Para o engenheiro agrônomo Ywao Miyamoto, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja – Aprosoja –, a produção agrícola está intrinsecamente ligada aos avanços da ciência, que mais do que nunca se traduzem em Biotecnologia. “Aqueles contrários à sua aplicação no campo, estão se opondo ao conceito universal da ciência, que é o do uso de novas descobertas para a melhoria da vida no planeta”, afirma. No seu entender, o Brasil está correndo um grande risco de perder esse mercado emergente, pela morosidade de uma definição oficial. “Os chineses, por exemplo, querem que as regras sejam claras, independentemente se temos ou não transgênico, pois eles possuem mercado para soja convencional e GM. Portanto, é fundamental descermos do muro e o Judiciário precisa definir, em caráter de urgência, sua posição sobre os organismos geneticamente modificados, uma vez que as áreas técnica, cientifica e agrícola já se posicionaram favoravelmente à Biotecnologia”, ressalta. Sobre o novo governo que assume em janeiro, Miyamoto diz que o setor produtivo do agronegócio brasilero vai apoiá-lo como sempre fez no passado. Segundo ele, todos os segmentos produtivos do agronegócio brasileiro, congregados em uma entidade maior denominada Rural Brasil, estiveram reunidos dia 11 de novembro passado, em Brasília, e elaboraram um documento único que será entregue, em breve, ao presidente eleito. Leia abaixo a íntegra da entrevista:

CIB Qual o balanço que o senhor faz do mercado da soja, neste ano, no Brasil e no mundo?

MIYAMOTO – O mercado da soja em 2002, no Brasil, deve ser analisado em conjunto com o cenário mundial. Os Estados Unidos, nos últimos cinco anos, plantaram em média 30 milhões de hectares de soja e produziram 76 milhões de toneladas do produto ao ano. Devido ao efeito “Farm Bill”, os americanos vão diminuir a área destinada a esse plantio, com conseqüente queda na produção para 71,5 milhões de toneladas na próxima safra. Para eles, será vantajoso plantar outras culturas como trigo, milho, algodão, entre outras, – que recebem subsídios de 45% – a plantar a soja, cujo subsídio será de 11%. Já o Brasil, nesse mesmo período – 1998 a 2002 – apresentou um crescimento na produção da soja de 34 milhões de toneladas para 48 milhões de toneladas, enquanto a Argentina cresceu, nesse espaço de tempo, de 21 milhões de toneladas para 30 milhões de toneladas do produto. Também nesses cinco anos a produção mundial de soja passou de 160 milhões de toneladas para 184 milhões de toneladas, enquanto o consumo mundial apresentou crescimento superior: de 160 milhões de toneladas para 192 milhões de toneladas. Ou seja, houve um déficit de oito milhões de toneladas, o que contribuiu ainda mais para a diminuição do estoque final mundial do produto, que caiu de 30 para 20 milhões de toneladas. Com tanto consumo, fica claro que o momento para o produtor em alguns países é bastante interessante, pelo menos por mais dois ou três anos. Creio que esse período deverá ser o tempo necessário para equilibrar o estoque mundial, o que é excelente para nações como o Brasil, que deve aumentar sua área de plantio, com conseqüente melhoria na sua produtividade.

CIBOs subsídios americanos têm atrapalhado muito mercados como o brasileiro?

MIYAMOTO – O subsídio americano é, sem dúvida, uma concorrência desleal, mas devido ao atual cenário mundial – que necessita de mais produtividade – creio que o mercado brasileiro não será afetado nos próximos três anos. O efeito dos subsídios americanos deverão ser sentidos por nós após o equilíbrio do estoque mundial, que deverá ocorrer em três ou quatro anos.

CIBAs pesquisas no Brasil, especialmente com Engenharia Genética, estão atrasadas? Para o setor da soja, o que isso tem significado?

