Em entrevista ao CIB, o presidente da CTNBio, Flavio Finardi Filho, afirma que o processo de análise de biossegurança brasileiro é um exemplo para outros países

Em 23 de março deste ano, Flavio Finardi Filho assumiu a presidência da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). Ph.D. em Ciência dos Alimentos, professor e pesquisador do Departamento de Alimentos e Nutrição da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em segurança dos alimentos, Finardi concedeu entrevista ao CIB, na qual falou sobre seus primeiros meses à frente do colegiado, os avanços da biotecnologia no Brasil e o que está por vir em termos de aprovação de transgênicos. Confira a entrevista na íntegra:

CIB – Quais aspectos das gestões anteriores o senhor pretende dar continuidade ou mudar agora que está à frente da CTNBio?

Flavio Finardi – Não há muito o que mudar. As gestões anteriores, tanto a do Walter Colli (2006-2009) quanto a do Edilson Paiva (2010-2011), ajudaram a consolidar o método de trabalho e a credibilidade da CTNBio. Durante esse período, a análise de processos de aprovação de organismos geneticamente modificados (OGMs) ficou mais ágil em virtude da adoção de um sistema que permite avaliar vários pedidos de uma só vez. Outra importante medida que sofisticou ainda mais a análise de biossegurança feita no Brasil foi a aprovação da Resolução Normativa Nº9 (RN9), que permite monitorar os OGMs após a liberação comercial. A ideia é dar continuidade a todo esse trabalho realizado por meus antecessores e aprimorar cada vez mais o seu legado, procurando, também, facilitar a interlocução entre a CTNBio e as instituições de pesquisas. Evidentemente, há espaço para novos projetos. Neste momento, inclusive, estamos desenvolvendo a implantação de um órgão interno que vai fornecer informações sobre biotecnologia. O projeto está sendo estudado e estou confiante de que conseguiremos colocá-lo em prática.

CIB – Qual é o maior desafio para a sua gestão à frente da CTNBio?

Finardi – Acredito que meu maior desafio à frente da CTNBio seja manter tanto a qualidade da discussão que envolve os transgênicos quanto os altos níveis de sofisticação de análise que a CTNBio adquiriu nos últimos anos. De 2007 até hoje temos 50 eventos aprovados e a expectativa é continuar com um bom ritmo de trabalho, o que evita acúmulo de processos, mas sempre mantendo o alto nível de discussão sobre o tema e, consequentemente, das avaliações dos pedidos que chegam à Comissão.

CIB – Na gestão anterior, houve pelo menos duas quebras de paradigmas na comissão. Uma delas foi a aprovação do feijão transgênico, um produto desenvolvido nacionalmente e uma cultura de importância local. A outra, a aprovação de leveduras para produção de biocombustíveis. O que podemos esperar da CTNBio em termos de inovação e aprovação para os próximos 2 anos?

Finardi – Muitos processos já estão em curso. Para citar alguns exemplos, temos várias novas variedades de leveduras, microalgas, cana-de-açúcar e eucalipto. Evidentemente, outros processos também estão por vir. A tendência é justamente que cada vez mais culturas sejam modificadas geneticamente e, portanto, os pedidos também sejam diversificados.

CIB: O senhor considera que a resistência aos transgênicos diminuiu nos últimos anos?

Sim. Acredito que essa redução seja resultado de ações de esclarecimento sobre o que realmente significa o termo “transgênico”, mas ainda há muito a ser feito. Muitas pessoas ainda confundem com gordura trans. Isso revela uma das visões equivocadas sobre o que são os OGMs. A resistência vai continuar a diminuir à medida que mais informações precisas estiverem acessíveis aos consumidores. Uma das maneiras de se fazer isso é por meio da rotulagem. Entretanto, não vejo a atual regulamentação como a mais correta, já que ela pode levar a uma interpretação errônea. Por exemplo, o símbolo que deve ser colocado para identificar um produto transgênico (ou feito a partir de ingredientes transgênicos) se parece com um sinal de alerta. Essa identificação visual pode levar o consumidor a ter receio do produto, quando todos os testes sobre a segurança alimentar foram incansavelmente feitos e analisados pela CTNBio.

CIB – Como o senhor vê a questão dos transgênicos na Europa?

Finardi – A rejeição aos transgênicos tem diminuído também na Europa. Recentemente, grupos de agricultores se manifestaram a favor da adoção de OGMs. A situação está caminhando a passos lentos, porém contínuos, em benefício da ciência. À medida que a população percebe que pode confiar nos produtos transgênicos, a rejeição cai. Neste sentido, o boca a boca pode ser mais eficiente do que a rotulagem equivocada.

CIB – Existe algum modelo de análise de biossegurança que o senhor considere um exemplo?

Finardi – O atual sistema brasileiro é excelente, pois todas as discussões são intermediadas pela CTNBio, que é um órgão que promove debates amplos a respeito de qualquer tipo de aprovação. Nos Estados Unidos, por exemplo, os trâmites para a análise de processos são realizados por órgãos internos do Departamento de Agricultura (USDA, na sigla em inglês). Não considero que essa forma favoreça uma discussão ampla.

CIB – Como um importante pesquisador brasileiro, qual o sentimento pessoal que o senhor tem em relação aos avanços da biotecnologia no Brasil?

Finardi – A biotecnologia cresceu menos que o esperado no Brasil. Não há dúvidas de que houve progresso, mas a expectativa era de que o setor crescesse mais. Os transgênicos ainda não possuem espaço suficiente no mercado de alimentos industrializados. E é esse mercado que define os caminhos pelos quais as pesquisas científicas vão seguir. Por essa razão, os recursos financeiros disponibilizados pelo governo e por outras instituições não atenderam totalmente às expectativas.

CIB – Em uma entrevista, o senhor disse que a biotecnologia é um procedimento que precede a ciência. O que o senhor quis dizer?

Finardi – A ideia da biotecnologia vem de muito tempo atrás. Muito antes de saber o que é esta ciência, o homem sabia fermentar pão e vinho, processo que hoje é feito por meio de leveduras geneticamente modificadas. Seguindo o mesmo raciocínio, no Brasil pré-colombiano, os índios já sabiam fazer aguardente a partir de um fermentado de mandioca, no qual colocavam saliva. Isso já era biotecnologia. A ciência atual, chamada de moderna, apenas permitiu que esses processos fossem feitos a partir de OGMs.

CIB – Em sua opinião, o que é necessário para que o Brasil se torne referência na área de inovação em biotecnologia?

Finardi – Em primeiro lugar, é preciso muito investimento. Um dos principais fatores que impedem o setor de proliferar no Brasil é a falta de recursos necessários para pesquisas. O investimento da Embrapa, uma empresa pública, no desenvolvimento do feijão GM não é comparável ao dinheiro que as grandes empresas injetam em seus projetos. Nos Estados Unidos, por exemplo, acontece a mesma coisa. As universidades e instituições também estão aquém das empresas, justamente porque lhes faltam tantos recursos como os disponíveis no âmbito privado. Acredito que estabelecer a pesquisa como prioridade seja a maneira mais viável para que o Brasil se torne uma referência no setor.