O ácido fólico ou folato é uma proteína essencial para o organismo humano. Substância que realiza a manutenção do sistema nervoso e o desenvolvimento fetal durante a gestação, o folato pode ser encontrado em alguns alimentos, a exemplo de vegetais de folhas verde-escuras, carne de vaca e porco, laranja e leite. Em razão de sua importância na nutrição, a Embrapa iniciou um projeto de pesquisa para desenvolver alface com alto teor desse nutriente por meio da biotecnologia.

O Conselho de Informações sobre Biotecnologia conversou com o pesquisador Francisco Aragão, pesquisador da Embrapa e responsável pelo estudo. Ele falou sobre o processo de melhoramento da hortaliça e sua importância para a alimentação do brasileiro, em especial.

CIB – Como ocorre o melhoramento genético para aumento do teor de ácido fólico na alface? Qual a razão da escolha do vegetal para esse fim?

Francisco Aragão – Trabalhamos com a inserção de dois genes nessa alface: um responsável pela enzima GTP-ciclohidrolase (que foi sintetizado em laboratório) e outro, isolado do tomate. Ambos têm como objetivo aumentar os precursores do folato na alface.

O ácido fólico pode ser encontrado em vegetais de folhas verde-escuras, como o espinafre. Escolhemos a alface por ser uma das hortaliças que os brasileiros mais ingerem, além do fato de que é consumida in natura, ou seja, não passa pelo processo de cozimento. Isso é importante porque, ao cozer ou assar o alimento, ocorre a diminuição de vitaminas presentes nele. Para se ter uma ideia, há no Brasil uma lei que determina o enriquecimento da farinha de trigo com ácido fólico. Porém, no processamento pelo qual a farinha é submetida para a produção de alimentos, há uma perda de até 50% do folato.

CIB – Do ponto de vista nutricional, como o ácido fólico atua no organismo humano? Quais os problemas que a deficiência desse nutriente pode causar à saúde?

Aragão – O ácido fólico é essencial em pontos-chave do organismo humano. Ele é fundamental na síntese de aminoácidos. Ou seja, sem ácido fólico, a produção de ácidos nucleicos fica comprometida, sendo estes os responsáveis pelo armazenamento e a transmissão das informações genéticas.

A carência de folato está relacionada a algumas doenças do sistema nervoso central e, por exemplo, pode provocar a má formação do tubo neural do feto humano durante a gestação. Caso a mãe tenha carência do ácido fólico nos primeiros 15 dias de gestação, a má formação do tubo é irreversível, devido o seu fechamento. Por isso, é importante que haja um consumo regular de ácido fólico pelas futuras gestantes.

Também há indícios de que a carência do ácido fólico esteja relacionada a esquizofrenia e até casos de depressão.

CIB – Em que estágio estão as pesquisas? Existe alguma previsão de quando a variedade pode ser submetida para a avaliação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio)?

Aragão – Estamos produzindo uma linhagem de alfaces que tende a produzir quinze vezes mais ácido fólico, chegando à concentração presente no espinafre que é de 300 a 400 microgramas por grama de tecido fresco, ou seja, 15 vezes mais que a concentração da alface convencional, que é de 75 microgramas.

Ainda não temos uma previsão para a avaliação da CTNBio. No momento, estamos fazendo alguns ensaios com macacos e os resultados estão sendo satisfatórios. Constatamos que a porcentagem de ácido fólico presente no sangue dos animais dobrou ao realizarem a dieta com a alface GM.

CIB – Em que outros projetos a Embrapa está trabalhando para desenvolver alimentos biofortificados por meio da biotecnologia?

Aragão – Não temos projeto semelhante ao da alface GM, porém a Embrapa possui um programa de melhoramento nutricional chamado Biofort. O programa tem o objetivo de combater a desnutrição por meio do aumento dos teores de zinco, vitamina A e ferro em tubérculos e grãos. A biofortificação ocorre pelo cruzamento de plantas de igual espécie, gerando posteriormente cultivos mais nutritivos.