Está provado que os alimentos transgênicos apresentam riscos para a saúde humana?
Partamos da premissa de que não existe risco zero. Seja relacionado ao que for, os riscos são medidas de probabilidades. Como afirmar, então, que os alimentos transgênicos não oferecem riscos? A simples ingestão de qualquer alimento está associada a riscos, ligados a perigos de ordem biológica, química ou física. Livrar-se dos riscos implicaria em não comer, assim como a alternativa para escaparmos dos riscos que a vida nos impõe seria morrer.O alvo de profissionais e pesquisadores que se dedicam à área de alimentos e nutrição é que os riscos sejam conhecidos e mantidos em níveis seguros.

Em que fase estão os testes nos países onde a comercialização dos transgênicos é permitida?
Vários países vêm usando os alimentos transgênicos já há muitos anos. Até agora, não há um caso sequer – adequadamente comprovado e documentado – de que alguém tenha sido afetado negativamente por culpa de qualquer modificação transgênica de alimentos. Estima-se que mais de 80% dos alimentos processados nos Estados Unidos contenham pelo menos um ingrediente proveniente de planta transgênica. Apesar de se dizer que o americano típico sofre de síndrome de medo, é incrível a aceitação da biotecnologia por parte desse povo. Creio que a confiança na ação da FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos) seja um dos fatores que expliquem essa reação positiva aos alimentos transgênicos. Enquanto isso, alarmistas do lado de cá se baseiam em depoimentos emocionais e nos privando daquilo que os americanos já se beneficiam.

Os produtos transgênicos precisam passar por testes mais rigorosos do que os alimentos convencionais?
O fato de que os alimentos convencionais vêm sendo usados rotineiramente na alimentação tem um significado muito interessante: as pessoas foram testando esses alimentos ao longo dos tempos, sem protocolos e sem sistemas de segurança, elegendo alimentos que, pelo menos, não fizessem mal. Digamos que a humanidade tem sido cobaia de seu próprio laboratório. Quanto aos transgênicos, após mais de 20 anos em uso em países desenvolvidos, seu uso vem sendo acompanhado por meticulosas avaliações de segurança para testar seu potencial de causar alergias, intoxicações ou efeitos antinutricionais. O que se faz com relação aos alimentos transgênicos é o correto, são protocolos de segurança. Qualquer alimento deveria ser assim testado, principalmente se for uma novidade a ser proposta para ingestão. Infelizmente, não é o que ocorre. As pessoas se aventuram por uma série de espécies vegetais desconhecidas, tidas como “naturais”, em forma de chás, suplementos ou mesmo para compor a dieta, interpretando que “tudo o que é natural é bom” ou “se não fizer bem, mal não faz”. Ledo engano.

Discute-se muito a questão dos transgênicos, mas pouco a contaminação natural dos alimentos. De que forma essa contaminação acontece?
São dezenas de doenças que afligem as pessoas, cujos agentes são transmitidos pelos alimentos, mesmo os mais comuns em nossa dieta. São bactérias, parasitas, vírus, substâncias tóxicas e metais, os quais causam enfermidades com diferentes graus de severidade, desde breves episódios de diarréia até manifestações letais de natureza neurológica, renal ou hepática. Crianças e idosos são os que mais se ressentem dos efeitos dessas doenças, causa principal de mortes, na infância, em regiões de maior pobreza e ignorância, e perigos expressivos para doentes idosos ou imunodeprimidos, internados em hospitais.

Que riscos a contaminação natural dos alimentos representa para a saúde humana? <
Além de representar um fator de agravo à saúde, os prejuízos de ordem econômica e emocional, decorrentes do consumo de alimentos contaminados, são inestimáveis. Os riscos são inversamente proporcionais aos níveis de conhecimento sobre medidas preventivas. O saneamento básico, incluindo sistema de água tratada e esgoto, é essencial para a redução da circulação dos vírus, por exemplo. Vale lembrar que, no Brasil, aproximadamente 80% da população brasileira não têm rede de esgoto e 70% não desfrutam de água tratada. Programas de educação em higiene precisam ser disseminados, tanto entre consumidores quanto entre manipuladores de alimentos. A população, de forma geral, ignora fatos básicos sobre sobrevivência e crescimento dos microrganismos, cujo controle poderia reduzir drasticamente a incidência das doenças de origem alimentar. Por sua vez, essa redução teria um impacto positivo na nutrição da população, especialmente a de baixa renda, freqüentemente espoliada por síndromes gastroentéricas.

Como você avalia o aumento do número de pesquisas de manipulação genética, visando o melhoramento do valor nutricional dos alimentos?
Talvez com um pouco mais do que a simples esperança. Por conhecer o caráter de muitos dos pesquisadores envolvidos com biotecnologia, por saber de seu compromisso com a verdade da ciência, por enxergar evidências e por conhecer – pelo menos um pouco – o potencial envolvido, vejo no melhoramento biotecnológico uma alternativa viável e disponível para obtenção de novos e melhores alimentos. O povo brasileiro assim o merece.