O agrônomo, professor da Unesp e empresário rural, Roberto Rodrigues, é o atual presidente da Associação Brasileira de Agribusiness (Abag). Com uma experiência acumulada em quase 40 anos nesse importante segmento econômico brasileiro, Rodrigues é um defensor dos organismos geneticamente modificados – os OGMs. No seu entender, a planta transgênica é um componente estratégico para o futuro da agricultura brasileira, sem o qual o setor vai perder em competitividade. “A necessidade de produção de alimentos, fibras e biomassa a custos cada vez menores, com produtos mais ricos e nutritivos, é absolutamente imperiosa”, afirma. Em sua entrevista, Rodrigues aborda também temas ligados à agricultura familiar, além de fazer um resumo sobre os trabalhos realizados em junho no Congresso Brasileiro de Agribusiness.

CIBNos dias 12 e 13 de junho foi realizado o Congresso Brasileiro de Agribusiness, cujo objetivo foi estabelecer o Plano Estratégico do Agribusiness Brasileiro até 2010. Em linhas gerais, como foi o congresso? Como a biotecnologia se enquadra nesse contexto?

RODRIGUES – O Congresso foi muito interessante e, de certa forma, inédito, na medida em que propôs metas claras para o agribusiness brasileiro até 2010 e, mais do que isso, sugeriu medidas concretas, seja no que diz respeito ao papel do governo, seja quanto ao parlamento, seja quanto ao setor privado. Estamos agora enviando todos esses dados aos candidatos a postos eletivos nas próximas eleições, tendo em vista um posicionamento dos mesmos no que diz respeito às propostas do setor.
A biotecnologia, especialmente de plantas transgênicas, é um componente estratégico para o futuro da agricultura mundial e brasileira. A necessidade de produção de alimentos, fibras e biomassa a custos cada vez menores, com produtos mais ricos e nutritivos e salvaguardando o meio-ambiente é absolutamente imperiosa. E a biotecnologia tem enorme responsabilidade de contribuir nessas três direções, e, adicionalmente, servir à ciência e à medicina com a produção de plantas que ajudem no combate a doenças humanas e dos animais.
Portanto, é muito importante que o Brasil abra rapidamente a possibilidade de plantar sementes transgênicas. Caso isso não ocorra, ficaremos para trás nesse segmento tecnológico e corremos o risco de perder mercados por questões ligadas a custos de produção e preços finais dos produtos.

CIBTomando como exemplo o caso da soja, basicamente três países respondem pela oferta mundial de grãos desse vegetal: Estados Unidos, Argentina e Brasil. Apenas o Brasil não adotou a tecnologia da soja transgênica. Considerando que soja grão é uma commodity, o produto brasileiro não pode perder competitividade no mercado mundial?

RODRIGUES – Sim, pode. Nesse caso, o mercado precisa sinalizar com clareza o que deseja. Há uma corrente de consumidores, especialmente da Europa, que ainda insiste em não aceitar produtos transgênicos. No entanto, não há sinais claros de que esses consumidores constituam um mercado capaz de pagar um diferencial de preço pelo não transgênico que compense seu maior custo de produção. Se isso não ocorrer, o mercado mesmo definirá a ampliação das culturas de transgênicas no Brasil, ainda que a lei não o permita. Isso é péssimo, porque a ilegalidade não interessa a ninguém, mas não se pode revogar a lei da oferta e da procura.
Nessas condições, é fundamental também que tenhamos uma clara definição do mercado quanto a seus interesses por um ou outro tipo de produto, diferenciando os preços. Sob tal definição os agricultores brasileiros poderão decidir o que plantarão. O que é impossível de sustentar é essa indefinição do governo brasileiro e também dos mercados.

CIBFreqüentemente são divulgadas notícias de que existem lavouras de soja transgênica no Rio Grande do Sul, em extensa área, estimada em 60% do total plantado com soja naquele Estado. As sementes para o cultivo dessas lavouras seriam contrabandeadas da Argentina. Se isso for verídico, essa atitude, mesmo ilegal, não denota a aceitação da tecnologia pelos agricultores, ou mesmo uma tentativa dos mesmos, quase que desesperada de tornar seu produto competitivo no mercado internacional?

