José Maria Ferreira Jardim da Silveira

jose-maria-da-silveira_320x200O Brasil tem consolidado resultados de anos de esforços em pesquisas voltadas ao agronegócio, o que ajudou o setor a se tornar cada vez mais competitivo, para desespero dos seus concorrentes. Essa realidade é fruto de uma base científica sólida e ampla, consolidada em universidades e empresas que aplicam o conhecimento biológico em pesquisas aplicadas. Foi assim que, nos últimos 50 anos, surgiram variedades de plantas que melhor aproveitam os recursos fornecidos pela natureza. Produzimos, atualmente, mais de 120 milhões de toneladas de grãos, numa área de aproximadamente 50 milhões de hectares, 25% a mais do que ocupávamos em 1990, quando a produção estava em torno de 57 milhões de toneladas de grãos, ou seja, menos da metade da atual.. Ganharam, assim, os agricultores e o meio ambiente.

O consumidor não percebe, mas o leque de opções de consumo, na forma de novas variedades e novos produtos, in natura ou processados, aumentou vertiginosamente nos últimos 20 anos. Para a manutenção e ampliação dessa diversidade, a biotecnologia teve, tem e terá um papel fundamental. Ganha o consumidor quando a biotecnologia permite manter variedades que são de seu agrado. Os produtores do norte de Minas, por exemplo, vivem hoje o drama do Mal de Sigatoka em cultivos de banana-prata anã, a base econômica da região. Variedades resistentes à doença são fundamentais para a sobrevivência de pequenos produtores da fruta e, certamente, a biotecnologia é a melhor ferramenta para obter melhores resultados no curto prazo. Já os quase US$ 5 bilhões adicionais provenientes do impacto do uso da soja transgênica na Argentina favoreceram os agricultores e o próprio país, o que evitou problemas mais graves para aquela balança de pagamento.

Na medicina, nos últimos 50 anos, o espaço conquistado pelo conhecimento científico moderno, gerado em instituições públicas, a exemplo da FIOCRUZ, teve impacto direto na saúde pública, com vacinas e reagentes, que ajudaram na redução de doenças como a tuberculose e malária.

Como se pode notar, pequenos e também grande agricultores, consumidores e portadores de doenças podem ser alvos da biotecnologia. E tudo isso é coerente com os esforços já realizados por nossa rede de pesquisa em biologia, agronomia e afins, que congrega universidades, Instituto Biológico em São Paulo, passando por empresas privadas e institutos privados, como Allelyx e Instituto Ludwig, talvez a rede de inovação mais importante do país.

Mas o que existe até hoje é apenas uma leve ponta no amplo leque de possibilidades que se vislumbra com a biotecnologia. Todas elas têm início a partir de estratégias simples, de transferência de genes entre espécies ou da mesma espécie, por meio das técnicas do DNA recombinante (a mesma usada com transgênicos), para obtenção de resistência a pragas e doenças ou melhor adaptação das plantas a estresses ambientais, como a é o caso da seca ou do alumínio de solos ácidos. Com pesquisas já em andamento, no futuro, espera-se utilizar plantas e animais como biofábricas produtores de moléculas como hormônios, fármacos e até novas fibras de alta resistência.

O que seria preciso então para liberar essa enorme fonte de força produtiva? Em primeiro lugar, a consciência de que se trata de redefinir o aparato institucional dos setores mais influenciados pela biotecnologia – principalmente agricultura e saúde humana – para incluir de forma prática e funcional a questão da biossegurança.

É necessário criar um sistema que permita utilizar o conhecimento acumulado nos testes já feitos para cada OGM, por meio do uso de toda infra-estrutura disponível. No caso do Brasil, trata-se de criar uma Agência de Biossegurança com poder de delegar a organizações públicas e privadas a responsabilidade da geração de informações ligadas ao assunto, além de utilizar dados disponíveis em agências internacionais. Deve-se também deixar claro que algumas questões já estão superadas: a soja predominante no mundo é a transgênica. Cerca de 80% do que é cultivado nos EUA, 100% na Argentina e 70% do cultivo do principal Estado produtor de soja no Brasil é feito com variedades transgênicas do produto.

Vive-se uma nova realidade na qual um processo seletivo mais sofisticado avalia não só impactos econômicos, mas principalmente o balanço de ganhos e perdas sobre o ambiente pelo uso de transgênicos. Essa realidade que exige atenção para medidas lesivas à competição e para conter o excessivo poder de mercado que certas empresas possam vir a ter com o controle da tecnologia. Estamos preparados para ela? Todo nosso resultado na pesquisa e desenvolvimento em biotecnologia tradicional e moderna até hoje deixa claro que sim. Mãos à obra, então.

José Maria da Silveira é engenheiro agrônomo, doutor em Economia, professor da Unicamp e conselheiro do CIB.