Em entrevista ao CIB, Crodowaldo Pavan – biólogo formado pela USP, com doutorado e pós-doutorado na Universidade de Columbia e um dos maiores especialistas em Genética do País – afirma que o Brasil corre o risco de “perder o bonde da história” se não liberar a produção e comercialização dos OGMs. Além disso, Pavan, que é membro de várias Academias de Ciência internacionais, incluindo a brasileira e a do Vaticano, acredita que a biotecnologia pode solucionar o problema da produção e distribuição de alimentos no mundo, aumentando a quantidade e a qualidade dos alimentos disponíveis. O cientista, que já foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), afirma que o Brasil só tem a ganhar com a adoção dos transgênicos, tanto econômica quanto socialmente.

CIBO Sr. desenvolve pesquisas com genética desde a década de 40 com muito sucesso. Quais foram suas principais pesquisas e suas contribuições para a ciência?

Pavan – Comecei a trabalhar com genética logo após a faculdade, em 1941. O principal responsável pelo meu interesse pela Genética foi o Prof. Andre Dreyfus, um importante professor de genética de quem fui assistente no Departamento de Biologia da USP. Sob sua orientação, fiz doutorado e, em seguida, pós-doutorado no laboratório do Prof. Theodosius Dobzhansky, na Universidade Columbia, em Nova Iorque. Em 1942, a fundação Rockefeller iniciou um Programa de Desenvolvimento Científico na América Latina, que durou vinte anos e foi um dos períodos de maior importância no desenvolvimento científico no país. Por esse programa a Rockefeller custeou um projeto de colaboração com o Prof. Dobzhansky que foi o responsável pelo desenvolvimento da Genética no Brasil. Na USP, sob a orientação de ambos os professores, foi desenvolvido um projeto de estudo de genética e ecologia de Drosophilas tropicais, do qual tomei parte e que resultou em trabalhos que tiveram grande repercussão internacional. O grupo de Dreyfus era composto de seus alunos brasileiros e bolsistas de vários países da América Latina, Europa e até da Austrália. Nos anos 50, ao lado dos trabalhos com Drosophilas, descobri na região do litoral paulista um inseto preto – Rhynchosciara angelae, que vulgarmente é chamado de Joãozinho e Maria pois, quando em cópula, a fêmea voa levando com a bagagem o macho feliz. Nesse inseto, com o grupo de Dreyfus, realizamos um grande número de trabalhos de grande importância para a Genética. Demonstramos como os genes funcionam num mesmo tecido e em pelo menos três tecidos diferentes. Quebramos um Dogma da Genética na época, o da Constância do DNA. Mostramos que certos genes, durante o desenvolvimento do inseto, multiplicam-se em ritmo diferente de outros genes. A descoberta levou 8 anos para ser aceita pela comunidade Genética. Por infecções de Microsporídios, certos tecidos aumentam o feixe de cromossomos de certas células e chegam a ficar visível a olho nu. Situação única em Genética. Infecções por vírus especiais induzem crescimento nos feixes de cromossomos (politenia). Como certos genes são inibidos pelo vírus e não se dividem, os cromossomos mostram estrangulamentos ao longo de seus comprimentos. Por essa série de trabalhos, fui convidado para montar um laboratório de Efeitos Biológicos das Radiações no Oak Ridge National Laboratory Tennesse, EUA (1963-65) e, posteriormente, fui professor titular com vitalicidade na Universidade do Texas por dez anos (1968-1978).

CIBDe que forma o sr. avalia a tecnologia do DNA recombinante? Quais os principais avanços que podem ser obtidos por meio da biotecnologia para a saúde e o bem-estar do homem?

Pavan – A tecnologia do DNA recombinante é um processo extraordinário, um avanço de grande importância para a ciência e para a humanidade. Há uma questão urgente no mundo que deve ser pensada muito seriamente pelos governantes que é a produção e distribuirão de alimentos. E mais: a qualidade nutricional dos alimentos produzidos. A ONU divulgou dados que dão conta de que mais de 50% da população humana – por falta de alimento, saúde e educação básica na infância e juventude – não atinge o nível de humanos normais. Essas pessoas podem até usar suas condições físicas e fisiológicas bem ou mal, mas, sem dúvida, são incapazes de desenvolver suficientemente suas capacidades mentais e, portanto, são subumanas. A falta de alimento interfere diretamente no desenvolvimento de saúde e educação básica nessa idade. A biotecnologia pode contribuir substancialmente para aumentar a quantidade dos alimentos disponíveis e melhorar a qualidade do que se consome. Essa ciência pode ser utilizada em benefício do homem, e, portanto, deve-se agir com rapidez. Os alimentos transgênicos já estão sendo consumidos por vários países e o Brasil não pode ficar de fora.

