É muito provável que você já tenha ouvido histórias, lido livros ou visto filmes futuristas sobre bebês geneticamente modificados. Uma produção cinematográfica dos Estados Unidos, em 1997, Gattaca, abordou essa possibilidade.

GattacaO longa-metragem se passa em um futuro no qual pais que desejam ter filhos têm duas opções. A primeira é escolher a melhor combinação entre seus genomas. Essa alternativa garantiria a presença de características interessantes (a exemplo da altura e da cor dos cabelos). Ao mesmo tempo, asseguraria a ausência traços indesejáveis (como a predisposição genética a doenças). A segunda é o método “clássico”, deixando que o acaso defina as características do bebê. Quando o filme foi lançado, essa situação parecia uma hipótese distante.

Entretanto, pouco mais de 20 anos depois, em novembro de 2018, o cientista chinês Jiuankui He anunciou que tinha modificado geneticamente embriões humanos, os implantado em mulheres e que dois deles já eram bebês recém-nascidos. O resultado dos esforços de He e de sua equipe foram as meninas gêmeas Lulu e Nana. Elas, graças à intervenção genética, nasceram com imunidade ao vírus HIV. As meninas chinesas entraram para a história como o primeiro caso reportado de seres humanos nascidos com seus respectivos DNAs geneticamente modificados pela técnica CRISPR.

O que, exatamente, foi feito nos bebês geneticamente modificados chineses?

De acordo com um documento médico publicado online, o estudo recrutou casais que desejavam ter filhos e nos quais o homem era soropositivo (portador do vírus HIV) e a mulher não. Esses casais teriam concordado em participar de um programa de fertilização in vitro e permitiram que os embriões gerados a partir de suas células reprodutivas fossem geneticamente editados com a técnica CRISPR.

CRISPR

CRISPR é uma técnica de edição genética utilizada para modificar, precisamente, sequências de DNA.

 

O time de cientistas da Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul da China (SUSTech), liderados por Jiuankui He, concentraram seus esforços na inativação de um gene chamado CCR5. Esse gene faz com que o vírus HIV seja capaz de entrar nas células. Eles modificaram o DNA dos embriões, verificaram se a ferramenta CRISPR-Cas9 havia “cortado” o trecho certo do genoma e implantaram o embrião modificado na mãe. Nove meses depois ela daria luz à Lulu e Nana, as meninas gêmeas resistentes ao vírus do HIV.

O estudo, entretanto, está envolto em polêmicas. Ele foi conduzido sem o conhecimento da comunidade científica e seus achados não foram publicados em revistas científicas. Esse procedimento é padrão para suportar os resultados de uma pesquisa válida. Segundo o anúncio, 31 óvulos teriam sido alterados e a mãe de Lulu e Nana recebeu dois desses óvulos. Entretanto, em apenas um dos óvulos a modificação que daria imunidade ao HIV teria sido confirmada.


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Bebês geneticamente modificados e questões éticas

Apesar de a técnica CRISPR ser potencialmente interessante para o tratamento ou mesmo para a cura de doenças, seu uso em seres humanos levanta questões éticas. Essas preocupações estão relacionadas, entre outras coisas, com o desenvolvimento de bebês geneticamente modificados de acordo com uma noção subjetiva de perfeição. Além disso, há ainda o risco desses bebês geneticamente modificados terem vantagens competitivas injustas quando comparados ao restante da população.

Por isso, cientistas do mundo concordaram em avaliar o uso da tecnologia com extremo cuidado, transparência e só empregá-la quando os riscos fossem superados por uma necessidade médica muito relevante. Adicionalmente, é incomum que cientistas anunciem qualquer desenvolvimento inovador sem fornecer dados para que colegas acadêmicos possam revisar. O que ocorreu, neste caso, foi a divulgação online de documentos médicos e de um vídeo de He sobre o assunto.

Há, portanto, poucos detalhes a respeito de como os bebês geneticamente modificados foram desenvolvidos. A universidade e o governo chinês negaram qualquer conhecimento sobre o trabalho. Adicionalmente, anunciaram que que He poderia sofrer sanções legais. Ele perdeu o cargo que ocupava na universidade. Segundo a revista Nature de março de 2019, atualmente as regulações chinesas e de muitos países do mundo (a exemplo do Brasil) proíbem a edição em embriões humanos que sejam usados para reprodução.

Além disso, um artigo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) publicado em fevereiro de 2019 suspeita que os bebês chineses podem também ter uma maior capacidade de aprender e formar memórias. Segundo o texto, a parte editada do código das gêmeas Lulu e Nana pode influenciar na cognição e memória, além da resistência ao vírus da Aids.


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Outros bebês geneticamente modificados

Pouco depois que anunciar o nascimento de Lulu e Nana, Jiankui He revelou uma segunda “potencial gravidez” de uma criança com DNA editado. Essa gravidez foi confirmada em janeiro de 2019 pelas autoridades chinesas. Todas as pessoas envolvidas no caso (gestantes e bebês) estão sob observação médica.

Apesar de o trabalho de He ser o primeiro envolvendo o nascimento de embriões geneticamente modificados, uma parte desse caminho já havia sido percorrido por outros cientistas. É o caso do pesquisador da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, Shoukhrat Mitalipov.

Bebes geneticamente modificadosMitalipov também usou CRIPSR para corrigir uma mutação do gene MYBPC3 presente em um espermatozoide. Essa variante do gene é responsável por uma doença chamada cardiomiopatia hipertrófica, uma das causas mais comuns de morte súbita em jovens atletas. Para corrigi-la, o pesquisador usou CRIPSR para cortar o gene mutante. O estudo não atingiu o resultado desejado nem usou embriões, mas deixou claro que isso seria possível.

Outra técnica que pode dar origem a bebês geneticamente modificados, porém, já é largamente utilizada hoje. Por meio de testes genéticos, uma mãe é capaz de saber se possui, por exemplo, uma mutação no gene BRCA, que aumenta muito as chances de ela ter câncer de ovário, de mama ou ambos. Por meio de técnicas de fertilização in vitro, é possível dar origem a diversos embriões e decidir somente implantar aqueles que não possuírem a mutação no gene BRCA. Dessa maneira, essa mãe estaria reduzindo consideravelmente as chances de sua filha desenvolver câncer de ovário e mama.  

 

Fonte: Redação CIB