MIYAMOTO – As pesquisas no Brasil, no campo de Engenharia Genética, não estão atrasadas. No campo da Biotecnologia pode até estar ocorrendo alguma lentidão, no que diz respeito a pesquisas e testes em razão de impedimentos técnicos, burocráticos e judiciários. Mas é preciso ressaltar que no que diz respeito às modificações genéticas da soja, o Brasil não está atrasado, principalmente se considerarmos o produto transgênico, Roundap Red. Esse produto é largamente plantado nos Estados Unidos e na Argentina. No Brasil, já foi aceito e liberado pela CTNBio, mas ainda encontra-se proibido em razão de impedimento judicial. Entretanto, em fevereiro passado, após estudar e analisar os processos durante três anos, a juíza relatora proferiu voto favorável para liberação do plantio desse gênero de soja transgênica. Entretanto, desde então os produtores aguardam o voto do desembargador Antônio Ezequiel, que solicitou vista do processo. Para nós agricultores, oito meses de espera é um período muito longo, considerando que o último prazo para o plantio de soja deste ano está se aproximando. Assim mesmo, é sabido que em nome de melhor produtividade e para fugir das dívidas no campo, milhares de agricultores brasileiros de diversos Estados, do Maranhão ao Rio Grande do Sul estão plantando grãos de soja transgênica, sem garantia de germinação, sanidade e pureza. Estas áreas ilegais tendem a aumentar em proporção geométrica nos próximos anos. O plantio ilegal de soja transgênica no Brasil é um fato irreversível. Não existe meio de impedir essa lavoura. Estima-se que varie de 20% a 80 % a área plantada com material transgênico, dependendo do estado. Mas, como não são sementes certificadas, não existe garantia de qualidade, germinação, pureza genética, o que pode acabar disseminando a contaminação de pragas e doenças. Portanto, precisamos com urgência de autorização legal para o plantio de transgênicos brasileiros, testados e recomendados para região. Caso contrário, os agricultores, na busca pela sobrevivência, continuarão cometendo ilegalidades, por falta de melhor opção.

CIBNo seu entender, como o país deveria encarar a Biotecnologia e especificamente os transgênicos?

MIYAMOTO – Trata-se de uma ciência avançada, que trará grandes benefícios a todos. Quem é contrário à Biotecnologia ou aos transgênicos é contra a própria ciência. Além disso, creio que as pessoas continuam fazendo uma grande confusão entre Biotecnologia – que é a ciência – e a transgenia, que é um sistema técnico e o seu produto: o transgênico. O Brasil precisa adotar, urgentemente, os benefícios da Biotecnologia e investir bastante nela para não ficar atrás de outros países na corrida pela ciência. É importante salientar que os produtos transgênicos serão analisados um a um por profissionais especializados, no caso, da CTNBio .

CIBComo fica o setor de produção de sementes no Brasil face ao plantio da soja transgênica contrabandeada?

MIYAMOTO – O setor de produção de sementes do Brasil é um dos melhores do mundo e hoje desempenha um papel de fundamental importância como elo entre a pesquisa e os agricultores. Trata-se do setor que tem realizado o papel de difusão de todas as novas tecnologias agrícolas necessárias. Sem aumentar significativamente, desde 1991, sua área de plantio – de 37 milhões de hectares -, o Brasil passou de 56 milhões de toneladas de grãos para os atuais 100 milhões de toneladas. Além disso, acaba de ser aprovada a nova lei de sementes, que tem a finalidade de melhorar o Sistema Nacional de Sementes, o que inclui pesquisa, produção, normatização e fiscalização. Ou seja, a idéia é levar uma semente cada vez melhor para os agricultores, que deveriam consumir apenas sementes certificadas, garantindo a qualidade de produção nacional de grãos e a não proliferação de pragas e doenças. Essa conquista da estrutura nacional de produção de sementes, que foi consolidada ao longo de três décadas, e que envolveu vários setores da economia nacional, está prestes a ruir em decorrência da morosidade para a autorização do uso de transgênicos em território nacional. O plantio informal de transgênico no Brasil já é uma realidade e não há nenhum meio de fiscalização para impedi-lo. Caso o transgênico não for autorizado em tempo, a sociedade e a agricultura brasileira perderá apoio do setor organizado dos produtores de sementes, pois em poucos anos o setor de sementes organizado desaparecerá. .

