Neuza Brunoro e Raquel Azeredo

Há dois mil e quinhentos anos, o mundo recebia do grande Hipócrates um conceito revolucionário: “que o alimento seja o teu remédio e o teu remédio seja o alimento”. Chegamos ao século XXI endossando os “alimentos funcionais”, isto é, aqueles que, além da função de nutrir, oferecem benefícios adicionais à saúde humana, contribuindo para a prevenção de enfermidades ou retardando processos degenerativos.

A primeira geração de alimentos geneticamente modificados (GMs) visava ao meio ambiente ou ao agricultor. Já a segunda está diretamente ligada ao consumidor, pois a biotecnologia permite conferir certas propriedades desejáveis a alimentos comuns. Passamos a mencionar, a seguir, apenas alguns exemplos desse potencial que estimula nossas melhores expectativas.

Por meio de transgenia, o valor protéico da batata pode ser aumentado de 1% para 14%, o que permite prever grandes benefícios para populações de muitos países. Além disso, pode-se aumentar o teor de amido dos tubérculos, reduzindo a absorção de óleo durante o processo de fritura e, conseqüentemente, tornando o alimento mais saudável. Alguns tipos de batatas modificadas geneticamente – licenciadas nos Estados Unidos e Canadá – contêm uma proteína que protege a planta de ataques de insetos, o que permite reduzir o uso de inseticidas.

É possível também produzir, por meio da biotecnologia, variedades de batata com reduzido teor de substâncias tóxicas causadoras de doenças, presentes naturalmente nos tubérculos. Pesquisas semelhantes têm sido feitas com tomates, por uma técnica em que o gene responsável pela produção de tais substâncias indesejáveis é anulado.

Uma outra importante vantagem da aplicação da biotecnologia diz respeito ao potencial alergênico dos alimentos. Estima-se que 2% dos adultos e 8% das crianças sejam alérgicos a algum tipo de substância naturalmente presente em alimentos convencionais. A boa notícia é que substâncias que causam alergias podem ser removidas em alimentos transgênicos. Já se produziu uma variedade de arroz com baixíssima capacidade de causar alergia. Um alimento muito alergênico, o trigo, também está sendo modificado e as pesquisas são promissoras. Já no caso do amendoim, que possui proteínas alergênicas em grandes quantidades, a produção de variedades pouco alergênicas levará ainda algum tempo.

Alimentos enriquecidos

Anualmente, cerca de 500 mil crianças ficam cegas por deficiência de vitamina A. A biotecnologia levou à produção do “arroz dourado” e de outros alimentos ricos em betacaroteno, um pigmento amarelo-alaranjado que é convertido em vitamina A no organismo. O consumo desses alimentos poderá ajudar a reduzir a cegueira e a morte pela deficiência de vitamina A em países menos desenvolvidos. Outros produtos, como o tomate com alto teor de licopeno (um pigmento vermelho que tem propriedades antioxidantes), podem ajudar a reduzir o risco de diversos tipos de câncer e de doenças cardiovasculares.

A genética também pode ser de grande valia para a prevenção de doenças cardiovasculares. Para que os óleos sejam transformados em margarinas, é preciso que sejam hidrogenados, para “encorparem”. Esse processo faz com que se formem ácidos graxos na forma “trans”, cujo consumo excessivo tem sido associado a diversas doenças circulatórias. A biotecnologia permite obter variedades de soja cujos óleos não precisam de hidrogenação para uso industrial e, ainda, aumentar o teor de ácido esteárico, um tipo de gordura que não aumenta o colesterol sangüíneo. Também é possível fazer transformações no óleo de canola, de forma que sua composição fique parecida com óleo de peixes, rico em ácidos graxos ômega-3, que reduzem o risco de doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer.

Também foram desenvolvidas variedades transgênicas de soja e milho que contêm até dez vezes mais vitamina E em sua forma mais benéfica para o organismo, por seu efeito antioxidante.

Outras pesquisas tornam possível modificar arroz e trigo, de forma que esses alimentos se tornam fontes ricas em ferro, permitindo reduzir os casos de anemia que ocorrem em muitas partes do mundo.

Os benefícios da biotecnologia para a saúde precisam ser levados ao conhecimento da população. Quando o meio ambiente é protegido, com a redução de agrotóxicos, ganham a natureza e a saúde de homens e animais. Quando substâncias prejudiciais são retiradas dos alimentos ou quando o teor de nutrientes e componentes funcionais é elevado, todos são beneficiados.

E, além disso, o ataque ao maior problema nutricional dos seres viventes – a fome – pode ter na biotecnologia um aliado, em direção a um futuro mais digno, para que toda humanidade se alimente como é seu direito.

Neuza Brunoro e Raquel Azeredo são Ph.D em Tecnologia dos Alimentos, pesquisadoras do Departamento de Nutrição e Saúde da Universidade Federal de Viçosa e conselheiras do CIB.