Em entrevista ao CIB, o pesquisador da Universidade de Santa Maria (RS) Janio Santurio fala sobre as micotoxinas, substâncias tóxicas, produzidas por fungos que contaminam os alimentos. Santurio, que é veterinário e Doutor em Micologia e Ciências Veterinárias, alerta para os riscos da contaminação por micotoxinas e destaca que o tema preocupa a comunidade mundial. Segundo o cientista, que integra o Laboratório de Pesquisas Micológicas da Universidade (Lapemi), a biotecnologia pode ser uma importante ferramenta para evitar a contaminação: “Sob esse aspecto, os alimentos e rações produzidos com millho geneticamente modificado, por exemplo, serão mais saudáveis para o consumo do que as variedades convencionais”, afirma.

CIBO que são micotoxinas e quais as conseqüências de sua ação nos seres humanos e animais?

Janio Santurio – As micotoxinas são substâncias resultantes do metabolismo secundário dos fungos que crescem nos alimentos, quando em condições de umidade do produto, umidade relativa do ar e temperatura ambiente favoráveis. As mais conhecidas são as aflatoxinas, derivadas do Aspergillus – fungo que contamina o milho armazenado, muito comum no Brasil em razão do clima tropical –, e do Fusarium, que se desenvolve sobre milho, trigo e cevada, entre outras culturas. O Fusarium produz mais de 100 micotoxinas diferentes, umas mais tóxicas que outras. De qualquer maneira, essas substâncias são danosas para o homem e para os animais, pois agem diretamente no fígado. Elas inibem a síntese de proteínas, causando queda no nível de anticorpos e enzimas e provocando lesões e hemorragias que podem levar ao câncer. Para se ter uma idéia do perigo que as micotoxinas representam, o índice de câncer hepático na África – grande consumidor de amendoim, grão altamente contaminável – é 13 vezes maior que em outros países.

CIBDe que forma se dá a contaminação dos cereais por fungos?

Santurio – As principais condições que levam os fungos a produzir micotoxinas são a deficiência no armazenamento dos grãos (umidade e temperatura) e o ataque de insetos, principalmente próximo da colheita e logo após dela – quando a umidade das espigas é alta. No caso do milho, um dos cultivos mais afetados, o inseto perfura a espiga e abre caminho para que o fungo se instale e se desenvolva. Cerca de 45% do milho produzido no Brasil é contaminado por micotoxinas, o que representa de 14 a 16 milhões de toneladas por ano.

CIBHá limites estabelecidos para as micotoxinas nos alimentos? Qual o valor aceitável pelas autoridades e pelo mercado?

Santurio – Existe uma norma que vale para todo o Mercosul, segundo a qual os alimentos não podem ter mais que 20 ppb (partes por bilhão). Além disso, o Ministério da Agricultura editou a Instrução Normativa nº 10, em julho deste ano, que institui o Plano Nacional de Segurança e Qualidade dos Produtos de Origem Vegetal (PNSQV), com o objetivo de controlar os níveis de contaminantes e resíduos químicos e biológicos, além de evitar perdas e agregar valores aos produtos de origem vegetal na cadeia produtiva.

CIBComo a biotecnologia pode ajudar a combater a contaminação por micotoxinas, especialmente as plantas geneticamente modificadas?

Santurio – O milho Bt é um grande exemplo. Essa variedade se caracteriza pela inserção de um gene da bactéria Bacillus thuringiensis (Bt), o que faz a planta produzir uma proteína tóxica para determinados insetos, reduzindo os ataques de em até 90%. Pesquisas feitas no País e no exterior mostram que o milho Bt apresenta baixa contaminação por fungos quando comparado ao milho comum, não-modificado geneticamente.

CIBExistem pesquisas realizadas no Brasil que mostrem benefícios das plantas GMs com relação às micotoxinas?

Santurio – Realizamos um estudo aqui no Lapemi que apontou que o milho Bt apresenta contaminação por fungos 109 vezes menor do que a variedade convencional. Assim, fica claro que, com menos fungos, há menos micotoxinas e, conseqüentemente, menor impacto na produção. Além disso, os alimentos e rações produzidos com millho Bt serão mais saudáveis para o consumo. Esse trabalho será publicado em uma revista internacional até o fim deste ano.