Odacir Klein

Após dois anos da primeira liberação comercial do milho transgênico no Brasil, o setor agrícola brasileiro permanece focado em questões acerca do grão geneticamente modificado (GM). Os benefícios ambientais e econômicos, o suposto embargo da União Europeia e a coexistência entre variedades GM e convencionais são alguns dos itens em pauta para o setor, que vê, dia após dia, o milho transgênico atingir índices de adoção impressionantes no Brasil.

De acordo com dados da consultoria em agronegócios Céleres, divulgados no final de 2008, o plantio do cereal GM no País correspondeu a 9% do total cultivado com o grão na safra 2008/2009 – índice bastante alto, se considerarmos ser o primeiro ano de plantio do milho transgênico e ainda haver uma baixa oferta de sementes. Para a safra 2009/2010, já circula a informação de que aproximadamente 50% da área dedicada à cultura no Brasil poderá ser ocupada com variedades transgênicas.

Tal avanço do milho GM deve-se fundamentalmente à constatação, pelo agricultor brasileiro, seja ele familiar ou latifundiário, dos benefícios proporcionados pelas, até aqui, seis variedades comercialmente autorizadas pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). Entre essas vantagens, a redução do uso de agrodefensivos, a baixa incidência de micotoxinas e o aumento de rendimento por hectare, entre outras.

É absolutamente natural que a ampla e rápida adoção do grão geneticamente modificado no País provoque o surgimento de questões sobre a convivência no campo entre o milho GM e o convencional. No entanto, são diversas as constatações científicas e empíricas que apontam ser plenamente possível a harmonia entre transgênicos e não-transgênicos nas plantações de milho.

Há décadas, agricultores do mundo inteiro utilizam métodos eficientes de coexistência entre diferentes variedades do grão. Até mesmo muito antes do surgimento dos transgênicos, essas práticas já garantiam o isolamento entre lavouras de milho híbrido e tradicional. Acrescem-se a esse histórico normas específicas estabelecidas pela CTNBio, cuja rigidez reduze a praticamente zero a possibilidade de cruzamento entre variedades. Tais medidas, já adotadas pelo campo, preveem um distanciamento entre plantações GM e convencionais de, no mínimo, 100 metros ou, alternativamente, 20 metros, desde que acrescida de uma bordadura com dez fileiras de plantas de milho nãotransgênico.

Para se ter idéia da severidade das normas de coexistência definidas pela CTNBio, um estudo conduzido pelo pesquisador Joaquim Messeguer, do Departamento de Genética Vegetal do consórcio CSIC-IRTA, da Espanha, comprovou que distâncias de apenas 20 metros são suficientemente seguras para se manter a presença adventícia de transgênicos abaixo de 0,9% do total da lavoura. Outras pesquisas realizadas por renomados cientistas e entidades, como o Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica (Ibet), de Portugal, oferecem apontamentos bastante similares aos verificados por Messeguer.

Se no campo não há dúvidas sobre as vantagens do milho GM, nem motivos para sustentar receios sobre questões de coexistência, no mercado muito se discute sobre a suposta resistência da União Europeia (UU) à importação de variedades transgênicas. Nesse aspecto, uma rápida avaliação mostra todo o potencial de consumo do cereal geneticamente modificado pelo bloco.

Somente na safra 2007/2008, a UE importou 14,6 milhões de toneladas do grão, de acordo com dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Boa parte desse milho foi fornecida pelos Estados Unidos e pela Argentina, os dois maiores produtores do cereal GM. Soma-se a isso o fato de que a maioria dos países europeus que definiram medidas de embargo ao milho transgênico restringiu apenas o plantio dessas variedades, permitindo o consumo e a importação – o que torna a Europa ainda mais interessante para players produtores do grão geneticamente modificado.

Quando colocado em análise cada aspecto da chegada do milho GM ao Brasil, fica evidente que a adoção da biotecnologia revitaliza a agricultura nacional, tornando-a mais competitiva e diversificada. Em que pese toda incerteza inicial acerca da coexistência e da aceitação do grão transgênico pela União Europeia, o agricultor brasileiro, especialmente o produtor de milho, mostra-se a cada dia mais aberto e preparado para adotar toda tecnologia de ponta disponível e, consequentemente, se posicionar entre os mais técnicos do mundo.

Presidente-Executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho).