Décio Gazzoni

Em visita à Estação Experimental de Rothamsted, na Inglaterra, acompanhei um estudo sobre distúrbios genéticos de plantas. A germinação da semente é controlada por mais de 30 genes, que a ativam, mantêm a dormência e controlam o desenvolvimento da plântula. Em algumas plantas, um distúrbio genético causa a germinação precoce (antes da colheita), que inviabiliza a semente e reduz a qualidade do grão. Os agricultores queixaram-se aos cientistas, que arregaçaram as mangas em busca de uma solução.

Ocorre que o princípio da precaução não foi afrontado pela Lei de Biossegurança. Aliás, esta nada mais é que a própria manifestação concreta desse princípio.

Os cientistas descobriram um gene-chave que deflagra o início da germinação. Ele regula o metabolismo das reservas da semente, que garantem o desenvolvimento da plântula até que ela possa absorver nutrientes e efetuar a fotossíntese. A forma normal do gene ativa a maturação do embrião e, simultaneamente, impede a germinação precoce.

No entanto, se esse gene sofre uma mutação ou ocorre corrupção de seu DNA, surgem problemas na germinação das sementes. Como as queixas provinham de triticultores, os cientistas estudaram cada uma das seis cópias de cada cromossomo das células do trigo. Eles descobriram que os genes presentes em cada cópia do cromossomo produzem proteínas mensageiras de tamanho diferente. As mensageiras são proteínas que transmitem ordens para a manifestação de outros genes; regulando a ação de hormônios ou enzimas; atuando nos processos bioquímicos. Sem demérito, podemos chamá-las de “office boys moleculares”.

Devido ao defeito genético natural, com alta umidade do ar ocorre uma antecipação da germinação, ainda na espiga. Comparando o DNA de variedades de trigo antigas e recentes verificou-se que, na evolução do trigo, o gene se corrompera. A cópia diferente do original cria um ruído de comunicação ao transmitir a ordem para a produção das proteínas. Por exemplo, imagine um rádio mal sintonizado, com o dial um pouco fora da freqüência exata da emissora. É possível entender a maior parte da transmissão, porém, às vezes, a falta de sintonia perfeita dificulta – ou torna impossível – o entendimento. Imagine, então, transmitir números ou códigos de barras: a perda de um deles fará com que a ordem seja cumprida apenas parcialmente, com falhas que podem comprometer a qualidade do processo.

Para solucionar o problema, os pesquisadores criaram cultivares transformadas de trigo, contendo um gene de centeio selvagem, cujas sementes apresentam alto nível de dormência. As sementes das plantas transgênicas amadureceram sem germinação precoce, apresentaram melhores características germinativas e reagiram positivamente à aplicação de ácido abscíssico, um produto químico usado para inibir agerminação. Assim, criou-se uma alternativa viável para atender à demanda dos agricultores britânicos por cultivares cujas sementes não germinassem na espiga, mesmo com alta umidade no ar, e que não atrasassem o processo germinativo quando semeadas no solo.

Décio Gazzoni é engenheiro agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja e conselheiro do CIB.