O engenheiro agrônomo, MSc. e PhD. em genética celular e molecular, Elíbio Rech, da Empresa de Pesquisa Agropecuária – Embrapa – conversou com o CIB sobre os trabalhos com OGMs que estão sendo desenvolvidos no Brasil e em outros países. Segundo Rech, na prática, os trabalhos científicos com OGMs podem se transformar em produtos disponíveis no mercado. “E é isso que a população precisa ter em mente: que existe uma comunidade científica muito preocupada com o dia-a-dia das pessoas”, afirma. Para o pesquisador, a participação das empresas privadas nos investimentos em pesquisas é fundamental. “A Embrapa, por exemplo, só consegue desenvolver alguns trabalhos por meio de parcerias com grupos privados proprietários de alguns genes”, diz. Além disso, o pesquisador rebate as críticas que se fazem aos transgênicos, além de elogiar a comunidade científica nacional e criticar a morosidade do atual cenário regulatório de produtos no Brasil.

CIB O senhor é reconhecido como um profissional de destaque no segmento de transformação de plantas. Seria possível fazer um breve resumo do desenvolvimento das suas atividades nesse segmento?

RECH – Há muitos anos tenho desenvolvido trabalhos com Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) ligados a plantas, animais e microorganismos. No caso das plantas, considero que se trata de um desafio não apenas nosso – da Embrapa – mas sim de toda a comunidade científica que busca o efetivo desenvolvimento e aplicação da tecnologia de engenharia genética. A pesquisa com DNA recombinante, agregada ao setor produtivo, é algo de grande relevância social e econômica. Na prática, os trabalhos científicos com OGMs podem efetivamente se transformar em produtos disponíveis no mercado. É isso que a população em geral precisa ter em mente. Ou seja: que existe uma comunidade científica muito preocupada com o dia-a-dia das pessoas e que as pesquisas desenvolvidas nos laboratórios muitas vezes resultam em novos itens nas prateleiras.

CIBAliás, esse é um enfoque dado pelo professor emérito da USP, Isaías Raw, que atualmente preside a Fundação do Instituto Butantã em São Paulo. Segundo ele, só existe Biotecnologia quando a pesquisa se transformou em produção. Do contrário, só há pesquisa e não tecnologia.

RECH – É exatamente isso que eu acho. Se o Butantã apenas desenvolvesse pesquisas sobre vacinas seria algo importante, mas a população em geral não poderia mensurar a importância desses trabalhos. Desde o momento em que eles estão fabricando vacinas, é possível medir de forma prática o benefício de tantos anos de pesquisa. Na década de 80, a comunidade científica começou a se preocupar com as técnicas de clonagem e expressão, e hoje já está na hora de mostrarmos serviço.

CIBAlguns críticos dizem que a tecnologia de plantas transgênicas é monopólio de empresas multinacionais do setor agrícola. Por outro lado sabemos que a Embrapa, empresa nacional de destaque mundial, desenvolve atividades nesse sentido e lida com patentes de biotecnologia. Como o senhor avalia essas críticas?

RECH – Não está correto dizer que há monopólio, pois existem nesse mercado empresas multinacionais, Universidades, Institutos de Pesquisas e a própria Embrapa. Por outro lado, se pegarmos um exemplo simples, ou seja, uma pesquisa com genes tolerantes a herbicidas, o custo do início até o produto final no mercado não será inferior a R$ 5 milhões, levando-se em conta o desenvolvimento, o melhoramento – ambiental e alimentar – e o tempo de maturação de aproximadamente 7 anos. A Embrapa consegue fazer pesquisas porque trabalha também, com genes de propriedade de empresas. Portanto, o mundo empresarial é fundamental e tem contribuído significativamente para o desenvolvimento dessa área da ciência.

CIBMas essas empresas trazem para o Brasil suas tecnologias?

RECH – Sim. Além disso, nós temos no Brasil profissionais de engenharia genética altamente preparados em termos tecnológicos. O conhecimento sobre o assunto existe por aqui e é de Primeiro Mundo. O que falta são as oportunidades de aplicar melhor o que sabemos.

CIBAs questões principais relacionadas com a segurança dos OGM´s utilizados na agricultura dizem respeito aos possíveis efeitos sobre o meio ambiente e sobre a saúde dos consumidores. Pesquisas nesse sentido existem há mais de 15 anos e estima-se que haja, atualmente, cerca de 53 milhões de hectares plantados com transgênicos no mundo. Como o senhor avalia, em linhas gerais, os resultados dessas pesquisas e esses anos de experiência com essa nova tecnologia?

