CIB – De onde surgiu a idéia do seqüenciamento do genoma do café?
Vieira – Foi uma idéia que nasceu dentro do Núcleo de Biotecnologia do Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café e do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), e a partir daí foi feito um contrato entre a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), a Embrapa e o Consórcio (do qual participam cerca de 40 entidades) para iniciar os trabalhos de seqüenciamento. A parte laboratorial foi realizada sob a coordenação do Consórcio e executado pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen) e a Fapesp. O custo total do projeto foi de R$ 6,0 milhões. Destes, o custeio direto foi de R$ 1,92 milhões, proveniente do MAPA (FUNCAFÉ – R$ 960 mil e Embrapa – R$ 480 mil) e da FAPESP (R$ 480 mil).

CIB – E quando começou o seqüenciamento. Ele já foi finalizado?
Vieira – Começamos há dois anos e foi encerrado em outubro de 2003. Nós já temos o banco de dados concluído. Ele possui cerca de 200 mil seqüências, o que dá em torno de 25 a 30 mil seqüências únicas (genes expressos), que estão depositados em dois bancos de dados duplicados: um está no Cenargen e outro na Unicamp. E o banco de clones, as seqüências, também foi duplicado: uma parte no Brazilian Clone Collection Center- BCCC, na Universidade Estadual Paulistal/UNESP, campus de Jaboticabal, e outro no Cenargen.

CIB – E agora, qual o próximo passo?
Vieira – Agora todas instituições de pesquisas do Brasil que trabalham com café dentro desse consórcio e as instituições de São Paulo ligadas à Fapesp (Unicamp, USP, etc) poderão ter acesso a esses dados. Os interessados assinam um termo de sigilo e confidencialidade com o comitê diretor do Projeto. Feito isso ele receberá uma senha com qual terá acesso aos dados para sua pesquisa. Essas instituições brasileiras vão ter acesso sem custo. Nos próximos dois anos somente elas terão acesso. Nenhuma instituição de fora do país poderá acessar por esse período, a não ser se associada a instituições de pesquisa brasileiras. Depois disso o comitê diretor pode decidir, por exemplo, se uma empresa interessada poderá acessar as informações, e qual será a remuneração financeira por isso. Como esses bancos têm uma vida útil, se você não usá-lo, alguém irá fazer outro em algum lugar no mundo mais cedo ou mais tarde. A única vantagem de você fazer um genoma é utilizar essa informação o mais rápido possível. Por isso o consórcio está financiando projetos de pesquisa para utilizar esses dados.

CIB – Que tipos de projetos?
Vieira – Têm projetos relativos à qualidade do café. Por exemplo, os genes envolvidos no metabolismo de açúcar de café, que é uma parceria do IAPAR (Instituto Agronômico do Paraná) com o CIRAD na França. Alguns produtos de metabolismo secundário que podem ter influência na qualidade do café terão seus genes estudados também. Algo muito importante no café é você controlar o florescimento, nisso também temos estudos no IAC e na USP. Projetos estão sendo desenvolvidos para uniformizar a maturação dos frutos visando melhorar a qualidade e o processo de colheita do café. Para minimizar o problema da seca, que é um problema muito grave em várias regiões cafeeiras, há grupos na Universidade Federal de Viçosa (UFV) voltados para estudar esse problema. Também, o IAC e o Cenargen estão trabalhando com resistência a nematóides, que é uma praga muito importante em café. Outras doenças estão sendo estudadas, como Xylella no Cenargen e a ferrugem em Viçosa. Agora todos estes grupos poderão ter acesso à informação do genoma e dependem apenas de trabalho científico árduo para transformar tudo isso em conhecimento aplicável na resolução de problemas da cadeia agroindustrial do café. Quando se fala em qualidade você não favorece apenas o agricultor, mas a cadeia toda. Outra coisa muito importante no projeto do genoma do café é que, até onde sei, ele é o primeiro projeto de genoma voltado a uma cultura que é prioritária para o pequeno agricultor. A maioria dos produtores de café são pequenos agricultores. Acho isso uma mostra de que com a biotecnologia você pode beneficiar muito o pequeno agricultor, e não apenas o grande. Porque para beneficiar o pequeno mais do que nunca você precisa da tecnologia. O grande ganha na escala, o pequeno não. E é aí que a tecnologia e a ciência têm muito que contribuir.

CIB – Quais as principais doenças que atacam a cafeicultura e que tipos de perspectivas esse seqüenciamento traz para a solução destes problemas?
Vieira – A ferrugem é a principal doença do café. Nós temos grupos em São Paulo, no IAC, e na UFV, trabalhando com isso. E não apenas tentando identificar genes que estão envolvidos na resistência da ferrugem como também para usar toda essa informação para fazer um mapeamento genético do café. O conhecimento dos genes não só pode levar a uma planta transgênica resistente à doença como pode auxiliar o melhoramento convencional. O melhorista consegue identificar a priori quando a planta ainda é jovem, quais são as variedades e linhagens que têm aquele gene. Se você pensar que demora de 25 a 30 anos para se obter uma variedade pelos processos normais, então, você imagina a redução de custo. Quanto a insetos-pragas, nós temos duas muito importantes no café: o bicho-mineiro, um lepidóptero (borboletas e mariposas), e a broca do café, que é um coleóptero (besouro). Há um projeto no Cenargen para obter plantas com resistência à broca. E o IAC tem outro trabalho para bicho-mineiro, não só no melhoramento convencional, mas também tentando identificar alguns genes envolvidos na praga.

