Em entrevista ao CIB, o engenheiro de alimentos da Embrapa Agroindústria de Alimentos, Edson Watanabe, fala da questão da segurança alimentar dos alimentos GMs e das avaliações do potencial alergênico e toxicológico de tais produtos. Watanabe, que é membro do comitê gestor da Rede de Biossegurança de OGMs da Embrapa, afirma que o receio dos consumidores em relação aos transgênicos deve-se principalmente à crença de que não há estudo científico suficiente sobre os alimentos geneticamente modificados. “As avaliações de segurança dos OGMs já vêm sendo feitas no mundo todo há mais de dez anos e, até hoje, não houve nenhum indício científico de que os produtos existentes possam causar algum dano à saúde humana ou animal”, contesta. Para ele, é preciso que as pessoas saibam que a biotecnologia já é utilizada, e com vantagens, para a produção de alimentos com maior conteúdo de vitaminas, vacinas, plantas resistentes a doenças, a solos salinos, à seca, e que o potencial dessa ciência é infinito.

CIBQual o trabalho que o senhor desenvolve na Embrapa Agroindústria de Alimentos?

Edson Watanabe – Entre outras atribuições, nosso trabalho está relacionado à avaliação de segurança alimentar e ambiental de alguns organismos geneticamente modificados. Cada produto estudado – entre eles, batata, feijão e mamão resistentes a vírus, soja resistente a herbicida e algodão resistente a insetos –constitui um projeto componente da rede. A Embrapa Agroindústria de Alimentos atua particularmente que diz respeito à área de segurança alimentar, à qual estou diretamente ligado. Estudamos a composição dos alimentos, convencionais e geneticamente modificados (GM), no que diz respeito a macro e micronutrientes (proteínas, carboidratos, lipídios e minerais, entre outros). Outra avaliação é a dos componentes-chave e dos fatores antinutriconais desses alimentos, cujo princípio é demonstrar que tanto os alimentos convencionais como o seu correspondente GM têm a mesma quantidade de tais substâncias.Também realizamos, em parceria com universidades e outros centros da Embrapa, estudo de potencial alergênico e tóxico dos OGMs por meio da análise e comparação da seqüência de aminoácidos com as seqüências já conhecidas de alergênicos e toxinas, disponíveis em bancos de dados mundiais.

CIBPor que atualmente se discute tanto a questão da segurança alimentar, principalmente no que diz respeito aos transgênicos?

Watanabe – O medo dos consumidores em relação aos transgênicos vem do fato de que acredita-se que esses produtos não foram testados por tempo suficiente. Nunca se estudou tanto uma categoria de alimentos. Espera-se dos transgênicos uma garantia que nunca se exigiu dos alimentos convencionais. As avaliações de segurança dos OGMs já vêm sendo feitas no mundo todo, por empresas e instituições, há mais de dez anos e, até hoje, não houve nenhum indício científico de que os produtos existentes possam causar algum dano à saúde humana ou animal. Por outro lado, há casos de alimentos convencionais provocando alergias e até doenças. Um exemplo é o milho que, na África, em razão da alta infestação por insetos, acaba sendo contaminado por fungos que desenvolvem as chamadas micotoxinas, responsáveis pelo desenvolvimento de câncer no esôfago e no fígado dos homens. Sem contar os alimentos que são alergênicos para determinados grupos da população, a exemplo do amendoim, da soja castanha do Pará, do kiwi, e outros tantos.

CIBAs avaliações de segurança dos OGMs são as mesmas dos produtos convencionais?

Watanabe – Para alimentos convencionais, temos diferentes níveis de exigências. Para um pão, por exemplo, temos um padrão de identidade e qualidade (PIQ), que fornece informações como a descrição do produto, os aditivos permitidos, os níveis permitidos de contaminantes, pesos e medidas do produto, além de que deve constar do rótulo. Os PIQs são estabelecidos pelo Codex Alimentarius (órgão da Organização Mundial da Saúde e da Organização para Alimentação e Agricultura das Nações Unidas), mas são de adesão voluntária. No caso de um produto novo, quando não existir um PIQ, o processo de sua produção deverá ser submetido ao órgão competente. Por exemplo, no caso de um novo alimento processado, deve-se buscar orientações junto à ANVISA. Para o registro de novas cultivares desenvolvidas por melhoramento convencional, temos que realizar alguns estudos de campo, que incluem a estabilidade da nova característica, o que não está relacionado à segurança. Já para aditivos alimentares, temos o procedimento estabelecido pelo JECFA (Comitê Conjunto de Peritos em Aditivos Alimentares, também da Organização Mundial da Saúde e da Organização para Alimentação e Agricultura das Nações Unidas), que é um estudo mais complexo e inclui aspectos bioquímicos e estudos toxicológicos. Em nenhum desses casos, é realizada a extensa lista de testes e estudos que é exigida para transgênicos: estudos moleculares e agronômicos, composição, efeito do processamento, nutrição animal, estudos com a proteína expressa, toxicidade e potencial alergênico.

CIBAs avaliações de segurança alimentar dos OGMs seguem algum padrão aceito internacionalmente?

Watanabe – O Codex Alimentarius através de seus diferentes comitês, tem criado normas para harmonizar as questões que envolvem OGMs no mundo. Essa iniciativa é bastante importante pois permite um padrão na avaliação e também nos dados resultantes desses trabalhos, tornando-se possível gerar dados comparáveis dos produtos cultivados em diferentes locais, desenvolvidos por diferentes laboratórios em qualquer lugar do mundo.

CIBA rotulagem, na sua opinião, pode ser associada à garantia de segurança do produto GM?

Watanabe – Não. A rotulagem baseia-se no princípio básico do direito do consumidor à informação. O conceito de rotulagem precisa ser separado da questão de segurança, pois se o produto não for seguro, não poderá ser comercializado; conseqüentemente, não será rotulado. Há um outro ponto que considero importante que é o fato de que os transgênicos não se resumem à soja. A biotecnologia já é utilizada para a produção de alimentos com maior conteúdo de vitaminas, outros que podem ser utilizados como vacinas, variedades de plantas resistentes a doenças, a solos salinos, à seca, entre outros produtos. A legislação brasileira ainda está por ser definida e é preciso que ela contemple todas essas possibilidades reais. A biotecnologia tem um potencial infinito.