Eliane Santarém

Uma das conseqüências da engenharia genética é a possibilidade de utilização de plantas como “fábricas” para produção de substâncias farmacêuticas. As plantas produzem, naturalmente, compostos biologicamente ativos, que conferem proteção contra herbívoros e infecção por patógenos, além de agirem como atrativos para polinizadores e dispersores de sementes. Muitos desses compostos têm sido utilizados como medicinais desde os tempos pré-históricos e vários dos medicamentos atuais são baseados em produtos naturais. A biotecnologia, principalmente a transformação genética, tem o potencial de aumentar ou modificar a produção destes compostos farmacêuticos e criar plantas transgênicas importantes para a saúde humana.

Resultados positivos estão sendo obtidos por meio da modificação genética de plantas para alterar quantitativamente a produção de um composto de interesse medicinal. A hirudina, poderoso anticoagulante produzido pela sanguessuga, pode ser extraída de sementes de plantas transgênicas. Outro exemplo importante é a alteração do conteúdo de vitamina C (ou ácido ascórbico) em plantas, pela introdução de um gene responsável pela síntese de uma enzima que a recicla. A única fonte dessa vitamina para os seres humanos é a alimentação, já que não são capazes de produzi-la.

O ácido ascórbico está presente, em grandes quantidades, em frutas cítricas e hortaliças, mas em pequenas quantidades nos grãos. Nas plantas, é um composto importante para a proteção contra os efeitos oxidantes do oxigênio, ou seja, aqueles que geram a produção de radicais livres, causada pela seca, alta incidência luminosa, baixas temperaturas ou solos salinos. O aumento da concentração de vitamina C não é apenas benéfico para melhorar a alimentação humana, mas também para o aumento da produtividade vegetal. A possibilidade concreta de alterar a quantidade dessa vitamina em plantas, inclusive nos cereais, permitirá ampliar o número de fontes alimentares a partir das quais o ácido ascórbico poderá ser obtido.

A dose diária recomendada de vitamina C para adultos é de 75mg para mulheres e 90mg para homens, quantidade suficiente para prevenir doenças relacionadas à sua deficiência. Alguns estudos sugerem que os hábitos alimentares modernos aumentam a probabilidade de que um grande número de pessoas não consuma 200 mg de vitamina C por dia, necessários para garantir a saúde dos sistemas cardiovascular e imunológico. Dessa forma, a perspectiva de aumentar os teores de ácido ascórbico em alimentos de origem vegetal possibilitaria a ingestão de vitamina suficiente para uma vida mais saudável.

Eliane R. Santarém é bióloga, Dra. em Botânica, pesquisadora da PUC-RS e conselheira do CIB.