Na ficção, clones humanos existem aos montes. Da série contemporânea Orphan Black ao livro A Ilha do Dr. Moreau, de 1896, passando por Star Wars: Episódio II – O Ataque dos Clones, de 2002, a clonagem humana ganhou várias interpretações.

Até mesmo o Brasil discutiu o assunto em um dos nossos produtos culturais mais tradicionais, as novelas. Quem não lembra do folhetim de Glória Perez, O clone, exibida em 2001? Ainda assim, apesar da profusão de clones de pessoas na ficção, na vida real, entretanto, isso ainda não aconteceu.

Slide Clonagem conceito

A clonagem de animais de verdade despertou interesse do mundo com o aparecimento da ovelha Dolly, em fevereiro de 1997. Dolly provou que era possível reprogramar células adultas para que elas se diferenciassem em diversas outras e formassem um indivíduo completo.

O feito foi de extrema importância e revolucionou as pesquisas com células-tronco. Mostrou-se ser possível utilizar células de qualquer tecido de um adulto e transformá-las em células-tronco.

A Organização das Nações Unidas (ONU) pediu, em 2005, que os governos adotassem medidas para proibir todas as formas de clonagem humana. Até mesmo as voltadas para fins médicos.

Até hoje, os cientistas acreditam ser muito cedo para experimentos que envolvam clones humanos. Isso devido às limitações da técnica e também por questões éticas. No entanto, os mesmos cientistas apoiam a técnica para fins terapêuticos.


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O que é clonagem

Dolly

Ovelha Dolly | Crédito: Paul Clements/AP

O termo clone tem origem etimológica na palavra grega klon, que quer dizer “broto de um vegetal”. Foi citado pela primeira vez no início dos anos 1900 pelo botânico norte-americano Herbert J. Webber para descrever uma colônia de organismos derivados de um único progenitor através de reprodução assexuada.

Dessa forma, clonagem é a produção de cópias geneticamente iguais, podendo ser um gene, uma célula, um tecido ou até mesmo um indivíduo.

A clonagem ocorre o tempo todo na natureza. É o caso de gêmeos idênticos e na reprodução assexuada de alguns organismos – bactérias, fungos, esponjas do mar e vegetais. A clonagem de plantas é conhecida como propagação vegetativa. É muito empregada na agricultura, principalmente em plantações de cana de açúcar, citros, rosas e outras culturas em que o desenvolvimento da planta é lento.

Já a clonagem de DNA, também conhecida como clonagem gênica, é a mais utilizada pelos biotecnólogos. Ela permite que pesquisadores façam várias copias de uma ou mais sequências específicas de nucleotídeos para, assim, estudarem suas funções.

Após Dolly ter virado notícia, a clonagem foi separada em dois tipos: reprodutiva e terapêutica. Falaremos sobre cada uma a seguir.

A clonagem que gerou Dolly

explicação da ClonagemA técnica utilizada para desenvolver um animal geneticamente igual a outro é conhecida como clonagem reprodutiva. Esta foi a técnica que deu origem à ovelha Dolly (1996-2003) e abriu as portas para clonagem de mamíferos.

Depois da Dolly, já foram clonados camundongos, gatos, porcos, bovinos, equinos, cachorros e até macacos da mesma forma.

A técnica

A técnica consiste na transferência do núcleo de uma célula somática (de qualquer tecido de um indivíduo) para um óvulo enucleado (sem o núcleo). É seguido pela sua introdução no útero de uma fêmea da mesma espécie, que vai servir como barriga de aluguel para o desenvolvimento do clone. O resultado vai ser um gêmeo idêntico (do doador da célula somática) nascido posteriormente.

Não está claro para os cientistas os processos pelos quais o óvulo vazio consegue reprogramar uma célula somática adulta a ponto de torná-la uma célula-tronco totipotente, definição dada a células-tronco capazes de desenvolver um indivíduo completo. Esse é um dos fatores que ocasionam uma baixa eficiência na clonagem de mamíferos.

Dolly foi o primeiro clone bem-sucedido depois de 275 tentativas de clonagem. Entre esse evento e o primeiro clone de um primata (um macaco clonado em 2018), foram 21 anos. Ainda hoje, apenas 15% das clonagens resultam no nascimento de clones saudáveis.

