CIB – Já se sabe qual o percentual de recuperação dos pacientes que se submetem a terapias à base de células-tronco?
Gowdak – Há dados preliminares sobre uma nova forma de tratamento, ainda experimental, que é a terapia celular. Os dados disponíveis em áreas de pesquisa como a cardiologia são bastante promissores e justificam a formação de pesquisadores capacitados, trabalhando em centros de excelência, sob o rigor da ética médica, para que o real benefício da terapia com células-tronco seja determinado com exatidão.

CIB – Terapias que utilizam as células-tronco representam algum risco para os pacientes?
Gowdak – Talvez o maior risco seja o da frustração em caso de insucesso após a terapia celular. Quando um paciente é incluído em um estudo clínico experimental de terapia com células-tronco é porque os tratamentos convencionais falharam e não há muita expectativa de recuperação ou mesmo de sobrevida prolongada. Assim, o paciente vê, nas células-tronco, sua "última esperança" de ficar bom. A ansiedade por resultados "miraculosos" cresce e, na eventualidade de fracasso, isso pode ser devastador. Quantos aos riscos da terapia celular em si, os estudos, até o momento, não mostraram complicações importantes. No entanto, não dispomos ainda de seguimento de longo prazo para dizer com exatidão o que acontecerá em 5, 10 ou 20 anos após o tratamento.

CIB – Que pesquisas o Incor realiza nesta área?
Gowdak – O Instituto tem dois grupos de pesquisadores trabalhando com técnicas diferentes de células-tronco para problemas distintos. Um grupo, liderado pelo professor Edimar Bocchi, estuda a utilização de células-tronco no tratamento de pacientes com insuficiência cardíaca, encaminhados para avaliação de transplante cardíaco. Outro grupo, do qual sou o coordenador clínico, é liderado pelo professor Sérgio Almeida de Oliveira e estuda a utilização de células-tronco derivadas da medula óssea do próprio paciente para o tratamento da insuficiência coronariana grave, na qual existe impossibilidade de tratamento convencional completo, seja por cateter (angioplastia) ou por cirurgia (ponte de safena).
Já tratamos dez pacientes pela técnica combinada de cirurgia de ponte de safena mais injeção de células-tronco e o acompanhamento de um ano desses pacientes terminará em julho próximo. Em função dos resultados obtidos quanto à segurança do projeto, recebemos autorização dos órgãos competentes e já iniciamos uma nova fase do estudo, na qual incluiremos cerca de 60 pacientes para determinarmos com exatidão a eficácia desta forma de terapia.

CIB – Quais são as perspectivas no que se refere à evolução das pesquisas com células-tronco?
Gowdak – Particularmente no Brasil, há que se dispor de recursos para o financiamento dos projetos. A terapia prevê a integração da pesquisa básica com a pesquisa clínica, daí a necessidade de profissionais capacitados em ambas as frentes, trabalhando em laboratórios bem equipados para garantir o controle de qualidade do material celular; o acesso à população de pacientes que potencialmente se beneficiará deste estudo e meios diagnósticos para avaliação e seguimento após o procedimento. Além disso, o rigor ético deve acompanhar o rigor científico, evitando-se conflitos de interesse e a auto-promoção. E, finalmente, por mais excitante que seja esta nova modalidade terapêutica e o seu potencial enorme no tratamento de doenças graves e de prognóstico sóbrio, há que se manter a prudência na divulgação de seus resultados.

CIB – Por que se começou a estudar céluas-tronco com tanto afinco?
Perin – As células-tronco são a origem da matéria viva. Se retomarmos os princípios de Leydig, Virchow e Pasteur, a vida nada mais é do que um contínuo, sem um inicio e sem um fim definido. A primeira célula-tronco, o óvulo fertilizado, caracteriza-se por ser totipotencial, tendo a capacidade de diferenciar-se em qualquer tipo de célula especializada embriônica ou adulta. Durante o desenvolvimento do embrião, células-tronco progenitoras são formadas e persistem ao longo do tempo, permitindo que o ciclo de vida continue através da regeneração dos tecidos. No século 19, a hipótese de que estas células progenitoras estivessem relacionadas ao desenvolvimento de neoplasias reforçou o interesse da comunidade científica no sentido de compreender o mecanismo pelo qual uma única célula origina um ser humano e mantém-se ativa ao longo de toda uma existência, reproduzindo-se de forma ordenada ou não. A possibilidade de aproveitar este potencial regenerativo em prol da reconstitutição de tecidos lesados vem mobilizando nossos esforços.

CIB – Como você observa as questões éticas do tema?
Perin – O entendimento das células-tronco é, na atualidade, uma das áreas de estudo mais fascinantes dentro das ciências da saúde tendo, inclusive, ultrapassado seus limites ao levantar questionamentos éticos e religiosos. A capacidade de regenerar e, conseqüentemente, de gerar vida é – e provavelmente por muito tempo ainda será – alvo de criticas e controvérsias éticas e religiosas. Na verdade, se olharmos para história da humanidade e, mais especificamente para história da Medicina, as "novas verdades" sempre estiveram associadas em maior ou menor grau ao júri popular e a moral vigente.

CIB – O que tem sido feito aí no Texas Heart Institute?
Perin – Nos últimos cinco anos, estamos nos dedicando a desenvolver terapias que permitam regenerar o tecido miocárdico. Mais especificamente, trabalhamos com a idéia de que poderíamos melhorar a capacidade funcional de nossos pacientes com cardiopatia isquêmica severa regenerando tecidos (vasos e músculo) através da injeção transendocárdica de células-tronco oriundas da medula óssea. A pesquisa é co-coordenada com o brasileiro Guilherme Silva e os médicos Rodrigo Branco (ProCardiaco/RJ), Edie Mello de Oliveira (Instituto do Coração da Serra Gaúcha/RS) e Franca Stedile Angeli (PUC/RS).

CIB – E os objetivos estão sendo alcançados?
Perin – Nossos resultados iniciais foram extremamente animadores e estamos ampliando agora nosso espectro de pacientes tratados, após a liberação do Food and Drug Administration (FDA). Atualmente, trabalhamos com pacientes isquêmicos crônicos com baixa capacidade funcional. Existem outros protocolos em andamento, voltados ao tratamento de pacientes isquêmicos agudos (pós- infarto agudo do miocárdio).
Paralelamente, estamos desenvolvendo novos protocolos experimentais no sentido de qualificar nossos procedimentos e ampliar o espectro dos pacientes que possivelmente possam ser beneficiados. Os estudos previamente realizados, envolvendo especificamente pacientes com cardiopatia isquêmica dilatada, demonstraram a segurança e efetividade da injeção transendocárdica. Contudo, a aceitação deste resultado para outro grupo de pacientes requererá novos estudos de segurança que confirmem tais achados.

Saiba mais:
www.texasheart.org
www.nih.gov/news/stemcell/index.htm
www.incor.usp.br