Claude Menara

O plantio do milho geneticamente modificado (GM) na Europa tem demonstrado que a coexistência com as variedades convencionais é possível, desde que valorizado o conhecimento científico e respeitadas as boas regras de manejo agrícola. O resultado de tal prática é que, quando conduzidas por pessoas neutras, com expertise tecnológica e vivência nas atividades agronômicas, as informações do campo tornam-se fonte precisa e segura para políticos, associações ecológicas e toda sociedade, de maneira objetiva e transparente.

Na França, por exemplo, os agricultores têm força e credibilidade porque trabalham para o meio ambiente – afinal, eles precisam do meio ambiente para sobreviver – e são encarados como consumidores conscientes, uma vez que também consomem os alimentos que produzem. É um princípio básico. Nesse sentido, por ter conhecimento dos fatos, é do agricultor a decisão de semear o milho GM.

Os produtores rurais franceses não ficaram alheios aos debates em torno da biotecnologia e uniram-se para buscar, por caminhos independentes de política ou ideologia, as respostas mais adequadas às suas atividades. Foi assim que, em 2005, a Associação dos Produtores de Milho e Sorgo da França desenvolveu o Programa de Acompanhamento de Culturas em Biotecnologia (PACB), com apoio de organizações como o Instituto Nacional de Pesquisas Agronômicas (INRA), a Federação Nacional dos Produtores de Sementes de Milho e de Sorgo (FNPSMS), o Sindicato das Empresas Francesas de Sementes de Milho (Seproma) e o Instituto do Vegetal Arvalis.

O PACB realiza um monitoramento que avalia os parâmetros estabelecidos para coexistência de milho Bt – cujo plantio permaneceu interrompido pela moratória aplicada de 1999 a 2003 – e variedades convencionais. Após três anos de estudos, comprovamos que a coexistência é possível entre diferentes tipos de milho (verde, grão, semente, transgênico e orgânico), pois a zona tampão de 10 metros de distância já permite diminuir para apenas 0,3% a 0,4% a presença não intencional, ou seja, abaixo do limite mínimo exigido pela EU, de 0,9%.

Além da questão da coexistência, o programa avalia informações científicas e operacionais que garantem a rastreabilidade das culturas, desde o campo e o armazenamento até a fabricação de ração animal. O projeto também analisa os benefícios do milho Bt com relação à resistência a pragas. Todos os dados são apresentados constantemente para os ministérios de Meio Ambiente, Agricultura e Ciência e Tecnologia.

O país europeu que mais cultiva transgênicos é a Espanha. Não por acaso: o nordeste espanhol, grande produtor de milho, é também uma das regiões mais áridas da Europa meridional, onde as plantações são freqüentemente afetadas pela Lagarta Européia (Ostrinia nubialis). Lavouras de colegas agricultores espanhóis, que ali adotaram o milho Bt há seis anos, comprovam que o rendimento bruto da variedade resistente a insetos é maior que o da planta convencional. A versão transgênica rende R$ 1.980,00 / ha, enquanto a outra garante apenas R$ 1.160,00 / ha.

A diferença entre as duas opções é conseqüência direta da redução dos custos de produção e da mais alta qualidade dos grãos, que, por resistirem às pragas, impedem a formação de micotoxinas. Vale destacar que as áreas de refúgio com 10 metros de distância, ou 12 linhas de milho, mostraram-se suficientes para garantir a coexistência das variedades convencionais, campos de produção de sementes e variedades GM tanto na França quanto na Espanha. Além das vantagens econômicas, melhorou consideravelmente a qualidade de vida dos próprios agricultores, pois eles ficam menos tempo nas lavouras realizando aplicações de agentes químicos – fator de suma importância socioambiental. Atualmente os fabricantes de ração e óleo da Espanha preferem comprar os grão GM pela alta qualidade, uniformidade e ausência de micotoxinas.

Segundo o Serviço Internacional para Aquisições de Aplicações em Agrobiotecnologia (ISAAA), seis países da União Européia cultivaram o milho Bt em 2006. A Espanha plantou 60 mil hectares. França, República Checa, Portugal, Alemanha e Eslováquia, juntos, alcançaram aproximadamente 8,5 mil hectares. No último mês de fevereiro, conversei sobre estes números e tendências com dezenas de colegas agricultores brasileiros durante o Show Rural, evento realizado em Cascavel (PR), que se mostraram bastante interessados e desejosos de adotar as variedades de milho Bt. Temos todos a mesma convicção de que a biotecnologia se apresenta como o caminho mais seguro e eficiente para agricultura no mundo inteiro.

Claude Menara, agricultor francês, é membro do Programa de Acompanhamento de Culturas em Biotecnologia (PACB), desenvolvido pela Associação dos Produtores de Milho e Sorgo da França]