Um dos objetos de estudo da comunidade científica em relação às plantações de milho GM é o eventual cruzamento com espécies não transgênicas nas lavouras. De acordo com Ernesto Paterniani – especialista em Genética da Esalq/USP e um dos maiores nomes do agronegócio brasileiro –, é possível a coexistência entre essa variedade e as convencionais, adotando-se práticas de isolamento para evitar cruzamentos não desejados. Em 2005, conforme levantamento do Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (ISAAA), as lavouras GMs da commodity chegaram a 21,2 milhões de hectares, cerca de 10% a mais que no ano anterior. A convite do CIB, Paterniani e o pesquisador Leonardo Sologuren, diretor da consultoria em agronegócios Céleres, falam sobre a segurança da cultura e a importância econômica da adoção da variedade para o mercado brasileiro.

CIB – Com a regulamentação da Lei de Biossegurança, o milho transgênico deve ser, em breve, liberado para plantio e para consumo. Há segurança neste cultivo?

Paterniani – Os milhos transgênicos, como os demais produtos geneticamente modificados (GMs), têm sido avaliados com extremo rigor, tanto em relação à segurança ambiental como à saúde humana e animal.
Resistentes a insetos-pragas, o milho Bt, por exemplo, permite reduzir a quantidade de inseticidas empregados nas lavouras, o que, obviamente, é extremamente benéfico ao meio ambiente. Outra vantagem é que o milho Bt atinge apenas os insetos que atacam diretamente a lavoura, enquanto os inseticidas eliminam também os demais, inclusive os úteis, como as abelhas.

Já os milhos resistentes ao herbicida glifosato, utilizados no combate de ervas daninhas, descartam a aplicação de outros, mais nocivos.

No que diz respeito à segurança alimentar, as avaliações são muito mais rigorosas do que as realizadas nos demais produtos comercializados. Assim, além de testes com animais diversos, e em quantidades até exageradas, os milhos são digeridos, em laboratório, com suco gástrico humano. Como a nova proteína do transgênico é degradada no aparelho digestivo, sendo decomposta, a possibilidade de efeito danoso ou mesmo alergênico é similar a qualquer outro alimento.

Vale destacar que nunca se verificou qualquer efeito danoso nesses dez anos de uso do milho GM, confirmando as avaliações experimentais.


CIB – A maior preocupação da comunidade científica, e também dos ambientalistas, em relação às plantações de milho GM é o eventual cruzamento com espécies não transgênicas. É possível a coexistência de lavouras transgênicas e convencionais, em regiões próximas, sem contaminação? Por quê?

Paterniani – Antes de qualquer coisa, acho importante um esclarecimento quanto ao uso da expressão “ambientalistas”, equivocadamente incorporada pelos que se destacam pelo ativismo na defesa do meio ambiente. Todos aqueles que se preocupam com a biodiversidade e sua preservação podem ser considerados ambientalistas, independentemente dos conhecimentos científicos que tenham ou das causas que defendam. Desta forma, também me considero um ambientalista e tenho esse compromisso no exercício da minha profissão.

Sem dúvida, é possível a coexistência de lavouras transgênicas e convencionais. Algo semelhante está ocorrendo em muitos países. Atualmente, em todo o mundo, o milho híbrido é extensamente cultivado, o que não tem impedido a convivência com milhos locais. Isso é possível, adotando-se práticas de isolamento no tempo ou no espaço, para evitar cruzamentos não desejados. Essas práticas são rotineiramente empregadas por pesquisadores e agricultores interessados em preservar suas variedades. No isolamento temporal, intercala-se a época de plantio das lavouras. Nos campos de produção de sementes de milho e nos programas de melhoramento da cultura, tem-se usado, com grande segurança, de 30 a 45 dias entre épocas de plantio.

Os estudos científicos também comprovam a possibilidade desta coexistência por meio de isolamento espacial. A distância necessária para a segregação completa entre plantas GMs e convencionais já foi determinada em diferentes países, respeitando as características locais climáticas de cada um. Em uma dos trabalhos, publicado em 2004, pesquisadores estudaram o fluxo de genes entre o milho Bt e o convencional, durante três anos. A conclusão apontou que a taxa de dispersão depende da distância da fonte de pólen, da direção do vento e da sincronização do florescimento das plantas. A porcentagem de cruzamento indicada pelo estudo foi menor que 1% dentro de uma distância de 28m na direção do vento e de 10m na direção oposta.


CIB – Quais os principais países produtores de milho GM?