RODRIGUES – De novo é uma questão de mercado. Se a soja transgênica cultivada na Argentina tem um custo menor do que o não-transgênico cultivado no Brasil e se os preços pagos por ambos forem os mesmos, é evidente que o agricultor brasileiro perde competitividade vis-a-vis o argentino. E, por conseqüência, vai contrabandear sementes transgênicas para sobreviver na sua atividade.
Pior ainda: pode ocorrer até mesmo de uma determinada indústria brasileira de alimentos importar soja transgênica da Argentina porque ela poderia ser mais barata que a não-transgênica nacional. É claro que essa é uma hipótese pouco provável, dada a isonomia dos preços, mas seria uma possibilidade terrível para o sojicultor brasileiro.

CIBDo ponto de vista estratégico do agribusiness brasileiro, o que significa para os agricultores essa dificuldade na adoção da biotecnologia como ferramenta na agricultura?

RODRIGUES – Se o mercado não sinalizar diferencial de preços, a não adoção da biotecnologia pode significar perda de competitividade. E não podemos ficar parados, esperando isso acontecer. E, é claro, perdemos competência nas instituições geradoras de novas tecnologias: estamos ficando para trás.

CIBConsiderando a cultura do algodão, não seriam as plantas transgênicas, neste momento, a mais importante alternativa para a sustentabilidade do setor? Nos EUA existe o Farm Bill e os cotonicultores usam o algodão transgênico. Como os brasileiros podem competir nessas circunstâncias?

RODRIGUES – Pior ainda: temos que competir exportando impostos e importando subsídios. É mesmo impossível. Não tenho certeza de que o algodão transgênico é a mais importante alternativa para a sustentabilidade do setor. Há outras questões igualmente cruciais, como os juros, os impostos, a logística, o Custo Brasil, enfim. Também pesa bastante a desorganização do setor privado.
Mas, sem dúvida, a biotecnologia no algodão pode ser um fator relevante na redução dos custos e melhoria da qualidade.

CIBArgumentações políticas dão conta que a biotecnologia, ou sua adoção no Brasil, pode comprometer a agricultura familiar ou pequenos agricultores. Por outro lado, o agribusiness brasileiro responde por 25% do PIB do país. Limitar dessa forma a nossa agricultura pode comprometer essa participação no PIB?

RODRIGUES – Não posso entender o argumento de que a biotecnologia comprometa a agricultura familiar ou os pequenos agricultores. Na verdade, esses produtores já estão fortemente afetados pela falta de escala que inibe sua rentabilidade, e, mais que isso, pela falta de uma política de renda mínima para o pequeno produtor, que a ABAG vem propondo há bastante tempo.
Ademais, só no cooperativismo e no associativismo é que o pequeno produtor poderá encontrar os mecanismos de agregação de valor à matéria prima, hoje indispensáveis para a sobrevivência econômica do setor.
Assim, muito mais séria que a questão dos transgênicos, o pequeno produtor precisa de uma política que lhe garanta sustentabilidade na atividade.

CIBComo está a participação da ABAG nas discussões sobre as plantas transgênicas no Brasil?

RODRIGUES – A ABAG está atenta à discussão, questiona permanentemente as informações e os sinais do mercado sobre a matéria e, principalmente, é a favor da rápida liberação dos transgênicos no país, dando aos agricultores a oportunidade de escolherem o que querem plantar.
No entanto, também achamos que falta mais esclarecimento à opinião pública sobre todos estes pontos, e principalmente mostrar às mulheres brasileiras que não há risco nos transgênicos. Não sentimos que este trabalho esteja sendo suficientemente realizado. Há ainda muita desinformação e confusões a respeito do assunto. É com muita confiança no trabalho do CIB que esperamos que esta lacuna seja rapidamente superada.