De acordo com a diretora de Biotecnologia, Agricultura e Alimentação da entidade, o levantamento conclui que os transgênicos são tão seguros quanto suas variedades convencionais para a saúde e o meio ambiente.

Os resultados dos últimos 10 anos de estudos financiados pela Comissão Europeia para investigar a biotecnologia e, dentro dela, os organismos geneticamente modificados (OGM) ou transgênicos estão reunidos em um documento recém-divulgado pela instituição.

Dos 50 projetos de pesquisa apresentados na publicação, trabalhos que envolveram mais de 400 grupos de investigação, a principal conclusão é a de que “não há nenhuma evidência científica associando os OGMs a maiores riscos para o meio ambiente ou para a alimentação se comparados aos apresentados por plantas convencionais”. Intitulado “Uma Década de Pesquisas com OGMs Financiadas pela União Européia (2001-2010)”, o material revela valores de investimento de mais €200 milhões em trabalhos na área desde 2001.

Em entrevista ao Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB), a diretora de Biotecnologia, Agricultura e Alimentação da Comissão Europeia para Pesquisa e Inovação, Maive Rute, dá detalhes sobre o conteúdo da publicação. A diretora fala sobre a percepção pública dos transgênicos na Europa, os investimentos em biossegurança e o papel do Brasil na produção de alimentos.

CIB – Os alimentos geneticamente modificados (GM) são seguros para consumo humano e para o meio ambiente? Por quê?

Maive Rute – A pesquisa à qual a publicação se refere conclui que os alimentos geneticamente modificados são tão seguros quanto suas variedades convencionais no que diz respeito à saúde e ao meio ambiente. Entretanto, como princípio básico, a ciência não pode garantir a total ausência de riscos. A Agência Europeia de Segurança Alimentar (EFSA, na sigla em inglês) vai continuar a fazer avaliações técnico-científicas sobre os potenciais riscos dos transgênicos e reforçar sua posição como um importante pilar na autorização de OGMs na União Europeia.

CIB – A Europa mantém uma posição de resistência com relação ao cultivo de alimentos geneticamente modificados?

Maive Rute – De acordo com a última pesquisa do Eurobarômetro, os Europeus estão bastante otimistas com relação à biotecnologia. Mais da metade dos entrevistados (53%) acredita que a biotecnologia terá um efeito positivo no futuro, enquanto apenas 20% esperam um resultado negativo. A pesquisa também revela falta de informação, apontando a necessidade de mais comunicação. A maioria dos entrevistados nunca tinha ouvido falar a respeito de algumas áreas, a exemplo da nanotecnologia (55%) e da biologia sintética (83%).

A comissária de Pesquisa e Inovação da Comissão Europeia, Máire Geoghegan-Quinn, afirmou que essa pesquisa nos revela três coisas: os europeus são majoritariamente favoráveis à biotecnologia, embora estejam inseguros sobre alguns aspectos; muitas pessoas não têm informações suficientes, o que nos mostra um desafio de comunicação; as decisões sobre biotecnologia devem ser baseadas em ciência e levar em conta fatores éticos, de saúde e de meio ambiente. Segundo ela, não podemos ser influenciados por reações emocionais ou considerações comerciais de curto prazo. Máire acredita ainda que a biotecnologia pode fazer uma enorme contribuição para atingirmos, em 2020, nossos objetivos de crescimento sustentável e melhor qualidade de vida e saúde.

CIB – Você poderia nomear alguns dos centros de pesquisa responsáveis pelos 50 projetos de pesquisa mencionados no documento?

Maive Rute – Há mais de 400 grupos de pesquisa envolvidos nos 50 projetos reunidos no documento. Entre eles, o Instituto Max Planck (Alemanha), a Universidade de Wageningen (Holanda), o Laboratório Nacional RISO (Dinamarca), o Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica, INRA (França) e o Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento, CIRAD (França). Organizações de pesquisa na Bolívia e no Peru também participaram.

CIB – Desde 1982, a Comissão Europeia investiu €300 milhões em pesquisa biotecnológica. Os investimentos nessa área vão aumentar de agora em diante?

Maive Rute – Os €300 milhões investidos ao longo dos últimos 25 anos foram em biossegurança, e as pesquisas com organismos geneticamente modificados correspondem a uma parte desse valor. Está previsto um investimento de aproximadamente €2 bilhões para financiar pesquisa nas áreas de biotecnologia, agricultura, pesca e alimentos. A Comissão Europeia reconhece nessa tecnologia potencial de inovação na produção, nos processos e em todas as áreas industriais. Dessa maneira, a pesquisa em biotecnologia continua sendo uma prioridade em diversos aspectos, da agricultura à indústria, da saúde à exploração do potencial marinho.