Sologuren –
Os maiores produtores de milho GM são Estados Unidos, Argentina e Canadá. Mas já há cultivos na África do Sul, Espanha, França, Portugal, Alemanha, Honduras e República Tcheca.
Os Estados Unidos representam boa parte da área cultivada com milho transgênico no mundo. Em 2004, por exemplo, foram cultivados, em território norte-americano, 8 milhões de hectares de milho Bt e mais 3,8 milhões de hectares de milho tolerante a herbicida. Ou seja, o país respondeu por 61% da área total de lavouras destas variedades no mundo, em 2004. O mais importante, é que os americanos permanecem líderes nas exportações mundiais de milho. A Argentina, por sua vez, elevou o seu market share nas exportações mundiais de 12,5% na safra 2000/01 para 18,1% na safra 2004/05. O que prova a abertura do mercado internacional ao milho transgênico.


CIB – Quais são as principais variedades de milho transgênico disponíveis no mercado internacional? Para quais eventos?

Sologuren –
Os dois principais eventos atuais são o milho Bt, resistente a insetos, e o milho tolerante a herbicida. De acordo com dados do ISAAA, em 2004, cerca de 19,3 milhões de hectares de milho GM foram cultivados no mundo. Deste total, 11,2 milhões ha com milho Bt, 4,3 milhões ha com milho resistente a herbicida e 3,8 milhões ha com milhos que possuíam os dois eventos.


CIB – Há quanto tempo estas variedades estão liberadas? Elas são destinadas ao consumo humano, animal ou ambos?

Sologuren –
O plantio em escala comercial iniciou-se em 1996, ou seja, há dez anos a produção de grãos geneticamente modificados está sendo explorada no mundo. O destino de consumo depende das regras estipuladas em cada país. Alguns deles aprovam, primeiramente, o milho GM para o consumo animal e depois para o humano. Em outros, há espécies destinadas exclusivamente a um e a outro fim. Na África do Sul, por exemplo, o milho amarelo Bt é usado para alimentação animal, enquanto o branco Bt, para a humana.


CIB – Existem variedades de milho GM em avaliação pela CTNBio. Quais são elas? Em quanto tempo elas devem ser cientificamente liberadas para o mercado?

Paterniani –
Ao que se sabe, existem três variedades Bt, resistentes a insetos-pragas, e duas resistentes a herbicidas. Essas variedades já devem contar com pareceres técnicos, cabendo a decisão somente à CTNBio. Não é possível prever quando sairá o parecer final.


CIB – De acordo com o ISAAA, o Brasil é o terceiro maior produtor mundial de transgênicos. Qual o potencial que o agronegócio brasileiro pode ter com a adoção da biotecnologia?

Sologuren –
O Brasil já possui uma competitividade natural no agronegócio. É o maior produtor mundial de café, cana-de-açúcar e laranja. Destaca-se ainda no mercado da soja e do milho. Este desempenho deve-se, em grande parte, às condições climáticas.
Entretanto, se o País quiser continuar na liderança, é crucial que adote o uso da biotecnologia. Caso contrário, os nossos custos serão superiores aos dos concorrentes que já utilizam este recurso. Pior, como a agricultura brasileira não é subsidiada, boa parte dos produtores perderá competitividade, podendo resultar até na exclusão da atividade. Por outro lado, a adoção de ferramentas biotecnológicas reforçará ainda mais nosso potencial, levando-nos a um futuro promissor.


CIB – Quais as principais vantagens econômicas que o milho transgênico pode trazer ao produtor?

Sologuren –
São diversas as vantagens. Do ponto de vista microeconômico, a redução individual do custo de produção. Do macroeconômico, o aumento da competitividade para as exportações.
Uma das razões do fraco desempenho do Brasil na exportação de milho é a baixa produtividade média. Enquanto o País alcançou 2.888 kg/ha, na safra 2004/05, os Estados Unidos chegaram a 10.065 kg/ha e a Argentina, a 7.222 kg/ha.
É verdade que, na safra 2004/05, o Brasil registrou quebra de produção. Entretanto, mesmo considerando a produtividade média dos últimos cinco anos, o País teve um rendimento de 3.177 kg/ha, bem abaixo da média mundial que foi de 4.468 kg/há no mesmo período. Tomando como exemplo o milho Bt, a redução dos gastos com inseticidas aliado ao aumento da produtividade traria grandes vantagens econômicas ao produtor rural, podendo aproximar os preços do milho doméstico aos do mercado internacional.
Atualmente, o Brasil só possui competitividade nas exportações de milho por fatores cambiais.


CIB – Quais as vantagens que o milho transgênico pode oferecer ao consumidor?


Paterniani –
O maior benefício está ligado à qualidade do alimento. Por receberem menor quantidade de inseticidas e possuírem menos micotoxinas, provocadas pelo ataque de fungos, o milho GM pode ser considerado mais saudável. Outro ponto importante é o fato dos GMs passarem por exaustivos testes antes de serem liberados comercialmente. Isto, certamente, oferece maior segurança ao consumidor.