiente. Ou seja, as respostas podem ser diferentes, mas as questões a serem respondidas pelos métodos da pesquisa são praticamente as mesmas no mundo inteiro. “Basta apenas que os questionamentos elaborados sejam respondidos eficientemente, de modo que as metodologias sejam aplicáveis em qualquer lugar”.

Raybould comenta que os europeus têm fama de serem mais rigorosos com relação a tais questionamentos. Mas, diz ele, isso acontece porque na União Européia existem definições burocráticas mais complicadas. “A Europa demora a tomar certas decisões, claro, afinal são 25 países envolvidos”, pondera. “No entanto, cientificamente, as pesquisas européias respondem às mesmas necessidades que as norte-americanas”.

Biotecnologia e meio ambiente

Ph.D. em Genética pela Universidade de Birmingham, o ecologista Alan Raybould passou toda a década de 90 envolvido com pesquisas científicas no Institute of Terrestrial Ecology, ligado ao Natural Environment Research Council. Lá, ele ajudou a desenvolver o Laboratório de Ecologia Molecular da instituição britânica. Tendo estudado biotecnologia e meio ambiente nas esferas público e privada, Raybould diz acreditar na eficiência das avaliações de risco dos organismos GM aplicadas atualmente. A única diferença é que, na Academia, as pesquisas são voltadas para os temas básicos e, na iniciativa privada, procura-se responder a perguntas específicas, compara.

Raybould lamenta que alguns trabalhos científicos de impacto ambiental, por serem muito técnicos e longos, sejam mal interpretados quando tornam-se públicos. Ele cita como exemplo o recente estudo da Universidade de Cornell, que afirmou haver maior pulverização de agentes químicos em lavouras de algodão transgênico na China para combater o aparecimento de pragas secundárias no campo. “Parece que a ciência está criando pragas super-resistentes, mas a questão vem à tona por causa das pestes que o transgênico não controla”, explica, e apresenta outro ponto de vista. “A conclusão, na verdade, revela-se bem interessante, pois demonstra que o transgênico – o algodão Bt, no caso chinês – é eficiente contra o inseto específico e não está sendo danoso para os demais insetos da plantação”, afirma.