CIB – E no que tange à qualidade do café?
Vieira – Esse é um ponto muito importante. O IAPAR tem dois projetos. Num estamos tentando estudar os genes envolvidos na síntese de produtos do metabolismo secundário, pois no café são centenas de produtos de metabolismo secundário que contribuem no sabor e aroma da bebida. Mas ainda não se sabe qual a importância relativa da maioria deles na qualidade. Estamos tentando identificar esses genes para modificar o teor desses produtos e verificar a sua influência na qualidade de bebida do café. Outro projeto considera o metabolismo de carboidratos nos frutos. Nós já identificamos os três principais genes envolvidos na produção de carboidratos no grão de café e agora estudamos como eles influenciam na qualidade do café. Por que isso? Quando você torra o café têm algumas reações que transformam o açúcar em diversos outros compostos. Diferentes teores de açúcar no café podem proporcionar tanto um aroma como um sabor melhor ao produto final.

CIB – Ou seja, o seqüenciamento do café concede não apenas vantagens de eficiência na sua produção como adiciona modificações sensíveis para o consumidor, como sabor.
Vieira – Sim, e uma das coisas mais interessantes que agora se fala muito é o Café Saúde. Por exemplo, tem esse café transgênico sem cafeína. Atualmente foram descobertas pelo IAC e Unicamp algumas mutações em plantas de café não transgênicas, mas que possuem baixo teor baixo de cafeína. Mas antes não tínhamos isso. Tem outros produtos, como ácidos clorogênicos e trigonelina, que podem estar envolvidos na acidez e no amargor do café. Sabendo-se o gene envolvido, pode se utilizar a técnica de silenciamento de genes para verificar a real contribuição desses compostos para a qualidade da bebida. Na questão dos ácidos clorogênicos, por exemplo, hoje já se sabe que ele tem um efeito benéfico na saúde do ser humano. Você pode modificar os teores desses ácidos clorogênicos através de processos biotecnológicos. O Café Saúde é uma questão muito importante. Você também pode, por exemplo, aumentar o teor de algumas vitaminas e antioxidantes presentes no café -– têm alguns compostos que possuem um efeito antioxidante que, inclusive, contribuem para a prevenção alguns cânceres. Assim, o café não seria só uma bebida para o prazer, mas também teria um efeito mais benéfico para a saúde.

CIB – Quanto tempo para isso tornar-se realidade?
Vieira – A gente espera que muito dessas transformações sejam de nosso conhecimento em cinco a dez anos. Mudar o cultivo de uma planta perene, como é o caso do café, é um pouco mais complicado. Após o plantio, o agricultor vai ficar 20 ou 25 anos com sua planta no campo devido ao investimento realizado. Diferentemente de culturas anuais, ele não vai trocá-la simplesmente pela existência de uma planta melhor. A modificação de uma lavoura se dará quando da substituição das plantas velhas e pouco produtivas por novas com maior valor agregado, ou seja, a taxa de incorporação de novas tecnologias demora um pouco mais devido à natureza das culturas perenes. Mas todas as informações genéticas e fisiológicas obtidas com o projeto genoma podem ser utilizadas mais rapidamente. Se você souber como atuam genes de florescimento você pode desenvolver métodos de manejo da cultura para controlar o seu florescimento e maturação, como, por exemplo, pelo uso de substâncias que modificam a expressão desses genes. É um novo horizonte, e todos nós no Brasil que trabalhamos com esta cultura estamos muito otimistas. Se pensarmos que o café é a segunda maior commoditie no mundo e o seu significado para a economia brasileira, acho que ninguém mais do que os que estão envolvidos no agronegócio brasileiro mereciam ter essa informação disponível visando aumentar a satisfação dos consumidores e conquistar mercados com produtos de maior valor agregado.

CIB – Então o impacto desse tipo de informação é muito grande para o Brasil, o maior produtor de café do mundo?
Vieira – Não apenas o maior produtor como o segundo maior consumidor de café do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Dos países que produzem muito café nenhum deles é grande consumidor. Ou seja, os dados do Projeto Genoma Café poderão não só gerar mais divisas para o país, mas auxiliará na obtenção de cafés com cada vez mais qualidade para o consumo interno. Principalmente naquele ponto que falei: o que chamamos de Café Saúde. Para uma commoditie a questão da agregação de valor passa pelo diferencial de qualidade. Uma das maiores prioridades que estamos dando para a utilização dos dados obtidos com o seqüenciamento do genoma do cafeeiro é o desenvolvimento de projetos que contribuam para a qualidade da bebida, principalmente para o Café Saúde.