O mistério por trás de algumas peculiaridades dos grandes felinos pode estar prestes a ser revelado. O sequenciamento do DNA da onça-pintada – análise completa de cada um dos genes que compõem o genoma de uma espécie – foi realizado por uma equipe internacional liderada pelo pesquisador Eduardo Eizirik, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), e mostra quais são os genes responsáveis por algumas das características mais notáveis não só desse animal, mas também de outros felinos.

O mapeamento genético ajuda os cientistas a entender como as espécies evoluíram ao longo do tempo. Ao comparar o DNA da onça com o dos outros quatro integrantes do gênero Panthera (tigres, leões, leopardos e leopardos-das-neves), o estudo foi capaz de identificar, por exemplo, genes responsáveis pela capacidade que o leopardo-das-neves tem de viver em grandes alturas; pelo fato de o tigre apresentar listras em sua pelagem; e pela força da mordida da onça – a mais forte de todo o gênero.

A pesquisa indica, ainda, que houve um emaranhado de cruzamentos entre as cinco espécies digno dos mais surpreendentes roteiros de ficção. Os ancestrais dos leões cruzaram com os dos leopardos-das-neves, os dos tigres com os dos leões e os destes com os das onças. E tudo isso em um curto espaço de tempo para os padrões evolutivos, já que o ancestral comum de todos os grandes felinos viveu há “apenas” 4,5 milhões de anos e que os últimos a se separarem – leões e leopardos – fizeram isso há cerca de 2,5 milhões de anos. Com o sequenciamento do DNA da onça, publicado na revista “Sciences Advances”, será possível ter mais pistas sobre como foi possível o surgimento de espécies tão diferentes.

Entre os 19 mil genes da onça-pintada, os cientistas apontam dois (DOCK3 e COL4A5) como os prováveis responsáveis por uma característica marcante: o desenvolvimento do nervo óptico, importante para a adaptação da espécie. É por meio desse nervo que o cérebro capta cores, formas e tamanhos e possibilita que o animal enxergue. Com um habitat que tradicionalmente vai do sul dos Estados Unidos até o norte da Argentina, a onça está extinta em várias dessas regiões. No Brasil, ainda vive em partes da Amazônia e do Pantanal, mas já corre o risco de desaparecer da Mata Atlântica.

 

Fonte: Sciences Advances e PUC-RS, julho de 2017