CIB – Quais são as principais contribuições que os organismos geneticamente modificados proporcionaram à Europa?

Maive Rute – A adoção de culturas GM na Europa é muito limitada. Entretanto, se abordarmos uma perspectiva global, as culturas transgênicas são plantadas em muitas partes do mundo. A taxa de adoção indica que as contribuições positivas para a indústria agrícola ou mesmo para os pequenos agricultores são reais.

CIB – Na sua opinião, a biotecnologia poderia ser usada para aumentar a oferta e a qualidade dos alimentos oferecidos? Quão importantes são a ciência e a tecnologia para contribuir nesse aspecto?

Maive Rute – Primeiramente, o problema precisa ser identificado. Em termos de suprimentos e qualidade dos alimentos precisa aumentar, não apenas a quantidade de comida produzida. Mas, igualmente, deve ser melhorada também a maneira com que os alimentos são manejados e armazenados. A biotecnologia é capaz de prover um número de soluções para essas questões, a exemplo de ganhos de produtividade, uso eficiente de nutrientes pelas plantas e resistência a estresses bióticos e abióticos. O funcionamento das cadeias de produção de alimentos é uma questão complexa, influenciada por numerosos fatores, dos quais a quantidade produzida é apenas um deles. O uso da biotecnologia para isso, especificamente, é certamente uma possibilidade de aumentar a produção de alimentos. Entretanto, identificar o problema deve ser o ponto inicial para decidir investir apenas em biotecnologia ou também em, por exemplo, melhorias no operacional da cadeia produtiva.

CIB – Como você vê o Brasil no cenário do desenvolvimento de biotecnologia e na adoção dos transgênicos? Qual é o papel que o País deve desempenhar para contribuir com o aumento da produção de alimentos?

Maive Rute – Nós estamos todos cientes de que a produção agrícola atual não vai ser suficiente para alimentar uma população mundial de 9 bilhões de habitantes em 2050. Outros fatores, a exemplo de mudanças climáticas e escassez de recursos (água, energia, matéria-prima, entre outros) impõem outras restrições à atividade agrícola. Aumentar a produtividade e a qualidade dos cultivos e, ao mesmo tempo, contribuir para a sustentabilidade da agricultura já são grandes desafios. Eles não serão superados por nenhum país ou região sozinhos, requerem cooperação reforçada entre todos os envolvidos. O Brasil, como um país com uma grande superfície e enorme capital humano, é certamente um dos mais importantes players nesse mercado.

CIB – Como a biotecnologia pode nos ajudar a praticar a agricultura sustentável?

Maive Rute – A agricultura sustentável, sob nosso ponto de vista, significa não só limitar ou reduzir os efeitos das atividades agrícolas, mas também manter ou melhorar condições de solo e disponibilidade de água para irrigação como seu mais importante critério. Além da engenharia genética, as ferramentas e métodos provenientes da biotecnologia nos permitem um profundo entendimento da biologia vegetal, da comunicação intercelular e das funcionalidades do solo. Essa tecnologia não apenas reduz o tempo de desenvolvimento de novas variedades como também permite mais precisão no melhoramento de plantas. Dessa maneira, ficaria mais fácil fazer a seleção de cultivares que usem micronutrientes com mais eficiência do que as variedades convencionais. Há certamente um grande potencial de contribuição com a sustentabilidade na biotecnologia agrícola. No entanto, a sustentabilidade, em última análise, depende da maneira com que usamos e manejamos os recursos disponíveis e necessários. Do solo à água, dos insumos usados como fertilizantes àqueles usados como defensivos. A biotecnologia é uma ferramenta para contribuir nesse processo, porém, ela não é a “bala de prata” que vai solucionar todos os problemas atuais e futuros.

CIB – Como a informação reunida no documento pode ajudar os legisladores a tomar decisões sobre os OGM baseadas em ciência?

Maive Rute – Estamos trabalhando para conscientizar os legisladores em toda a Europa sobre o conteúdo dessa publicação, da anterior (http://ec.europa.eu/research/quality-of-life/gmo/) e das próximas atividades. A comissária de Pesquisa e Inovação da Comissão Europeia, Geoghegan-Quinn, enfatiza a necessidade de basear nossas decisões na ciência. Para ela, o documento é uma ferramenta útil nesse sentido, já chamou a atenção de cientistas e legisladores no mundo e, provavelmente, vai contribuir para uma discussão mais bem informada sobre os benefícios e riscos dos alimentos geneticamente modificados.

Fonte: Uma Década de Pesquisas com OGMs Financiadas pela União Europeia (2001-2010) – 04 de abril de 2011