Marcos Faria

Mais um capítulo da novela que trata da regulamentação da moderna biotecnologia no Brasil é adiado. O que era para ser votado em regime de urgência, o Projeto de Lei do Executivo sobre biossegurança, após discussões, emendas, manifestos de grupos pró e contra transgênicos, e outras peculiaridades, acabou sendo postergado para 2004.

Enquanto isso, certamente, o país assistirá de camarote a mais uma safra ilegal de soja transgênica espalhando-se pelo Brasil, a pesquisa tão necessária para responder aos questionamentos sobre a segurança dos transgênicos continuará parada e os investidores não saberão se o “celeiro do mundo” realmente merece receber capital para avançar em tecnologia. A mesma tecnologia que não é, ao contrário do que alguns grupos pregam, monopólio de multinacionais, deixa de ser gerada aqui, no nosso Brasil, dentro de casa. E surge o grande paradoxo em torno da novela dos transgênicos: se determinado plantio transgênico for comprovadamente nocivo, seja para o meio ambiente, seja para o consumo humano ou animal, os culpados serão, por força de lei, punidos. Mas, e se isso não for verdade? Ou seja, e se não houver efeitos deletérios decorrentes do cultivo dessas plantas no Brasil, como acontece nos mais de 60 milhões de hectares anualmente plantados com transgênicos no mundo? A quem será atribuída culpa se a falta de regras claras e definitivas comprometer nosso principal sustento da economia, o agronegócio? Quem responderá por um eventual atraso tecnológico e, pior ainda, pela dependência de tecnologia importada? Quem pagará pelo atraso econômico e social que poderá ser reforçado no país? Deixa o povo pagar, já está acostumado com isso…

Lamentável que uma legislação, a atual legislação de biossegurança, tão elogiada internacionalmente como uma das melhores do mundo, seja objeto de um jogo de xadrez político. Lamentável que uma comissão técnica, formada por profissionais que deram ao Brasil destaque mundial no segmento da genômica seja, sobretudo nesse momento tão decisivo, desprestigiada e questionada com relação à sua competência e imparcialidade. Lamentável que se queira misturar, numa única lei, avaliação técnica de biossegurança e aspectos econômicos, sociais e, principalmente, ideológicos.

E nos resta a saudade dos banquinhos da escola, das conversas nos centros acadêmicos das universidades, quando éramos convencidos de que o Brasil seria o país do futuro. O nosso futuro chegou, a decisão está em nossas mãos, mas preferimos continuar na mesmice. Sonhar não custa nada, mas o que fazer se, quando acordados, não conseguimos agir para transformar o sonho em realidade? Nos resta aguardar que os bastidores políticos definam-se o quanto antes, torcer para que a ciência vença interesses ideológicos nãosubstanciados, que continuam nos fazendo e nos mantêm eternamente como “o país do futuro.”

Marcos Faria é engenheiro agrônomo, mestre em Entomologia, pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e conselheiro do CIB.