O seqüenciamento do genoma do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue e da febre amarela, foi anunciado nesta quinta-feira (17/5). O trabalho, realizado por um grupo internacional de cientistas, teve participação de cinco pesquisadores brasileiros, coordenados por Sérgio Verjovski-Almeida, professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo, e apoio da FAPESP.

Os resultados foram publicados na edição on-line da Science e em breve estarão disponíveis na versão impressa da revista. Segundo Verjovski-Almeida, a decodificação do genoma deverá abrir caminho para o desenvolvimento de novas alternativas de controle da disseminação da febre amarela e da dengue. “A pesquisa, sem dúvida, tem um impacto social imenso, pois a população do Aedes está em expansão no Brasil”, disse à Agência FAPESP.

Para o pesquisador, o seqüenciamento poderá resultar em novas alternativas de combate ao mosquito. “É importante o controle preventivo que já se faz, mas é fundamental ter uma opção de controle com inseticida.”

O problema dos inseticidas de largo espectro é que eles causam um desequilíbrio na fauna de insetos no meio ambiente. Ao entender melhor os mecanismos biológicos do mosquito, os cientistas esperam descobrir elementos para criar inseticidas mais específicos.

“Constatamos, com surpresa, que o mosquito tem uma grande quantidade de genes codificantes de receptores olfativos. Possivelmente, isso indica que ele precisa se orientar nos nichos onde vive por meio da atração dessa química de olfato. Poderemos pensar, por exemplo, na criação de um inseticida que interfira nessa capacidade de orientação pelo olfato, atingindo apenas o Aedes”, explicou Verjovski-Almeida.

Genes saltadores

O grupo brasileiro, em parceria com colegas franceses, foi responsável pelo seqüenciamento dos genes ativos do mosquito em sua fase larval. Depois do mapeamento, feito pelos franceses, os brasileiros se dedicaram a decifrar onde estavam os genes – uma tarefa árdua devido a características particulares da espécie, que tem 15 mil genes.

“O genoma do Aedes aegypti é cinco vezes maior do que o de qualquer outro mosquito, graças a uma quantidade grande de transposons, os genes saltadores, que equivalem a 48% do genoma. As regiões intergênicas dessa espécie também estão expandidas. Montar o quebra-cabeça foi bastante trabalhoso. Tivemos que bloquear todo o genoma repetido e só restou 30% do total”, disse Verjovski-Almeida.

Os transposons são seqüências de DNA móveis que podem se auto-replicar em um determinado genoma, transmitindo-se inclusive horizontalmente, de um organismo a outro. Um vírus teria agregado o transposon no próprio material genético e o distribuído no genoma do mosquito.

Segundo Verjovski-Almeida, o Aedes aegypti acomoda em seu genoma uma grande quantidade desse tipo de vírus, que outros insetos não transportam. Com isso, pode-se inferir que o mosquito seria um vetor importante de inserção viral.

“Saber isso poderá ser útil para entender a adaptação que o inseto teve ao longo de sua evolução. O vírus da dengue não está no genoma do mosquito, mas talvez os transposons expliquem a facilidade do inseto em conviver com o vírus”, afirmou.

 

Fonte: Agência Fapesp – 18 de maio de 2007