Eduardo Jorge

Quem tem filhos certamente já cansou de repetir, à mesa, que as crianças devem comer bem para não ficar doentes. O fato é que, com o desenvolvimento da ciência, o papel profilático exercido pela alimentação ganha ainda mais relevância nos dias atuais. A biotecnologia, como ciência, constitui uma ferramenta que pode ser utilizada para oferecer mais qualidade de vida ao ser humano. Assim, é importante que as pesquisas nessa área avancem e que o Brasil tenha acesso aos benefícios da engenharia genética, seja para aumentar a qualidade nutricional dos alimentos, seja para lançar mão de produtos funcionais e nutracêuticos.

Os primeiros são fortificados e apresentam efeitos benéficos para a saúde se consumidos em quantidades adequadas, e os segundos constituem-se em suplementos usados para melhorar a saúde via manipulação, em quantidades maiores do que as que existem naturalmente em suas fontes. Dessa forma, é possível aperfeiçoar a qualidade nutricional de gêneros alimentícios e também contribuir para a diminuição da fome e da desnutrição no País. Além disso, espera-se que os derivados da biotecnologia sejam empregados na prevenção de doenças e na melhoria da qualidade de vida da população em geral.

Proteção das artérias

Tome-se o caso da biotecnologia vegetal. Essa modalidade da ciência permite produzir, por exemplo, vegetais com teores superiores de gorduras insaturadas, que protegem as artérias, não sendo, portanto, transformadas em gorduras ruins durante os processos de cozimento ou fritura dos alimentos. Já existem pesquisas nesse sentido, com ênfase para o estudo da soja.

A idéia é levar essa espécie a ser mais rica em óleos com alto teor de ácidos oléico e linoléico, saudáveis para o coração. Outra possibilidade cogitada consiste no uso da engenharia genética para elevar o teor de isoflavonas na soja, substâncias antioxidantes que combatem os radicais livres, responsáveis por males como o câncer, além de reduzirem os níveis do colesterol no sangue.

Saúde pública

O colesterol, afinal, não é de todo maléfico para o ser humano. Existe a fração ruim, chamada de LDL, mas existe também a boa, denominada HDL. Encontrada nas gorduras insaturadas ou polinsaturadas, esta última funciona no organismo como protetora das artérias, evitando seu desgaste – a arteriosclerose. Aliado à redução do colesterol ruim, o aumento nos níveis de HDL é recomendado como fator importante para a prevenção de doenças cardiovasculares.

Claro que a profilaxia implica uma série de medidas, não somente ligadas à alimentação. No caso dos males do coração, além de evitar o consumo de gorduras saturadas, o indivíduo precisa praticar exercícios físicos e ficar longe do cigarro. Mas saber que o consumo de óleo de soja geneticamente modificada pode fazer a diferença entre a saúde e a doença já representa um grande alento. Sobretudo para uma boa parcela das autoridades, que já chegou à conclusão de que só a prevenção reduz os custos com a saúde.

Eduardo Jorge é cardiologista pela Universidade Federal de Uberlândia e médico do Hospital Santa Genoveva, em Uberlândia (MG)