CIB Um dos pontos mais polêmicos que envolvem os transgênicos é a segurança alimentar desses produtos. Como o senhor avalia essa questão?

Pavan – Há 10 mil anos o homem vem adaptando plantas para sua alimentação estabelecendo regras para a viabilidade e segurança do sistema o que é muito bem feito de forma convencional. Seguindo essas mesmas regras e, se quiserem, até um pouco mais rigorosas, os transgênicos até hoje produzidos têm se mostrado perfeitamente viáveis. O que existe é uma campanha absurda e mística, que passa uma imagem ruim a respeito dos transgênicos. Vale lembrar que foi formada uma comissão composta de sete Academias de Ciência das mais importantes do mundo – dentre elas a Royal Society, a Academia Nacional de Ciência dos Estados Unidos e inclusive a Academia Brasileira de Ciência –, que já publicou um documento favorável aos produtos geneticamente modificados. Está comprovada cientificamente a segurança desses produtos e não se levantou nenhum argumento relevante que combata essa afirmação. Os transgênicos são, na verdade, mais seguros e eficientes do que os alimentos convencionais, inclusive a um possível impacto ambiental. É natural que haja a polêmica em torno deles, mas o que não pode haver é essa mística que foi criada ao seu redor e isso é, no mínimo, ingenuidade dos que a pregam. Com relação ao consumidor, no momento em que ele perceber os benefícios que os transgênicos podem trazer, ele vai preferir consumi-los.

CIBQuais as conseqüências do atual embate sobre os transgênicos para as pesquisas desenvolvidas no Brasil? De que forma esse momento de indefinição pode prejudicar o avanço dos estudos científicos no País?

Pavan – Podemos perder o bonde da história com essa indefinição. Proibir os transgênicos é impedir o progresso científico, econômico e social do País. É necessário que, rapidamente, o governo brasileiro tome uma atitude favorável à produção e comercialização dos alimentos geneticamente modificados porque já estamos correndo o risco de ficar para trás, e isso acarretará um custo muito alto para o Brasil, com o qual não poderemos arcar. Todos os estudos e pesquisas necessários estão sendo feitos em muitos países. Cada vez mais os transgênicos estão sendo adotados e não podemos duvidar disso: eles vieram para ficar. O Brasil, em agronomia tropical, está em primeiro plano no mundo graças à alta competência de nossos agrônomos. Se formos proibidos de usar transgênicos, perderemos o bonde da história assim como a possibilidade de sairmos do subdesenvolvimento que nos acompanha.

CIB O Brasil tem um enorme potencial para liderar o setor de agronegócio no mundo. De que forma a biotecnologia pode contribuir para isso e quais seriam os imediatos benefícios para o País com sua adoção?

Pavan – O Brasil tem três condições essenciais para a produção agrícola: sol doze meses por ano, água doce em condições privilegiadas e solo em abundância. Ainda que este não seja muito fértil, com o uso de tecnologia e a grande competência de nossos agrônomos, estamos hoje dentre os maiores produtores agrícolas do mundo. Imagine, então, como será ao adotarmos a biotecnologia moderna. Se isso ocorrer, o País terá grandes chances de continuar a ser um dos líderes mundiais no setor. Não podemos mais adiar a decisão de liberá-los no Brasil. Países como os Estados Unidos e a Argentina estão em franco desenvolvimento dessa tecnologia e competem acirradamente pelo mercado. A Europa, por ser talvez mais tradicional, ainda não adotou totalmente os transgênicos, mas é apenas uma questão de tempo. E, pensando no outro lado da cadeia, o consumidor vai preferir os transgênicos quando se der conta de seus benefícios para a saúde e para o bolso e nosso desenvolvimento estará garantido.