Em entrevista concedida ao CIB, o professor Vasco Azevedo – médico veterinário e pós-doutor em Genética Molecular de Microorganismos pela Universidade da Pensilvânia (EUA) – afirma que o Brasil tem um enorme potencial para se tornar um dos grandes competidores mundiais no mercado de carnes e que a biotecnologia é uma ferramenta importante nesse processo. Segundo Azevedo, que é professor da UFMG e membro titular da CTNBio, a pecuária precisa passar por uma revolução, a exemplo do que ocorreu com a agricultura na chamada “Revolução Verde”. Para o professor, a ciência do DNA recombinante pode ser utilizada para melhorar a qualidade dos animais e para a criação de medicamentos e vacinas, tanto para os animais quanto para o ser humano. Azevedo acredita que há ainda muito a ser feito, principalmente em relação à profissionalização do produtor brasileiro e à adaptação dos animais à tecnologia, mas que a biotecnologia será fundamental no combate à fome e no salto da produtividade do País.

CIBQuais as linhas de pesquisa que o senhor desenvolve na UFMG?

Vasco Azevedo – O laboratório realiza algumas linhas de pesquisa. Uma delas, chamamos de utilização biotecnológica e terapêutica das bactérias do ácido láctico. A idéia é criar novos medicamentos e novas vacinas usando as proteínas de interesse das bactérias do leite. A vacina que estamos desenvolvendo agora é produzida por meio da inserção do gene da bactéria que causa a brucelose dentro do Lactococus. Esse gene é um antígeno, ou seja, produz uma proteína antigênica, o que induz a uma resposta imune contra a brucelose sem que a doença se manifeste. É a utilização de uma bactéria para conseguir a proteção contra uma outra, utilizando apenas um pedaço da bactéria causadora da doença, técnica conseguida por meio da biotecnologia. Outra linha de pesquisa é a de estudos genômicos e bactérias patogênicas para identificar genes ligados ao que chamamos de virulência e patogenicidade. Analisando os genes que estão implicados nas causas das doenças, podemos, então, desenvolver medicamentos ou vacinas que impeçam o desenvolvimento das enfermidades. Estamos agora dedicados à bactéria que causa uma doença conhecida como mal do caroço, que ataca caprinos e ovinos, principalmente no Nordeste. É, digamos, uma falsa tuberculose, que provoca um inchamento dos gânglios e ataca o pulmão dos animais. Além disso, o mal do caroço leva a uma grande perda da carne e do couro do animal em função das lesões. É importante combater essa doença até por uma questão econômica, já que, hoje, cerca de 50% da carne que chega ao mercado de São Paulo vem do Nordeste do País.

CIBComo o senhor avalia o potencial dessa tecnologia para a pecuária nas condições brasileiras?

Azevedo – Bill Gates, o grande homem da informática, disse certa vez que “a forma deste século será dada pela biotecnologia e pela tecnologia da informação”. Em função do crescimento populacional e da diminuição das áreas para criação de animais, há hoje uma demanda mundial por alimentos de origem animal, o que gera a necessidade imediata de revolução na pecuária, como a que foi feita na agricultura, conhecida como “Revolução Verde”. A biotecnologia é a ferramenta ideal para ser utilizada, pois gera um aumento eficiente da produção de animais, permitindo a sua utilização, inclusive, como “usinas vivas” para produzir novos medicamentos e até para a doação de órgãos para seres humanos, chamado xenotransplante. Grandes avanços estão sendo alcançados pela pecuária graças à biotecnologia. Animais de alto valor zootécnico podem produzir mais em função do manejo que os leva a ter uma saúde perfeita. Além disso, a biotecnologia possibilita diagnósticos precisos, novos medicamentos, novas vacinas e alimentação em quantidade e qualidade para esses animais. Outra possibilidade gerada pela biotecnologia é a da criação de animais transgênicos para obter avanços na produção e para gerar produtos com maior valor agregado e de importância social. Várias empresas já desenvolveram animais que podem produzir proteínas de interesse farmacêutico nos ovos e no leite. Isso tudo sem contar a contribuição fundamental que essa tecnologia poderá ter no combate à fome e à desnutrição no mundo, observadas, é claro, todas as prerrogativas de segurança relacionadas aos produtos geneticamente modificados.