CIBA soja transgênica deve trazer vantagens ao produtor, caso contrário não seria tão popular no Sul do Brasil.

MIYAMOTO – Certamente, plantar transgênico proporciona vantagens para os agricultores que conseguem menores custos de lavoura; facilidades operacionais na condução desse plantio; possibilidade do cultivo da soja em áreas que tenham ervas daninhas; colheita de produtos mais limpos, o que evita perdas, além dos ganhos nos trabalhos das colheitadeiras. Tudo isso se resume em menos custo e mais lucro.

CIBPara o produtor, é bom existir mercados separados, de produtos convencionais e transgênicos?

MIYAMOTO – Isso é indiferente, porque hoje o mercado paga o mesmo preço para ambos. No futuro, o grão de soja transgênico será um produto comum e os não-transgênicos serão produtos especiais e deverão ser remunerados como tal. O que hoje está ocorrendo é que os europeus e asiáticos importam soja transgênica dos EUA e da Argentina e querem que o Brasil permaneça como fornecedor de não-transgênico com o mesmo preço.

CIBE para as nossas exportações, é bom que exista essa divisão?

MIYAMOTO – Para o mercado atual, que não paga preço diferenciado para os produtos em separado, não vale a pena, salvo um ou outro contrato que excepcionalmente contemple um preço justo. Na prática, o Brasil é hoje um país produtor de soja transgênica. É importante salientar que estamos preparados para quando os compradores internacionais estiverem dispostos a pagar preços diferenciados. Temos condições de produzir “Produtos Certificados e Rastreados” com garantia desde a origem, ao uso de sementes certificadas, acompanhamento do plantio, condução da lavoura, colheita, transporte, e entrega do produto. Caso o mercado internacional esteja disposto a pagar o preço justo, estamos aptos a atendê-los.

CIBEspecificamente com relação às importações chinesas de soja, como fica o Brasil sem uma definição sobre transgênicos? Corremos o risco de perder esse mercado?

MIYAMOTO – Podemos perder esse grande mercado emergente pela morosidade de uma definição oficial. Os chineses querem que as regras sejam claras, independentemente se temos ou não transgênico. Eles têm mercado para soja transgênica e não-transgênica, conforme destinação de seu uso. Portanto, mais uma vez fica demonstrada o quanto é importante o nosso Judiciário definir, em caráter de urgência, esse “voto”. Não é mais possível aguardar e, pelo que todos sabem, as áreas técnica, científica e agrícola já decidiram. A demora e a não definição do Judiciário está acarretando grandes prejuízos. O Brasil tem perdido divisas, pois a grande maioria das sementes entra em território nacional contrabandeada da Argentina, proporcionando empregos para o nosso país vizinho. E o mais grave: a demora e a indefinição do Judiciário tem induzido os agricultores a cometer crime de contrabando e de uso de produto não autorizado no país. Se isso não bastasse, eles pagam mais caro pelos grãos trasgênicos sem garantia.

CIBQual a relação que o senhor espera que exista entre o setor produtivo e o novo governo que assume em janeiro? Quais as principais reivindicações que já foram ou que estão sendo levadas ao novo presidente?

MIYAMOTO – O setor produtivo do agronegócio brasilero vai participar e apoiar o novo governo como sempre fizemos. Todos os setores produtivos do agronegócio brasileiro, congregados em uma entidade maior denominada Rural Brasil, estiveram reunidos dia 11 de novembro passado, em Brasília, e elaboraram um documento único do setor para ser entregue ao presidente eleito. Este documento apresenta análises, dados e sugestões do setor produtivo do agronegócio brasileiro, contemplando, inclusive, o apoio à agricultura familiar, mini e pequenos agricultores e a reforma agrária. O Brasil é nosso e somos responsáveis por ele. Nós elegemos o novo governo e vamos participar e trabalhar juntos.