A mistura do Brasil com o Egito ficou famosa nos anos 1990, com o grupo de axé “É o Tchan”, mas agora cientistas se concentram na miscigenação do Egito com as regiões vizinhas da África, Europa e Ásia. Um estudo internacional liderado pelo Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana e pela Universidade de Tubinga, na Alemanha, é o primeiro a fazer uma análise completa do genoma de múmias antigas, cujos “donos” viveram entre 1.400 a.C. e 400 d.C.

A equipe queria determinar se essas populações antigas foram afetadas, no nível genético, por invasões e conquistas estrangeiras (como a de Alexandre, o Grande), e compará-las com povos que habitam hoje a região. Ao avaliar 151 múmias encontradas no sítio arqueológico de Abusir el-Meleq, ao longo do Rio Nilo, os pesquisadores chegaram à conclusão de que os egípcios antigos compartilham mais ascendência com povos do Oriente Médio e da parte asiática da Turquia, enquanto os egípcios modernos estão mais intimamente ligados aos africanos subsaarianos (região abaixo do Deserto do Saara).

“Isso sugere que um aumento no fluxo de genes da África Subsaariana para o Egito ocorreu nos últimos 1.500 anos”, destaca Stephan Schiffels, líder do grupo no Instituto Max Planck. Fatores causais podem ter melhorado a mobilidade de pessoas, ideias e culturas pelo Nilo, o que aumentou o comércio de longa distância entre o Egito e outras partes do continente e a venda de escravos. Os resultados da pesquisa, publicados em maio na revista “Nature Communications”, podem abrir caminho para novas análises genéticas envolvendo múmias. Segundo os cientistas, o Egito é um local promissor para análise de populações antigas, dada sua história rica e bem documentada, além da localização geográfica e de interações com povos vizinhos, o que torna a região altamente dinâmica.

O diretor do Max Planck e principal autor do estudo, Johannes Krause, explica, porém, que o clima quente do país, os altos níveis de umidade nas tumbas e alguns dos produtos químicos usados nas técnicas de mumificação contribuem para a degradação do DNA e tornam improvável a sobrevivência a longo prazo do material genético das múmias. Mas, apesar dos problemas de degradação e contaminação, desta vez os cientistas conseguiram usar um sequenciamento de DNA de alto rendimento e métodos de autenticação para garantir a confiabilidade dos dados.

Fonte: Nature Communications, maio de 2017.