RECH – Realmente existem pesquisas sobre OGMs há mais de 15 anos e desde o início da década de 90 há produtos no mercado internacional sendo comercializados. Ao longo desses anos não foi detectado nenhum efeito colateral na saúde de quem consome esses alimentos, nem mesmo para o meio ambiente. Os cientistas trabalham com evidências e não com hipóteses. Se tivermos alguma evidência negativa certamente trabalharemos com ela. Outra questão que muitas pessoas não avaliam corretamente é a de que toda agricultura, tradicional ou transgênica, é agressiva para o meio ambiente. No caso das transgênicas, também não existe nenhuma evidência de que acabem se tornando daninhas para demais culturas vizinhas, uma vez que o DNA recombinante é trabalhado para uma determinada finalidade, a exemplo do combate de pragas específicas.

CIBExistem no Brasil cinco pedidos para comercialização de plantas transgênicas em avaliação pela CTNBio. Um de soja tolerante a herbicidas, dois de milho resistente a insetos e dois de milho tolerante a herbicida. Qual a sua opinião sobre as informações de segurança alimentar desses produtos, disponibilizadas pelas empresas requerentes?

RECH – Estudos detalhados tem demonstrado que nesses casos também não há nenhuma evidência de problemas, tanto no que diz respeito à segurança alimentar como no tocante à segurança ao meio ambiente. Eu insisto na tese de que esses produtos não são daninhos em relação a outras culturas. No que diz respeito à questão alimentar, há evidências que mostram que as proteínas expressas nos produtos transgênicos são rapidametne degradadas no sistema gástrico. Além disso, esses produtos não possuem propriedades alergênicas.

CIBComo estão as pesquisas que a Embrapa desenvolve com plantas transgênicas e como a empresa analisa o potencial dessa tecnologia para a agricultura brasileira?

RECH – A Embrapa trabalha em duas frentes: uma delas em parceria com algumas empresas e numa outra ponta sem a participação de terceiros. Assim, estamos trabalhando o licenciamento do feijão resistente à praga chamada “mosaico dourado”, além de produtos como o mamão resistente ao vírus denominado “mancha anelar”, entre outros produtos. São projetos muito importantes para a economia, uma vez que resolvem problemas importantes dessas duas culturas. Existe também um enfoque social nesses trabalhos, principalmente quando analisamos desempenho de culturas como a do feijão, que faz parte do cardápio diário do brasileiro.

CIBO cenário regulatório atualmente impede, principalmente com plantas resistentes a insetos, que a pesquisa avance no país. Quais são as conseqüências dessa paralisação tanto para a pesquisa quanto para a economia do Brasil?

RECH – Realmente, as novas propostas que tem sido implementadas pelo setor regulatório, tem praticamente impedido o desenvolvimento de algumas pesquisas, o que é altamente negativo. A morosidade nesse sistema atrapalha e muito a expansão da nossa ciência e das nossas ferramentas tecnológicas, o que terá influencia direta no desempenho da economia no país.

CIBQuais são as perspectivas, em linhas gerais, de utilização da segunda geração de plantas transgênicas, para melhoria da qualidade nutricional dos alimentos e produção de nutracêuticos?

RECH – Estão sendo desenvolvidos estudos com as segundas e terceiras gerações de transgênicos. Esses trabalhos podem ajudar entre outras coisas na redução dos preços de alguns produtos. Uma ampola do hormônio de crescimento humano custa hoje R$ 200,00, o que inviabiliza o produto para camadas mais humildes da população. Com essas novas gerações de OGMs, podemos conseguir um sensível barateamento de itens como esse. Trata-se de um trabalho fundamental. Fora isso, as experiências com nutracêuticos são bastante animadoras. Na Suíça, por exemplo, foi desenvolvido o arroz com betacaroteno (pró-vitamina A), ideal para pessoas com carência dessa substância no corpo, que em alguns casos pode levar até à cegueira. Há também os alimentos com adição ou redução de vitaminas e proteínas. “Ou seja, com a ingestão dos nutracêuticos uma pessoa poderá reduzir o uso constante de remédios”, afirma.