Dolly brasileira

No Brasil, a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnológicos anunciou, em 2001, o nascimento da bezerra Vitória, o primeiro clone da América Latina. Em 2003, ocorreu outro marco para a ciência no Brasil: o nascimento do primeiro clone a partir de células somáticas de um animal morto. Isso abriu caminho para conservação e melhoramento de recursos genéticos animais e a recuperação de animais de alto valor produtivo e também de animais ameaçados ou já extintos.

A União Europeia alegou que “a clonagem animal coloca em risco o bem-estar dos animais por conta da baixa eficácia da técnica”. Desde 2015, proíbe o comércio de clones e qualquer derivado. No Brasil, a clonagem humana é proibida por meio da Lei n° 11.105/2005.

Já a clonagem de animais é permitida. Existem empresas que fazem clonagem comercial de bovinos e equinos, além do armazenamento celular de animais e produção in vitro de embriões. O custo pode chegar a 100 mil reais.

Clonagem de animais de estimação ou extintos

Atualmente existem empresas que clonam animais de estimação, como a usada pela atriz Barbra Streisand para clonar dois de seus cachorros da raça Coton de Tulear. As fêmeas Miss Violet e Miss Scarlet são clones de sua cachorra Samantha, que morreu em 2017 aos 14 anos.

Pioneira na área de clonagem, a Coréia do Sul possui um centro de pesquisa especializado que já produziu centenas de cães a um custo de, aproximadamente, 370 mil reais por clone.

No caso de animais extintos, é preciso ter células somáticas viáveis do animal a ser clonado e também a disponibilidade de fêmeas (espécie próxima) que possam doar óvulos e servir de barriga de aluguel. Uma possibilidade seria a clonagem de mamutes, uma vez que existe seu material genético conservado e uma elefanta poderia fazer a gestação desse clone, pois são geneticamente parecidos.

A clonagem que pode salvar vidas

A clonagem terapêutica também emprega a técnica de transferência nuclear de uma célula somática para um óvulo enucleado. Diferentemente do que é realizado na clonagem reprodutiva, o óvulo fecundado não será introduzido no útero de uma fêmea, mas sim em meios para cultura celular e mantidos em laboratório sob condições controladas.

Essa estratégia permite a produção de células-tronco embrionárias – células que são encontradas no interior de um embrião em sua fase de blastocisto. Esse tipo de célula tronco é denominado pluripotente, devido a sua capacidade de se diferenciar em qualquer tipo celular.

Clonagem célula interna

Com essa técnica, cientistas seriam capazes de criar células-tronco pluripotentes personalizadas. Isso significa que essas células poderiam ser enxertadas novamente no indivíduo (doador do núcleo), diminuindo as chances de rejeição imune.

A clonagem terapêutica permite a criação de um banco de células-tronco pluripotente próprias. Dessa forma será possível, por exemplo, reconstruir a medula óssea em caso de algum acidente. Também será possível substituir o tecido cardíaco após um infarto ou até mesmo restaurar neurônios caso a pessoa venha a sofrer de Mal de Parkinson. Outro benefício seria a utilização dessas células para testes com novos medicamentos.

Entretanto, a clonagem terapêutica é uma técnica muito difícil. Apenas em 2013 cientistas conseguiram produzir células-tronco embrionárias humanas personalizadas. Problemas éticos também ameaçam a técnica. Isso devido à necessidade de óvulos humanos e semelhança com os primeiros passos utilizados na clonagem reprodutiva. Por isso, alguns países também proíbem a clonagem terapêutica. No Brasil a lei restringe a clonagem reprodutiva, mas não a terapêutica.

Para onde vamos?

A clonagem de mamíferos não criou clones humanos e não salvou, efetivamente, vidas. Mas ela com certeza serviu para aumentar o conhecimento sobre o desenvolvimento celular. Além disso, auxiliou em pesquisas básicas. Principalmente com as células-tronco totipotentes e embrionárias geradas a partir da clonagem de diferentes mamíferos.

Nesses 23 anos pós-Dolly, houve progresso na eficiência. Todos esses avanços, somados à aplicação de técnicas para edição gênica (como a CRISPR), podem expandir as possibilidades de uso potencial das técnicas de clonagem para:

  • Melhoria de características de animais importantes de criação;
  • Desenvolvimento de modelos celulares para o estudo de doenças genéticas e
  • Desenvolvimento de fármacos.