Por Anderson Galvão*

anderson-galvao_320x200O volume da produção agrícola no Brasil aumentou mais de 100% nos últimos vinte anos, enquanto a área total plantada cresceu apenas 25%. Tal crescimento é consequência de ganhos expressivos de produtividade, decorrentes do aprimoramento e da adoção de diversas tecnologias, como melhores práticas de correção e fertilização dos solos, controle mais eficiente de pragas e doenças, genética convencional e biotecnologia e, sobretudo, a gestão de todo o processo. Assim, o sistema atualmente implantado no País é de última geração e contribui sobremaneira para uma agricultura mais eficiente no uso dos recursos financeiros e ambientais.

Todo esse cenário é indispensável ante a necessidade de aumento da oferta de alimentos, alerta que vem sendo feito pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e outras entidades internacionais e reforçada pelo relatório Foresight Report on Food and Farming Futures, publicado no Reino Unido. De acordo com os especialistas, a produção de alimentos deverá crescer 40% nas próximas duas décadas para que possamos evitar o aumento da fome global. Segundo as estimativas, a população mundial chegará a aproximadamente 8 bilhões de pessoas em 2030, o que gerará um aumento da demanda não apenas por comida, como também por água potável (30%) e energia (50%).

Não haverá uma solução única que possibilite alcançar essa meta. Serão necessárias ações integradas que proporcionem mudanças nos sistemas de produção, gerando aumento da oferta de alimentos em consonância com práticas sustentáveis e preservação do meio ambiente. Para tanto, é imperativo que se olhe para essa questão de maneira pragmática. Embora importantes, a produção orgânica e a agricultura familiar não possuem condições e eficiência para solucionar o problema alimentar de uma população mundial crescente, em número e em poder de compra. A agricultura comercial, conduzida com padrões elevados de produtividade e qualidade, é uma parte fundamental do desafio de prover alimentos, fibras e biocombustíveis para todos os mercados. A exemplo do que ocorre no Brasil, tais ganhos de produtividade são os principais aliados da preservação dos recursos naturais.

Avanços da biotecnologia

Temos hoje à disposição a primeira geração dos eventos de biotecnologia. Eventos com características agronômicas – como resistência a insetos e tolerância a herbicidas – promovem ganhos de produtividade e de redução dos custos de produção. Nos próximos anos, devem ser introduzidos no mercado eventos com características funcionais (teor de óleos, vitaminas e proteínas, entre outras) e também abióticas, a exemplo da tolerância à seca.

Atuando em conjunto com as demais tecnologias agrícolas, a biotecnologia aplicada à agricultura renova o potencial produtivo das culturas de soja, milho e algodão.

Em breve, poderemos ter também no Brasil a cultura do feijão se beneficiando da biotecnologia no controle de doenças que afetam fortemente a produtividade da cultura. O evento transgênico, desenvolvido pela Embrapa, já foi aprovado pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) e deve chegar ao mercado para as próximas safras.

Opções para o produtor

Um aspecto muito relevante do momento atual é que o agricultor tem à mão uma série de tecnologias – desde a genética até o controle fitossanitário das lavouras – que estão facilmente acessíveis no mercado, com custos competitivos e com adaptabilidade às diferentes regiões e necessidades dos produtores. Essa combinação possibilita o atendimento do pequeno, do médio e do grande produtor rural, provendo ferramentas que estimulam o crescimento econômico e auxiliam o aumento da produção agrícola.

Um bom exemplo dessa associação entre as tecnologias é o caso do milho produzido no Brasil. A adoção da biotecnologia na última safra propiciou relevantes ganhos de produtividade nos campos cultivados com milho geneticamente modificado. No entanto, tais proveitos seriam fortemente comprometidos se a biotecnologia não tivesse sido empregada num campo onde o solo já estivesse corrigido, se o uso de defensivos agrícolas não controlasse outras pragas, doenças e plantas daninhas e se o melhoramento genético tradicional não estivesse fornecendo materiais (germoplasma) adaptados às diferentes regiões de produção do Brasil. Junto com as demais tecnologias, a biotecnologia tem o potencial de resultar em expressivos ganhos de produtividade para o agricultor e para a sociedade.

Na medida em que existe um aparato legal e institucional favorável à pesquisa e ao desenvolvimento de novas tecnologias, os setores privado e público vêem condições  adequadas para atender às necessidades dos agricultores, com produtos a um custo compatível com os resultados obtidos por meio de sua adoção. Tal ambiente pode gerar um ciclo virtuoso que, em última instância, acaba realimentando a curva de crescimento da produtividade agrícola. Tudo isso, numa relação mais sustentável com os meios de produção.

*Anderson Galvão é engenheiro agrônomo, sócio-diretor da Céleres Consultoria e conselheiro do CIB