Por Frederico Franz*

Não se fala em outra coisa. As fake news estão hoje no centro de uma discussão que envolve jornalismo e ciência. Mas o que são, exatamente? Embora a resposta possa parecer óbvia, nem sempre a fronteira entre o que é ficção e realidade é clara.  Uma das definições possíveis para notícia falsa é “um conteúdo deliberadamente inverídico produzido propositadamente de forma a simular uma notícia verdadeira com o objetivo de favorecer algo ou alguém”.

Partindo dessa definição, podemos identificar, pelo menos, dois grupos de pessoas. O primeiro é formado por indivíduos que criam notícias falsas e que, portanto, sabem que elas são mentirosas. O segundo, é composto por gente que não consegue identificar a fraude da notícia e a repassa, acreditando que era, de fato, um fato. Ou seja, o segundo grupo, é bem mais numeroso.

A premissa por trás da estratégia das fake news é o bom e velho ditado “uma mentira repetida mil vezes se torna verdade”. A técnica de construção de um “bom” material enganoso prevê que, se o leitor analisar racionalmente, não irá compartilhá-lo. Por isso, esse tipo de conteúdo é elaborado de modo a mexer com a emoção da audiência. Em outras palavras, os produtores de conteúdo falso contam com a impulsividade das pessoas.


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Por que as pessoas compartilham notícias falsas?

A resposta a essa pergunta não é única, entretanto, um aspecto certamente entra na conta: o “viés de confirmação”. Esse fenômeno é uma tendência cognitiva que faz com que todo mundo tenha mais propensão a lembrar, pesquisar e interpretar fatos que confirmem suas crenças e hipóteses. Dito de outra maneira, como ninguém gosta de perder, esse mecanismo psicológico garante que estejamos sempre certos.

É aí que as redes sociais e o marketing digital entram em cena. A dinâmica dos algoritmos faz com que nossa navegação online deixe um rastro de tudo aquilo que nos interessa. Isso faz com que hoje seja fácil oferecer a alguém exatamente o estímulo que essa pessoa precisa para entrar no círculo vicioso do viés de confirmação. E se o conteúdo que dispara esse gatilho não existe, os criadores de notícias falsas o inventam.

Como as notícias falsas podem afetar a percepção da ciência?

O caso a seguir pode ajudar a ilustrar como a coisa funciona. Desde 2015 circula na internet um boato sobre um espanhol que teria morrido de choque anafilático após ter comido um tomate que continha genes de peixe. Não é preciso ir muito longe para saber que se trata de uma informação notícia falsa. Primeiramente, não existe tomate transgênico em nenhum lugar do mundo. Entretanto, como revela uma pesquisa realizada pela Ibope-Conecta em 2016, no Brasil, 23% dos internautas acreditam que há tomates geneticamente (GM) no mercado. Isso quer dizer que, o texto, ainda que seja uma mentira, trabalha de maneira a manipular expectativa de uma parcela da população que espera uma por uma confirmação de sua crença. Por esse motivo, o absurdo do fato não dispara o alarme da fraude logo de cara.

A própria premissa da notícia é contrária a todos os dados científicos já reunidos sobre o assunto, dado que as principais agências reguladoras e entidades acadêmicas atestam que os transgênicos disponíveis no mercado (entre os quais não está o tomate da matéria, é bom reiterar) são tão seguros quanto os alimentos convencionais para a saúde humana, animal e para o meio ambiente. Mas não para por aí. O suposto morto também não existe. A foto postada na matéria foi “roubada” da internet.

Isso pode nos levar a pensar que é preciso uma boa dose de ingenuidade e desconhecimento para acreditar que esta notícia é real. Mas esses textos são produzidos mesclando informações verdadeiras e falsas de maneira a confundir o leitor. Por exemplo, a primeira foto da matéria, de um grupo de médicos aparentemente falando em público, é real. Entretanto, ela é um recorte de uma foto tirada em outro contexto. A imagem refere-se à coletiva de imprensa que os profissionais de saúde do Hospital Carlos III deram quando, em 2014, uma enfermeira espanhola tornou-se a primeira pessoa fora da África a contrair Ebola.

O Hospital Carlos III, onde a morte por conta do tomate teria acontecido, também existe e, de fato, na época, era gerenciado pelo doutor Rafael Perez Santamarina, supostamente entrevistado para a matéria. Entretanto, nesse centro de saúde, assim como em nenhum outro, nunca houve casos de morte por ingestão de transgênicos. Entrevistas com autoridades são um dos pilares do bom jornalismo. Elas dão credibilidade ao conteúdo e mostram o comprometimento de pessoas com o tema. O recurso foi usado exatamente como em uma notícia real, nesse caso, para dar uma roupagem de verdade a uma mentira. Essa também é uma tática usada para confirmar aquilo que está no subconsciente do leitor.

Como identificar notícias falsas?

Embora o problema seja complexo, arrisco dizer que a solução passa pela alfabetização jornalística. Isso não quer dizer tornar todas as pessoas jornalistas, mas dar a elas ferramentas para que sejam capazes de analisar se um conteúdo é minimamente baseado em fatos e atribuir a ele valor proporcional à sua veracidade.

Mesmo que a notícia confirme o que você sempre pensou, não compartilhe imediatamente

 

Vejamos abaixo sete dicas que nos ajudam a evitar as fake news:

  • Leia a matéria inteira – Muita gente só lê as manchetes e já compartilha. Porém, boa parte das notícias falsas é tão absurda que não resiste à leitura completa do texto.
  • Analise a linguagem – Em um texto jornalístico, os adjetivos normalmente são evitados. Se você encontrar muitos, fique alerta.
  • Cruze as fontes – Veja se as informações-chave da notícia também foram publicadas em outros veículos. Caso contrário, desconfie.
  • Busque a fonte original – Se uma matéria tem uma declaração, confira se a fonte realmente existe, se é uma autoridade naquele assunto e se, de fato, teria dado aquela entrevista.
  • Cheque as datas – Uma informação fora do contexto histórico pode gerar uma interpretação distorcida. Verifique se a notícia e a data do acontecimento coincidem.
  • Avalie a credibilidade do veículo – Veículos que fazem jornalismo, necessariamente, estão preocupados em dar informações verdadeiras. Avalie o histórico da publicação.
  • Hesite – Mesmo que a notícia confirme o que você sempre pensou, não compartilhe imediatamente. Faça o exercício “e se eu estiver errado?”.

Da mesma maneira que a notícia do exemplo foi produzida, outras, sobre as mais variadas temáticas e visando os mais diversos objetivos, são fabricadas em escala industrial todos os dias. Nenhum de nós está imune às estratégias usadas pelas fake news. Não há como combater as notícias falsas, há como evitar a desinformação.

 

Artigo originalmente publicado na edição de novembro da Revista Scientific American Brasil


*Frederico Franz é jornalista, especialista em mídias digitais e coordenador de comunicação do Conselho de Informações sobre Biotecnologia