Por Ivo Carraro*

ivo-carraro_320x200Em 2011 o mundo chegou a 7 bilhões de habitantes. A previsão da Organização das Nações Unidas (ONU) é que até o fim do século, sejamos 10 bilhões de habitantes.  Uma das questões que esse crescimento populacional impõe é como alimentar esse número de indivíduos de maneira sustentável. Ainda de acordo a ONU, tanto em países desenvolvidos quanto em desenvolvimento, a agricultura familiar é a forma predominante de produção de alimentos. Por essa razão, a entidade internacional declarou 2014 o Ano Internacional da Agricultura Familiar (AIAF 2014). A ideia é chamar a atenção para o papel essencial que essa atividade desempenha na garantia de segurança alimentar e nutricional.

Segundo a ONU, a agricultura familiar inclui todas as atividades agrícolas de base familiar e está ligada a diversas áreas do desenvolvimento rural. É um meio de organização das produções agrícola, florestal, pesqueira, pastoril e aquícola que são gerenciadas e operadas por uma família. As discussões promovidas em virtude do AIAF 2014 pretendem identificar lacunas e oportunidades em âmbito regional, nacional e global. Fato é que alguns aspectos são fundamentais para o desenvolvimento da agricultura familiar, independentemente do lugar onde ela é praticada, como o acesso à tecnologia e serviços de extensão, financiamento, disponibilidade de educação especializada, entre outros.

Além dos esforços realizados pelos órgãos de extensão rural nos estados e municípios, o Brasil conta com diferentes experiências de transferência de tecnologia e organização do produtor, muitas delas capitaneadas pelas cooperativas existentes em todo o território nacional. A filosofia aplicada pelo sistema cooperativista está relacionada com o suporte técnico, social e comercial, com o objetivo principal de garantir sustentação ao agricultor. Os associados que se enquadram na classificação de familiares são aqueles que detêm a posse de áreas menores e, nestes casos, a diversificação é fundamental.

Nos estados do Sul do Brasil dentro do sistema cooperativista agrícola, a maioria dos produtores (mais de 70%) tem o perfil de familiar, com áreas abaixo de 30 hectares. Entretanto, eles utilizam as mesmas tecnologias usadas por agricultores de maior porte. No Paraná, nos últimos anos, houve crescimento acelerado na produção de suínos e aves, estimulando o cultivo de milho. A adoção de sementes geneticamente modificadas (GM), principalmente com resistência a lagartas do cartucho e da espiga, também foi rápida, superando 90%. Nas bacias leiteiras, em que o milho é o principal fornecedor de silagem para o gado, a preferência dos agricultores de pequeno e grande porte também é pelo milho tolerante a insetos. Cabe salientar que a atividade leiteira é tipicamente realizada pela agricultura familiar.

Na região oeste de Santa Catarina a cooperativa Copérdia, em Concórdia, tem identificado um aumento na adoção de sementes transgênicas resistentes a insetos. Dados revelam que ao longo das quatro últimas safras, a adoção de sementes GM saiu de aproximadamente 20% em 2010/11 para quase 90% em 2013/14. Esse expressivo crescimento demostra que a adoção da transgenia traz benefícios econômicos e sociais para o pequeno produtor. Além disso, ele tem grande capacidade de absorver conhecimento e aplicar novas técnicas, se estas estiverem disponíveis. O exemplo da Copérdia é repetido em praticamente todas as cooperativas da região sul em que a produção de milho está associada à produção de carne e leite.

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No Rio Grande do Sul, caracterizado pela pequena propriedade, a situação não é diferente. Na cooperativa Cotrel, localizada na região norte do estado e que reúne 39 municípios, a adoção de sementes de milho transgênico é superior a 90%. O reconhecimento dos benefícios da tecnologia pelos gaúchos é tamanho que, com o apoio dos sindicatos e da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no RS (Fetag/RS), os pequenos agricultores se mobilizaram para reivindicar o acesso a sementes transgênicas no programa Troca-Troca de sementes de milho.

O cenário observado no sul do País não é exclusivo dessa região. Em todo Brasil, outras experiências indicam que o uso de tecnologias modernas não é privilégio de grandes agricultores. Estes exemplos demonstram que a agricultura sustentável e competitiva não pode abrir mão de nenhuma ferramenta disponível. Depois de 10 anos no mercado brasileiro e de expressiva adoção por parte dos agricultores familiares, a transgenia se mostrou fundamental para o desenvolvimento econômico e social.

Texto originalmente publicado na edição de fevereiro de 2014 da revista AgroAnalysis.

*Ivo Carraro é engenheiro agrônomo, mestre em fitotecnia e doutor em ciência e tecnologia de sementes. Atualmente é presidente-executivo da Cooperativa Central de Pesquisa Agrícola (Coodetec)