Em entrevista ao CIB, Flávio Finardi, Ph.D. em Ciência dos Alimentos, acredita que a biotecnologia pode ser bastante importante para a melhoria da qualidade de vida das pessoas, principalmente no aspecto nutricional. “No médio prazo, poderemos desenvolver produtos com mais nutrientes e, no longo prazo, a possibilidade é de, inclusive, reduzir a quantidade de substâncias indesejáveis nos alimentos, como as tóxicas, de baixa digestibilidade e outras que podem levar a reações adversas e alérgicas.” Para Finardi, que é professor da USP, os alimentos geneticamente modificados são decorrentes da evolução da ciência e é preciso olhar para eles com cautela, pois “os benefícios da biotecnologia podem ser muitos e cada vez maiores”, afirma.

 

CIB – Quais os trabalhos que a USP desenvolve com relação a alimentos geneticamente modificados?

Finardi – Os trabalhos que realizamos aqui no laboratório estão ligados à biossegurança. Os produtos geneticamente modificados são submetidos a testes com animais, que são alimentados com esses produtos ou com seus derivados. Um desses trabalhos vem sendo desenvolvido com a soja GM, que é processada e incorporada à rações. Paralelamente, os animais são alimentados com soja convencional e aí há o cruzamento dos dados e dos resultados dos testes para avaliar o produto GM. Um outro estudo está sendo feito com cana GM. A idéia é usar o caldo da cana na composição de rações para os ratos e, da mesma forma, comparamos os resultados com os obtidos pelo produto convencional.

CIB – De que maneira a biotecnologia pode contribuir para a melhoria na qualidade de vida das pessoas?

Finardi – No meu ponto de vista, a biotecnologia pode contribuir para a melhoria da qualidade de vida em diversos aspectos, mas vou me ater no que diz respeito à questão alimentar e nutricional. A nova ciência traz benefícios que tendem a crescer cada vez mais. Em curto prazo, temos a possibilidade de aumentar a oferta de alimentos, o que está diretamente ligado à produção agrícola. No médio prazo, poderemos desenvolver produtos com mais nutrientes e, no longo prazo, a possibilidade é de, inclusive, reduzir a quantidade de substâncias indesejáveis nos alimentos, como as tóxicas, de baixa digestibilidade e outras que podem levar a reações adversas e alérgicas.

CIB – Qual o impacto que os alimentos enriquecidos por meio da biotecnologia podem causar na vida dos consumidores?

Finardi – As populações carentes serão as mais beneficiadas por esses alimentos. Mesmo que em pequenas doses, conseguiremos aumentar o potencial nutritivo e de proteção dos alimentos funcionais que um determinado produto pode levar a uma faixa da população. Há uma notícia internacional que está circulando sobre o potencial de uma batata modificada que poderá ser liberada na Índia. Essa batata leva uma pequena concentração de uma proteína do amaranto, planta nativa dos Andes que tem um perfil de proteínas adequado para a alimentação humana – muito semelhante a proteínas de origem animal. Uma vez incorporado o gene dessa proteína na batata, será possível transformá-la com um perfil protéico melhor. Há questionamentos sobre se é suficiente o aumento da quantidade de 2% para 2,5% de concentração protéica. Se você considerar que isso representa 25%, é um avanço importante. É claro, não se trata da salvação da humanidade, mas é um primeiro passo e deve fazer parte de um conjunto de ações que resultem em benefícios ainda maiores para os homens. Além da batata, há outros exemplos importantes, como o do arroz dourado, que incorporou a síntese de betacaroteno, da soja com mais vitaminas, da biodisponibilidade de ferro em vegetais, do tomate com controle da quantidade de licopeno. Há alguns estudos que ligam o licopeno à proteção de células contra o câncer. Nós poderemos não só aumentar a quantidade de licopeno no tomate, mas também estender essa proteção a outros vegetais. E existem ainda outras possibilidades que estão sendo estudadas. Há pouco tempo foi identificado o gene responsável pela síntese da vitamina C no morango. Com isso, será possível fazer um controle da estabilidade da vitamina C. Algumas linhas de estudo apontam para o fato dessa vitamina estar ligada à síntese de colágeno, o que poderá contribuir para o combate do escorbuto (doença ligada à carência de vitamina C no organismo).

CIB – Quais os benefícios que os alimentos GMs poderiam trazer para um país como o Brasil no combate a males como a malnutrição?

Finardi – É difícil fazer uma previsão, mas podemos fazer um exercício. Será possível aumentar paulatinamente a ingestão de nutrientes e de calorias. Algumas espécies vegetais carregam uma quantidade maior de micronutrientes, com capacidade para captar mais minerais. Se a ciência consegue estender essa capacidade para outros produtos, e a biotecnologia pode fazer isso, evidentemente é possível levar essa benefício a mais pessoas, de diferentes camadas da população. Na região amazônica, por exemplo, o solo é rico em selênio, que está ligado a algum sistema de proteção contra doenças degenerativas. A planta que mais concentra selênio é a castanha-do-pará. Dessa forma, é possível fazer transferência do gene responsável pela retenção de selênio na castanha-do-pará para outros produtos, ampliando significativamente o número de pessoas que serão beneficiadas pela disseminação dos nutrientes.