CIB Quais os produtos na área animal, frutos da biotecnologia, que já estão sendo comercializados no mundo?

Azevedo – Vacinas e medicamentos derivados da biotecnologia já estão no mercado mundial. Há alguns exemplos de vacinas que “deletam” os genes que podem causar as doenças, impedindo o seu desenvolvimento. No Brasil, há exemplos dessas vacinas utilizadas até para cães e gatos. É um processo muito mais seguro do que o das vacinas clássicas, que têm como princípio o vírus ou a bactéria apenas atenuados, e que podem levar, algumas vezes, ao desenvolvimento da doença. No caso das vacinas desenvolvidas pela biotecnologia, o gene causador da doença não está ativo, ou seja, não pode se recompor e provocar a enfermidade. Também há muito sendo feito na produção de animais geneticamente modificados. Para se ter uma idéia, há uma cabra, criada por uma empresa, que produz a proteína da teia da aranha. Tal material pode ser utilizado para fazer coletes à prova de bala, extremamente finos, que impedem a passagem até de tiros de AR15. Essa proteína pode ser de extrema importância também para a reconstrução de tendões, sem nenhum problema de rejeição para o ser humano.

CIBNas últimas semanas, a imprensa mundial noticiou que apenas um animal com a doença conhecida como mal da vaca louca comprometeu a exportação de carnes do Canadá. Quais as doenças que acometem o rebanho brasileiro e como a biotecnologia pode contribuir para solucionar esses problemas?

Azevedo – Há muito para caminhar no combate a doenças que prejudicam o rebanho. O Brasil ainda está imune ao mal da vaca louca, mas é preciso ter muito cuidado, pois, um único caso pode comprometer todo o comércio de carnes e derivados. E a precaução não é só com essa doença, mas com outras também. A brucelose ataca 10% do rebanho nacional, de acordo com dados do Ministério da Agricultura. É um número altíssimo. Ela não mata, mas causa aborto no bovino e é uma doença transmitida para o ser humano. Há casos de raiva, de tuberculose, enfim, é preciso controlar o básico, para melhorar a qualidade dos animais e produzir mais.

CIB Como a biotecnologia pode ser utilizada para favorecer o Brasil no mercado internacional de carnes e derivados?

Azevedo – O Brasil tem um enorme potencial para ser um grande competidor mundial na pecuária. Na Europa, o produtor que possui uma área de 10 hectares tem, na verdade, uma fazenda. Aqui, temos fazendas de três mil hectares. Imagine o que elas podem produzir, tanto na agricultura quanto na pecuária. Além disso, temos, no País, um clima excepcional, que propicia a criação dos animais no pasto. Países como o Brasil e os Estados Unidos não são jardineiros. O próprio ministro da Agricultura já se referiu a isso. A Europa produz, hoje, muito mais em uma área pequena do que nós produzimos em uma área grande. É preciso mudar isso e potencial para o crescimento nós temos. Se utilizássemos em escala todos os recursos que já estão disponíveis no mercado, poderíamos produzir mil vezes mais do que produzimos e nos tornar grandes competidores mundiais no comércio de carnes.

CIB E qual o caminho para essa evolução?

Azevedo – É preciso profissionalizar o produtor rural. Ele precisa entender como usar a biotecnologia e como ela funciona. Nosso potencial é muito maior do que o da Europa, por exemplo. O que ocorre é que, aqui, ainda precisamos caminhar muito na adaptação dos animais, no combate a doenças. Para tanto, há ainda algumas medidas importantes, no âmbito institucional, a serem tomadas. É preciso fortalecer a Embrapa, que trabalha com a pesquisa agropecuária. Os cientistas precisam desse órgão, porque não é possível apenas transportar a tecnologia para o Brasil, é preciso adaptá-la e, para isso, é necessário que sejamos grandes também na pesquisa e no estudo. O governo tem de fortalecer a Embrapa, investir nela, para que possamos nos tornar mais competitivos no mercado internacional.