Segundo José Fernando Garcia, um dos participantes brasileiros de um dos grupos e coordenador do Laboratório de Bioquímica e Biologia Molecular Animal da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araçatuba (SP), os trabalhos deverão impulsionar as pesquisas voltadas para o aumento da qualidade da carne e do leite dos países produtores.

As informações do DNA ajudarão no direcionamento da seleção de animais produtores, com uso de marcadores genéticos que permitirão avaliar, a partir de um único exame nos primeiros meses de vida do animal, características como ganho de peso, produção de leite, maciez da carne e resistência a doenças, disse Garcia.

A pesquisa envolveu mais de 300 cientistas, de variados países, sendo os brasileiros pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), do Departamento de Produção e Saúde Animal da Unesp, em Araçatuba (SP), do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP) e do Departamento de Ciências Biológicas, Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, em Assis (SP).

Enquanto um dos artigos publicados na Science descreve o sequenciamento do genoma da vaca, o outro apresenta suas primeiras aplicações: a construção de um mapa da diversidade genética entre várias populações, denominado Bovine HapMap.

“A vaca L1 Dominette, que é da raça Hereford, foi comparada com outras 19 raças que diferem pela biologia ou origem geográfica. Os estudos concluíram que o rebanho mundial descende de uma população ancestral muito diversificada que sofreu uma rápida diminuição, provavelmente devido à seleção para o desenvolvimento de raças com finalidades econômicas, sociais ou religiosas”, contou Garcia.

A análise, segundo o professor da Unesp, foi possível devido à “assinatura” de seleção existente no genoma bovino, ou seja, alterações em determinadas partes do DNA – pontos conhecidos como polimorfismos de sítio único (SNP, na sigla em inglês) que servem como base para a descoberta de marcadores de DNA.

“As análises mostram que a diversidade genética entre as raças taurinas, de maior ocorrência em países temperados, é inferior à das raças zebuínas, base genética do rebanho tropical, incluindo o caso brasileiro”, disse.

O processo de comparação entre as raças e o genoma foi feito por um novo método conhecido como SNP Chip. “A técnica permite a leitura de 50 mil pontos de variação no DNA, o que implica maior agilidade pela possibilidade de automação e redução de custos ao processo. É como um pente fino que analisa todos os pontos de DNA e compara com marcadores que já estão estudados e identificados”, explicou.

Segundo Garcia, esse tipo de mapeamento comparativo já era feito no genoma humano e de outros animais, mas sua utilização era mais restrita do que no caso do genoma de uma espécie de produção.

“O Brasil é o maior produtor de carne por tonelagem e temos potencial para, em breve, sermos exportadores de leite. Para isso, teremos que melhorar a qualidade de produção, mas não podemos trocar o rebanho, que foi selecionado por muitas décadas. Com esse tipo de informação genética, poderemos melhorar os quesitos de qualidade sem perdas das características de adaptabilidade. Esse sequenciamento criou uma base para facilitar a pesquisa com zebuínos”, destacou.

Os artigos The genome sequence of taurine cattle: A window to ruminant biology and evolution e Genome-wide survey of SNP variation uncovers the genetic structure of cattle breeds podem ser lidos por assinantes da Science em www.sciencemag.org.

Fonte: FAPESP 24 de abril de 2009