CIB – Um dos temas mais discutidos com relação aos transgênicos é a da segurança alimentar. Como se configuram as questões de alergenicidade e toxicidade desses alimentos?

Finardi – Tanto a alergenicidade quanto a toxicidade são reações adversas que certos grupos de alimentos podem causar. No caso das alergias, basicamente são oito grupos de alimentos que provocam 90% das reações, a exemplo da soja, amendoim, peixes, crustáceos, leite, kiwi, figo, abacaxi, entre outros. O indivíduo pode ainda ter alguma sensibilidade a um elemento do produto e manifestar alguma reação adversa mais branda do que uma alergia. No caso dos transgênicos, isso não ocorre. A pergunta que se faz é se a ação alergênica dos produtos pode ser potencializada quando misturadas duas espécies, soja e amendoim, por exemplo. Teoricamente sim, pois sabemos que ambas possuem características alergênicas. Mas, quem é louco de colocar uma proteína alergênica do amendoim na soja? Quem é louco de colocar um gene do camarão, que sabemos ser potencialmente muito alergênico, no mamão? E ainda que ninguém seja louco, para garantir que isso não aconteça, existem normas a serem seguidas pelo cientista, estabelecidas pela CTNBio, antes de fazer qualquer experimento. O pesquisador é obrigado a saber se a proteína que ele pretende utilizar tem algum histórico de alergenicidade. E, depois de modificado, o produto passa por severos testes de qualidade, que garantem a sua segurança para a alimentação humana e animal.

CIB – E há ainda a questão da toxicidade…

Finardi – Alguns produtos têm proteínas que são tóxicas, que podem causar reações no organismo. A mamona, por exemplo, possui a ricina, que não é consumível. Mas é possível extrair o óleo da mamona, que é utilizado pela indústria em colas, tintas e selantes. O feijão também tem uma proteína semelhante, mas menos tóxica. O que ocorre com o feijão é que, com o processo de cozimento a altas temperaturas, essa proteína tóxica se destrói. A biotecnologia, cada vez mais, pode interferir e manipular esses alimentos e retirar deles essas características que não são bem-vindas para o consumo do homem. Há um caso muito comum que é o da doença celíaca, desenvolvida em indivíduos que têm sensibilidade a uma proteína do trigo. Nessas pessoas, a proteína causa uma irritação na parede intestinal, o que as impede de consumir produtos de trigo e seus derivados. Há estudos que estão conseguindo identificar quais as partes da proteína que causam a irritação e, posteriormente, por meio da biotecnologia, será possível “engenheirar” a proteína e retirar dela a parte que causa a doença. Ou seja, é possível melhorar a qualidade de vida das pessoas. Num país como o Brasil, a disseminação de produtos GMs pode ser um benefício estendido a todas as camadas da população. Isso sem contar os benefícios para o produtor, que pode produzir em menor área, a mesma quantidade de alimentos com um custo mais baixo.

CIB – Nos Estados Unidos já existem diversos produtos GMs disponíveis nos supermercados. Quais são esses produtos e com quais características?

Finardi – Há nove anos, eu comi um tomate geneticamente modificado, com alterações genéticas que determinavam maior firmeza na fruta e uma textura diferenciada, mesmo depois de colhida e manipulada. O primeiro lote que saiu não era tão saboroso, mas era o início do processo. Hoje, já há liberação para o consumo nos Estados Unidos de produtos como um melão mais firme e que demora mais a amadurecer, um mamão papaia resistente a pragas, uma batata resistente a pragas, além de brócolis, abóbora, soja, milho e canola GMs, entre outros. Há estudos para desenvolvimento de produtos com mais nutrientes, como o já conhecido arroz dourado, o óleo de canola mais estável para a fritura, a batata que encharca menos na fritura. Enfim, há uma gama bastante rica e diversa de produtos sendo estudados e que devem entrar no mercado em breve.

CIB – Quais as culturas que poderiam ser mais bem trabalhadas pela biotecnologia no Brasil e para quais finalidades?

Finardi – Um potencial muito grande que eu vejo é o da mandioca. Nós produzimos milhares de variedades, com várias finalidades. O Brasil domina a tecnologia, mas o produto tem baixo valor agregado e as culturas existentes hoje são de subsistência. Isso sem contar que ainda não há mercado internacional para a mandioca. Apenas o amido da mandioca tem nicho de mercado como produto ou subproduto para a indústria, a exemplo da cola. Com o uso da biotecnologia, será possível criar novos produtos e, além de aquecer o mercado interno, investir no comércio internacional. Outro exemplo de planta que pode ser mais bem aproveitada é o eucalipto. Originariamente, ele veio da Oceania, mas se adaptou muito bem ao Brasil. Há estudos para controlar o longo processo de floração do eucalipto e, assim, aumentar a produtividade. Isso gera mais empregos e diminui a quantidade de área derrubada para a plantação. E existem ainda pesquisas, feitas pela Embrapa, para desenvolver variedades GMs de mamão e feijão. Enfim, dizer que a biotecnologia será a salvação da humanidade é exagero, mas dizer que os OGMs são horrorosos, que só causam problemas, não é correto. É preciso avaliar com muita cautela, pois os benefícios dessa ciência para as pessoas podem ser muitos e cada vez maiores. Estamos evoluindo.